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Análise do jogo "Soul Sacrifice" para PSVITA escrito por Eurogamer

Escrito por Eurogamer, nota 9 de 10, enviado por Anônimo,
É certo, sabido e incontestável, que Monster Hunter se tornou num sério caso de sucesso. Nasceu e cresceu no Japão, tornou-se num sucesso de escala mundial, tornou-se fenómeno nas portáteis e ainda ditou o rumo de algumas consolas caseiras. Quem não se lembra quando a Wii arrecadou a exclusividade caseira da série e deixou os consumidores PlayStation 3 à beira de um ataque de nervos? O mesmo aconteceu recentemente quando depois de todo o sucesso que desfrutou na PSP, Monster Hunter passou para a Nintendo 3DS e deixou novamente a Sony a passar ao lado de todo um fenómeno comercial. Praticamente todas as companhias japonesas têm procurado tirar proveito do sucesso da série da Capcom criando produtos derivados ou similares. Logo não é de admirar que a própria Sony decida patrocinar uma investida nas suas próprias plataformas que possa catalogar como sua. No entanto, nenhuma companhia conseguiu o mesmo nível de popularidade e apesar de cada uma tentar imprimir o seu elemento específico, o factor que o diferencia e que serve de medição para a singularidade das suas mecânicas de jogo, nenhuma teve o mesmo impacto. Eis que a Sony reúne uma equipa de especial talento com ideias suas que podem verdadeiramente conferir singularidade num mar que arrisca a banalidade. Mas Soul Sacrifice de Keiji Inafune está longe de ser uma resposta da Sony à perda da exclusividade de Monster Hunter, até porque nos tempos recentes surgiu uma outra referência no mercado. Quando em 2009 surgiu Demon's Souls, que também virou fenómeno por todo o globo, foi apresentado um produto que incorporava uma estranhamente deliciosa atmosfera combinada com uma fascinante jogabilidade. Ficou confirmado que o Japão poderia procurar algo novo, inovar e levar mais além fórmulas pré-estabelecidas. Desde então, a ideia de combinar Monster Hunter com Demon's Souls (a jogabilidade e estrutura de um com a atmosfera e mecânicas de jogo do outro) que parece estar a tornar-se cada vez mais evidente entre os criadores japoneses. Mais sobre Soul Sacrifice Notícias: Ken Kutaragi ingressa na Marvelous AQL Será o seu director externo. Notícias: Ocidente terá 3 DLC's gratuitos de Soul Sacrifice Neste mês e no próximo haverá novos pacotes. Notícias: Lançamentos da Semana - Far Cry 3: Blood Dragon, Soul Sacrifice e Fez Uma semana dominada pelo formato digital. Vídeo: Soul Sacrifice- - Trailer com DLCs para o Japão O mais recente sucesso da Vita. Screenshots: Soul Sacrifice - Imagem revela datas DLCs Desde que deixei a demonstração de Soul Sacrifice que fiquei com as expectativas em alta, completamente fascinado com o trabalho apresentado. Após mais de uma semana com a versão final, fica realmente atestado que o produto conjunto do Marvelous AQL com o Sony Japan Studios é um produto de excelência que tem até qualidade para inspirar futuras obras e deixar a sua marca no mercado Japonês. Para tal, contribui em muito a mecânica e filosofia central de toda esta experiência, o sacrifício que é pedido ao jogador. Soul Sacrifice decorre num mundo no qual os feiticeiros representam uma parte importante da sociedade. Caçam monstros que ameaçam as povoações e são os responsáveis por caçar todos os humanos que se transformaram em monstros. Existem animais que foram transformados em monstros e existem humanos, e até feiticeiros, que se transformaram devido a situações específicas da sua vida. Nós vamos assumir o papel de uma pobre alma que está prestes a morrer e tenta a todo o custo evitar esse desfecho. Singular, profundo e cativante. Do melhor existente na Vita. Para tal em muito contribui Necrom, um livro que fala e cujas histórias nele escritas vamos viver. Durante o processo vamos aprender tudo o que fazemos para podermos lutar pela nossa vida e assim conhecer uma fábula distorcida que em muito debate o ser humano e os seus principais pecados, desde cobiça, inveja, ou ganância. Mais do que a própria história em si, o que mais fascina aqui é a forma como é contada. Com vozes arrepiantes e tons desconfortáveis, com temáticas sempre a explorar a condição humana e a dualidade comportamental sobre o sacrifício ou não de almas corrompidas. Por vezes perdi o fio à meada e confesso que tive que reler passagens de algumas páginas para perceber o que o enredo pretendia transmitir mas toda a apresentação, o enquadramento no livro e os personagens, assim como os seus respectivos acontecimentos, deixaram uma impressão fantástica. Tudo com a palavra sacrifício sempre presente. Na experiência de jogo isto traduz-se em pequenos níveis com objectivos específicos que correspondem a cada novo capítulo do jogo. Se jogaram a demonstração sabem que vão acompanhar a jornada de Magusar, feiticeiro extraordinário que ficou maluco e ameaça agora a nossa vida. Necrom narra a sua jornada e nós vamos viver esses capítulos, ou missões, que nos vão tornar mais fortes para ter qualquer hipótese. Eliminar determinado número de inimigos ou derrotar um boss são os principais e mais comuns objectivos que vão encontrar no jogo, a única excepção é encontrar pequenos itens que reconstituem um capítulo mas de resto apenas existem esses dois objectivos. É pouco e a médio-longo prazo podem tornar-se aborrecidos, mas o que separa este jogo de acção e aventura cruzado com RPG, são mesmo as mecânicas base da sua jogabilidade. Como é habitual nos produtos do género, temos que martelar os botões para em tempo real atacar os inimigos ou bosses que vagueiam pelos cenários. No entanto aqui não temos armas, nem sequer escudos ou botas/armaduras a equipar. Aqui temos apenas magias que podemos usar e inimigos a salvar/sacrificar. Cada magia tem um determinado número de vezes que pode ser usada e existem vários tipos dela. Desde magias para criar armas como espadas ou martelos, magias que criam escudos de defesa, magias que criam armaduras baseadas nos elementos, magias para recuperar vitalidade, magias que nos dão rochas que podemos arremessar, até magias que criam monstros de porte médio para nos assistirem. Existem magias dos mais variados tipos e todas com uma enorme criatividade. Nenhuma delas parece ser verdadeiramente inovador mas são engenhosas e interessantes na forma como parecem dar uma nova perspectiva sobre mecânicas existentes. Ao invocar um machado, por exemplo, ganhamos a capacidade para atacar um adversário e toda a jogabilidade é imensamente divertida. O sistema de Lock-on é altamente competente, a velocidade de deslocação e do desvio é fluída e rápida e Soul Sacrifice sente-se mesmo como um produto coeso e forte na sua jogabilidade. Todo este esquema de sacrifício faz com que seja preciso gestão do arsenal (existem pontos para recuperar a quantidade de vezes que podemos usar uma magia) e SS cumpre o requisito mais básico de um videojogos, é divertido de jogar. A progressão do jogador está intimamente ligada ao conceito de salvamento/sacrifício dos inimigos e bosses. Ao salvar/sacrificar estamos a ganhar pontos azuis ou vermelhos das suas respectivas barras que quando preenchidas aumentam o seu nível. No lado azul temos um aumento da defesa e no vermelho um aumento dos ataques mágicos que tão importantes são nesta experiência. Como referido, o elemento sacrifício é central nesta experiência e vamos ter que escolher salvar ou sacrificar alguns dos humanos que se tornaram em monstros, caso os salvem eles vão-se juntar à vossa jornada e podem ser usados em missões secundárias. A sua escolha e gestão é feita na secção Portraiture que é precisamente onde criamos o nosso retrato naquele conto. Sexo, cabeça, fato e voz são as opções de personalização que temos e cada uma tem um número aceitável de opções, satisfazem e aqui o elogio vai mesmo para o design dos fatos. Soul Sacrifice - 7 minutos gameplay Quanto mais usam um aliado maior a sua afinidade connosco e mais poderoso se torna, algo que se torna útil consoante as missões crescem na sua dificuldade. Preparar a nossa Sacola é vital, pois é aqui que temos as tais magias que nos acompanham nas batalhas. Onde as escolhemos, melhoramos, e até combinados para criar mais poderosas. É um ecrã que vão ver com frequência e a sua apresentação está acessível, mas vai precisar de algum hábito para compreenderem os efeitos das melhorias e combinações. O nosso braço direito tem propriedades especiais e nele podem gravar selos que conferem habilidades especiais (como maior defesa/dano, resistência ao fogo e do género) e que nos colocam em três categorias diferentes: Neutro, Divino, Negro (onde os aliados também se inserem). Por fim temos também os Rituais Negros que são as magias que representam sacrifícios maiores que afectam o jogador no campo de batalha. Usar uma destas poderosas magias apenas pode ser feito uma vez por missão e todas tem um custo severo no jogador, forçando estratégia e cautela nos combates. O sacrifício de uma magia poderosa como esta pode ser a vossa pele, baixando severamente a vossa defesa e podendo colocar em risco toda a missão caso mal usada. Quando Necrom vos pede para limpar as suas Lacrimas já sabem para que servem, para pagar o custo do sacrifício destas magias negras (para as poderem voltar a usar) e também para recuperarem aliados tombados em combate, caso estes fiquem perdidos ou esquecidos no meio das histórias. Todos estes elementos fazem mais do que dar ao jogador um personagem completamente envolto em toda a mitologia deste novo mundo, mostram-lhe como a jogabilidade respeita as ideias bases que deram vida a este jogo, e como se mune de elementos singulares para dar a uma experiência de jogo há muito estabelecido e há muito usada algo distinto e fresco. Este é mesmo o maior valor de Soul Sacrifice, como consegue parecer claramente uma inspiração de produtos estabelecidos existentes no mercado, mas ao mesmo tempo mostrar que os soube interpretar e ajustar para a sua particular visão. O resultado é todo um jogo divertido de jogar mas que pede toda a atenção do jogador para o dominar e verdadeiramente compreender. A sintonia dos demais elementos é gratificante porque ficamos envolvidos e sentimos que é diferente dos produtos similares que já temos. Como seria de esperar, Soul Sacrifice dá uma alternativa ao jogador na forma de Inside Avalon, nada mais que missões secundárias que também elas mostram um pouco mais de todo esta distorcida fábula. Aqui temos os Avalon Pacts que são essas missões extra divididas por dificuldades e consoante vamos cumprindo umas, outras vão-se abrindo. Algumas delas dependem se salvam ou sacrificam um boss numa anterior e consoante vamos jogando mais Phantom Quests (o nome dos capítulos no jogo) vão surgindo. Existem até Pactos Esquecidos nos quais temos que cumprir as missões com objectivos adicionais (como terminar em determinado tempo), e confesso que foram bem divertidos pois sempre forçam desafio extra ao jogador. Caso queiram algo com mais história em suporte, temos os Fellow Sorcerers que são histórias com cerca de 5 capítulos cada que narram uma aventura ao lado de um feiticeiro específico, que depois fica disponível para ser usado no resto das missões Inside Avalon. Como se isto não bastasse, e para atestar todo o cuidado empregue na criação deste mundo, temos a secção Lore que nos instruiu em tudo o que consiste este mundo. Se quiserem mesmo conhecer todas as histórias que narram acontecimentos deste mundo, contem com uma centena de páginas sobre História, Mitos, Feiticeiros, Monstros, e outras criaturas ou locais que compõe este universo. Acreditem que ler contos sobre terras fictícias com uma enorme fantasia em seu redor é um gratificante selo de qualidade que o produto pode apresentar-vos. Além disto podem, tal como já conferiram na demonstração se pertencem ao exército de curiosos por SS, aderir ao multi-jogador que nada mais faz do que conferir longevidade extra ao produto. É tudo muito simples, criam/entra numa sala, escolhem uma missão Avalon e podem partilhar para a troca de galhardetes em modo cooperativo. Tudo muito simples e tudo muito divertido, especialmente se quiserem ver como outros interpretam a filosofia central do jogo. O multi-jogador faz até mais do que isso, vai torná-lo um pouco mais fácil e tolerável pois confesso que por vezes tive vontade de desistir do jogo devido à dificuldade de algumas missões. No entanto, a hora do grinding revelou que SS é até mais amigo do que podem pensar, o problema está na curva de dificuldade que pode ter alguns picos ocasionais. De resto temos toda uma estrutura bem interligada que concede constantemente missões secundárias para o jogador enfrentar e subir de nível mas a todo o momento sentimos que acompanhados, onde possível, a experiência ganha mais valor. Visualmente este é um título que cumpre. Coloca-se entre os melhores produtos na portátil mas tal como escrevi na antevisão, o encanto está no design e criatividade artística ao invés do poder tecnológico. Enquanto técnicas como aliasing parecem ter ficado de fora e os cenários poderem ter texturas feias aos quadrados, o encantador design que vemos aqui é incrivelmente fascinante. Um mundo de fantasia criado de raiz para este jogo que nos leva para variados locais, cada um com a sua própria história e tema. A fluidez dos combates e o rápido movimento dos personagens certamente foram o centro das atenções dos programadores e tal é uma aposta ganha. Num jogo destes o prazer que se obtém dos combates é fulcral e fica a sensação que os visuais foram geridos sempre com o sistema de combate e mecânicas de jogo em primeiro plano. Quase como se, caso preciso, os cortes iam para a vertente técnica. Isto não quer dizer que o jogo não tem momentos de espantar, tem, apenas não são tantos quanto se poderia esperar caso o centro tivesse sido colocado no aparato visual. Pouco mais de um ano e a Vita tem aqui um dos seus mais poderosos produtos. Se Keiji Inafune é um nome a reter neste jogo, também Yasunori Mitsuda e Wataru Hokoyama são nomes que marcam aqui. Referir que o primeiro tem no currículo jogos como Chrono Trigger e Chrono Cross é uma boa forma de atestar a sua qualidade e quando sentirem que a banda sonora está a entranhar-se em vocês, já sabem a quem tem que reconhecer o talento. As vozes que dão vida aos personagens cumprem e talvez apenas a de Magusar se destaque verdadeiramente. Este é um departamento no qual SS me conquistou e fiquei verdadeiramente impressionado. A repetição incessante de bosses tira alguma da sua personalidade e tira-lhe alguma da sua magia mas temos aqui um produto altamente competente e satisfatório que vai durar horas e horas. Contem com bem mais de 30 horas e caso decidam aderir ao multi-jogador online então vão ter jogo para o dobro ou mais. Pena que seja quase obrigatório jogar com outros jogadores para evitar cansaço e frustração mas de resto este é um produto que só posso elogiar. Existem arestas a limar e melhorias que podem ser aplicadas mas para um primeiro produto, é um produto exemplar e na PlayStation Vita é verdadeiramente especial. Soul Sacrifice é exigente, por vezes desnecessariamente, é imersivo e envolve o jogador num novo universo que parece ter nascido de uma distorcida perspectiva sobre as fábulas de criança. O seu modo multi-jogador salva-o de frustrações e equilibra a experiência. Não é o melhor exemplo das capacidades singulares de que a portátil é capaz (a não ser que queiram derrubar Necrom tocando no ecrã táctil) mas é um fantástico exemplo de como um projecto AAA pode ser pensado e moldado tendo em conta as fraquezas e forças específicas desta PlayStation Vita. Soul Sacrifice é um dos produtos mais singulares e mais carismáticos da PlayStation Vita até hoje. É um produto de futura referência que caso se faça justiça não se ficará somente por este primeiro capítulo. Tem potencial para mais e potencial até para passar para outras consolas da companhia. É todo um universo que nasce aqui com qualidade que merece perdurar em futuras incursões. É difícil, desafiante, vicia e certamente vai gerar toda uma devota comunidade em seu redor. Com alguns ajustes e melhorias pode transcender para algo mais no catálogo Sony. 9 / 10
Fonte: Eurogamer
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