Katsuhiro Harada, ex-diretor da franquia Tekken, usou o X para compartilhar uma visão honesta e pouco romantizada sobre o que é, de fato, viver no Japão, e o recado foi direto: o país não é o paraíso de anime que muita gente imagina antes de comprar a passagem.
O comentário de Harada surgiu em resposta a um post viral que elogiava o Japão em termos quase absolutos: a qualidade da comida, a eficiência do transporte público, a gentileza da população e a cultura gamer do país. O fascínio pelo país é real, mas Harada quis colocar os pingos nos is.
“Viver no Japão pode se encaixar melhor para algumas pessoas do que para outras. É verdade que o trabalho tende a ocupar uma parcela relativamente grande do estilo de vida das pessoas por aqui, e, mais importante, embora isso exista em algum grau em todos os países, o Japão comparativamente tende a recompensar ‘relações pessoais e política interna’ em vez de pura competência quando se trata de promoções“, escreveu o ex-diretor de Tekken.
A frase seguinte resume bem o tom do desabafo: “Em outras palavras, definitivamente existe uma cultura do ‘o prego que se destaca é martelado’, e acho que muita gente sofre com isso.” O ditado japonês ao qual Harada se refere — deru kui wa utareru — é bastante conhecido no país e descreve a pressão social de não sair da linha, de não se sobressair demais em relação ao grupo.
Harada também citou a rigidez nas regras e procedimentos como uma característica marcante da cultura japonesa. Para ilustrar o ponto de forma prática, ele recorreu à sua recente visita ao Waffle House nos Estados Unidos, onde conseguiu comprar o cardápio físico do restaurante como lembrança, e fez a comparação: “Se houvesse um Waffle House no Japão, provavelmente eles nunca teriam me vendido o cardápio físico como souvenir por causa da política da loja, mesmo que eu pedisse.”
O ponto mais contundente do texto de Harada, no entanto, foi a descrição de um cenário que ele chama de “cena de filme”, e que, segundo ele, é mais comum do que deveria na vida real. “Situações em que alguém que 99 em cada 100 pessoas considerariam completamente incompetente, alguém basicamente desconhecido no setor exceto pelas intermináveis histórias sobre sua incompetência, de alguma forma é promovido a uma posição executiva absurdamente alta, deixando organizações inteiras em choque e perplexas… essas situações genuinamente existem ao nosso redor”, escreveu ele.
O ex-diretor de Tekken não apontou nomes ou empresas específicas, mas a descrição cirúrgica foi suficiente para gerar repercussão nas redes sociais. No contexto do mercado de games japonês, onde Harada passou décadas, a leitura do comentário ganha ainda mais peso.
O texto de Harada não é um ataque ao Japão, ele mesmo reconhece que o país oferece qualidades reais e que pode ser um ótimo lugar dependendo do perfil da pessoa. Mas serve como um contraponto necessário à onda de posts que pintam o país exclusivamente com as cores de uma viagem de férias de dez dias em Tóquio.
Fonte: Dexerto
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