God of War
A decisão da Sony de abandonar os discos em futuros lançamentos do PlayStation continua provocando uma forte reação entre jogadores, colecionadores e defensores da preservação de games. A partir de janeiro de 2028, novos títulos lançados para os consoles da marca não terão versões físicas produzidas pela empresa.
A mudança não afetará jogos disponibilizados antes desse prazo. Isso significa que títulos já lançados ou programados para chegar ao mercado até o final de 2027 ainda poderão receber versões em disco. Depois disso, os novos jogos serão comercializados pela PlayStation Store ou por varejistas apenas em formatos digitais.
Embora grande parte da comunidade tenha criticado a medida, David Jaffe, criador de God of War e diretor do primeiro jogo, acredita que existe uma explicação comercial relativamente simples para a escolha da Sony: a maioria dos consumidores já compra seus jogos digitalmente.
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Em uma publicação nas redes sociais, Jaffe comentou que a ideia de que “o cliente sempre tem razão” se torna mais complicada quando diferentes grupos de consumidores querem coisas opostas. Segundo o desenvolvedor, a Sony provavelmente está aplicando outra lógica: “as necessidades da maioria dos clientes superam as necessidades de um grupo menor”. Em outras palavras, a empresa estaria priorizando o comportamento da parcela mais numerosa de sua base, mesmo que isso desagrade profundamente quem ainda prefere comprar discos.
For most business owners, the customer IS always right. But when you have different customers wanting different things, my guess is the addage also says something like, 'The needs of the many customers outweigh the needs of the fewer customers'. https://t.co/qooGpf7SuP
— David Jaffe (@davidscottjaffe) August 4, 2026
A declaração não significa necessariamente que Jaffe considere as preocupações com a mídia física irrelevantes. Seu argumento está concentrado no lado comercial da decisão: manter fábricas, distribuição, embalagens e toda uma estrutura de varejo para atender uma fatia cada vez menor do mercado pode deixar de ser interessante para a Sony. E os números divulgados pela própria companhia ajudam a entender esse raciocínio.
Durante o primeiro trimestre do ano fiscal de 2026, a Sony vendeu 66,1 milhões de jogos completos para PS4 e PS5. Desse total, 82% foram adquiridos por meio de downloads digitais. No ano fiscal anterior completo, a proporção ficou em 78%.
É importante observar que essa porcentagem considera apenas unidades de jogos completos. Conteúdos adicionais, moedas virtuais, expansões e microtransações não entram no cálculo. Portanto, não se trata de uma comparação inflada pela receita de serviços ou compras dentro dos jogos.
Ainda assim, o resultado mostra que apenas 18% das unidades comercializadas no trimestre eram físicas. Mesmo representando milhões de cópias, esse grupo já é consideravelmente menor do que o público que compra diretamente pela PlayStation Store.
Outro dado recente reforça essa diferença. Segundo Mat Piscatella, analista da Circana, somente sete jogos de PlayStation ultrapassaram a marca de 100 mil cópias físicas vendidas nos Estados Unidos ao longo de 2026. O levantamento considera apenas o mercado norte-americano, mas oferece uma dimensão da concentração atual das vendas em disco.
Jacob Navok, ex-diretor de desenvolvimento de negócios da Square Enix, também participou da discussão. Ele destacou que uma cópia física vendida pelo mesmo preço de uma versão digital gera despesas adicionais com fabricação, embalagem, transporte, armazenamento, devoluções, produtos defeituosos e unidades roubadas.
Em uma venda digital, boa parte dessas etapas desaparece. No caso dos jogos produzidos pela própria Sony, a companhia também controla a loja, a distribuição e o pagamento, preservando uma parcela maior da receita. Navok argumenta que os consumidores realmente interessados em preservar a mídia física deveriam aceitar pagar mais para compensar esses custos. Essa parte de sua declaração, porém, é mais discutível. Os jogadores não determinam os preços e nunca receberam uma opção clara na qual edições físicas mais caras garantiriam a continuidade do formato.
Também não é possível saber quantos consumidores aceitariam pagar um valor adicional enquanto nenhuma grande fabricante testa esse modelo de maneira ampla. Edições de colecionador mostram que existe um público disposto a gastar mais, mas não necessariamente em quantidade suficiente para sustentar versões físicas de todos os lançamentos.
O fato de a maioria comprar jogos digitais não elimina a importância dos discos. Uma cópia física pode ser emprestada, revendida, trocada ou comprada usada. Também permite que diferentes lojas disputem preços, algo que normalmente acontece com menos intensidade quando a distribuição depende de uma única loja controlada pela fabricante do console.
Com o modelo totalmente digital, o mercado de usados desaparece para os novos lançamentos. O jogador também passa a depender da disponibilidade de sua conta, das políticas da plataforma e da manutenção dos servidores utilizados para baixar novamente os produtos adquiridos.
Esse impacto pode ser especialmente relevante em países onde jogos novos possuem preços elevados. Muitas pessoas conseguem acompanhar os grandes lançamentos justamente revendendo um título após terminá-lo ou esperando que cópias usadas fiquem mais baratas.
Por isso, os 18% que ainda compram jogos físicos podem ser uma minoria dentro das estatísticas da Sony, mas não formam necessariamente um grupo pequeno ou dispensável do ponto de vista do consumidor.
Existe ainda uma complicação adicional. A presença de um disco dentro da caixa não garante que todo o jogo esteja armazenado nele em condições ideais. Um levantamento do grupo de preservação DoesItPlay indica que 34% dos jogos físicos testados no PS5 precisam de algum download relevante, seja para corrigir problemas graves ou disponibilizar conteúdo necessário. Considerando todas as plataformas presentes no banco de dados do projeto, 73% das versões avaliadas não exigem downloads obrigatórios.
O dado não torna os discos inúteis. Pelo contrário, mostra que muitas versões físicas ainda podem ser instaladas e executadas sem depender permanentemente de servidores. Também sugere que a discussão deveria envolver padrões melhores para os conteúdos armazenados no disco, em vez de apenas eliminar o formato.
Mesmo um jogo que precisa de atualização pode manter no disco uma versão básica utilizável. Em um produto exclusivamente digital, não existe essa alternativa caso o título seja removido da loja ou se torne incompatível com os sistemas futuros.
Apesar da repercussão, a Sony já indicou que não pretende recuar. Durante a apresentação de seus resultados financeiros mais recentes, a diretora financeira Lin Tao reconheceu que os jogadores possuem “opiniões fortes” sobre a mídia física, mas afirmou que a empresa não prevê impactos negativos em seus negócios com a mudança.
A executiva relacionou a decisão ao processo de digitalização observado em diferentes setores do entretenimento. A Sony entende que a conveniência das compras online e a preferência demonstrada pelos consumidores tornam a transição inevitável.
O argumento de David Jaffe, portanto, ajuda a explicar por que a pressão de colecionadores pode não ser suficiente para mudar os planos. Para a Sony, não se trata apenas de escolher entre discos e downloads, mas de decidir se vale a pena manter uma estrutura cara para uma parcela que representa menos de um quinto das vendas atuais.
Isso não encerra o debate. O formato digital pode ser mais conveniente e lucrativo, mas também reduz opções de compra, elimina a revenda e aumenta o controle da plataforma sobre preços e acesso. Caso os discos realmente desapareçam em 2028, a próxima cobrança dos consumidores provavelmente envolverá preços digitais mais competitivos, melhores políticas de reembolso e garantias mais claras de que os jogos comprados continuarão disponíveis no futuro.
Fonte: GamesRadar
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