Comprar um jogo em disco deveria significar ter o título completo dentro da caixa, pronto para ser instalado e jogado mesmo sem acesso à internet. Na atual geração de consoles, porém, essa garantia está cada vez mais distante da realidade. Um levantamento conduzido pelo grupo de preservação DoesItPlay aponta que 34% dos jogos físicos testados no PS5 dependem de algum tipo de download. No Xbox Series X, a situação é ainda mais preocupante: metade (50%) das edições analisadas precisa da internet para receber arquivos, correções ou conteúdos considerados essenciais.
Isso não significa que todos esses discos sejam completamente inúteis. Em muitos casos, o jogo pode até ser instalado e iniciado diretamente pela mídia física, mas apresenta erros graves, problemas de desempenho ou conteúdos ausentes que tornam a atualização praticamente obrigatória. O estudo analisou milhares de edições físicas em diferentes consoles. Os testes são realizados em aparelhos desconectados da internet e utilizando contas locais que nunca acessaram serviços como PlayStation Network, Xbox Network, Battle.net ou outras plataformas online.
A equipe instala cada jogo diretamente do disco, tenta concluir a campanha principal e verifica a existência de travamentos, erros que impedem o progresso, exigências de login e conteúdos que precisam ser baixados separadamente. Segundo o DoesItPlay, 27% dos 3.511 jogos físicos testados até agora precisam de algum download para “corrigir erros que impedem o progresso ou obter conteúdos essenciais” que não estão presentes no disco.
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DoesItPlay utiliza quatro classificações diferentes para a categoria “download obrigatório”:
- Não: O jogo completo está na “mídia física”, disco ou cartucho, não possui bugs significativos que exijam correções e “apenas conteúdo insignificante” requer download.
- Não*: o jogo está completo em termos de conteúdo, mas “apresenta bugs que são muito graves ou em número excessivo para serem fornecidos”, ou está faltando conteúdo menor acessado por meio de downloads.
- Sim*: Você pode terminar este jogo com “uma tolerância muito alta a bugs ou sorte para progredir além deles”, ou o jogo não possui “conteúdo secundário significativo”, como DLCs de história, novos personagens e assim por diante.
- Sim: Se um “aviso fixo para download” não te impedir, bugs que quebram o jogo ou conteúdo essencial que só pode ser baixado irão te impedir.
Nem todo jogo que funciona offline está completo
O DoesItPlay utiliza diferentes classificações para determinar o estado de cada lançamento físico. A melhor avaliação é concedida aos jogos que trazem todo o conteúdo principal no disco e podem ser concluídos sem atualizações importantes. Outros títulos funcionam offline, mas possuem uma quantidade elevada de bugs ou deixam pequenos conteúdos de fora. Nos casos mais graves, o jogador pode encontrar falhas que bloqueiam o progresso, campanhas incompletas ou mensagens obrigando a realização de um download.
Cyberpunk 2077 é um dos exemplos mais conhecidos. A versão original pode ser instalada e iniciada sem conexão, mas chegou aos consoles com quedas de desempenho, objetos surgindo repentinamente, travamentos e inúmeros bugs. Na prática, o disco contém uma versão jogável, mas os problemas encontrados no lançamento fazem com que os patches sejam praticamente indispensáveis para uma experiência aceitável.
Xbox apresenta a situação mais preocupante
De acordo com Clemens Itsel, responsável pelo DoesItPlay, o Xbox teria deixado de priorizar edições físicas totalmente funcionais há bastante tempo. Além dos downloads frequentes, alguns jogos exigem que o usuário crie ou conecte uma conta da Microsoft. Para o especialista, essas práticas reduzem deliberadamente o valor dos discos ao transformá-los em produtos incompletos ou dependentes de serviços online.
O problema também pode estar relacionado à forma como o Xbox Series X utiliza a retrocompatibilidade. Algumas edições físicas não armazenam a versão completa destinada ao console atual e funcionam apenas como uma autorização para baixar os arquivos corretos pela internet. Isso significa que o disco continua sendo necessário para validar a propriedade do jogo, mas não contém todos os dados necessários para executá-lo.
O problema não está restrito ao PlayStation e ao Xbox
A Nintendo também vem sendo criticada por causa dos cartões-chave do Switch 2. Esses produtos são vendidos em caixas e utilizam cartuchos físicos, mas o jogo propriamente dito precisa ser baixado. Nesse formato, o cartucho funciona essencialmente como uma chave de acesso. Sem conexão com a internet e sem os servidores responsáveis pelo download, ele não é capaz de entregar o conteúdo adquirido pelo consumidor.
Para os grupos de preservação, essa prática pode transmitir a falsa impressão de que o comprador está levando uma cópia tradicional para casa, quando na realidade está adquirindo uma licença física vinculada a um download.
O que acontece quando os servidores forem desligados?
A dependência de atualizações não costuma ser um grande problema enquanto as lojas digitais e os servidores continuam funcionando. O risco aparece a longo prazo, quando empresas encerram serviços, removem arquivos ou deixam de oferecer suporte a consoles antigos.
Nesse cenário, um jogo incompleto no disco pode perder correções importantes, conteúdos adicionais e até mesmo os arquivos necessários para ser iniciado. A situação preocupa especialmente colecionadores e preservacionistas. Uma das principais vantagens da mídia física sempre foi permitir que o consumidor mantivesse acesso ao jogo mesmo depois do fim de uma loja digital.
Quando o disco depende de servidores externos, porém, essa segurança deixa de existir. O produto continua ocupando espaço na prateleira, mas pode não guardar uma versão completa e funcional da obra. Com Sony, Microsoft e Nintendo ampliando a distribuição digital, a discussão já não envolve apenas a preferência entre caixas e downloads.
A principal dúvida agora é se os consumidores realmente continuarão sendo donos dos jogos que compram ou se estarão apenas adquirindo permissões temporárias para acessá-los.
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Fonte: GamesRadar e Arstechnica
