The Sinking City 2 representa uma mudança bastante ousada para a Frogwares. Em vez de continuar apostando principalmente na investigação e no mundo semiaberto do primeiro jogo, o estúdio decidiu mergulhar de cabeça no survival horror tradicional e o resultado é uma experiência claramente inspirada em franquias como Resident Evil e Silent Hill, mas com uma identidade lovecraftiana bastante própria.
O primeiro The Sinking City era um título que acabou dividindo os jogadores, não agradando a todos, mas era inegável que acabou conquistando um status de ‘jogo cult’ justamente por sua incrível ambientação e adaptação da mitologia de Lovecraft.
Com essa sequência, o estúdio não decepciona e entrega novamente uma excelente atmosfera. A cidade de Arkham é toda muito bem construída, com a cidade inundada e cenários decadentes, criando um ambiente realmente pesado e desconfortável.
Na questão gráfica, o jogo também trouxe uma grande melhoria sobre seu antecessor. Embora ainda não esteja no nível dos grandes nomes do gênero, como Resident Evil, a equipe fez um bom trabalho com o que tinha em mãos, entregando uma ótima combinação de texturas e iluminação que conseguem dar vida ao mundo do jogo e passar a sensação real de desolamento.
A principal mudança no jogo é que ele abraça de vez o estilo survival horror para uma experiência mais focada na ação, exploração e puzzles. Elementos clássicos como escassez de munição, cura e espaço no inventário estão presentes, trazendo aquele clima de micro-decisões constantes que os fãs do gênero tanto amam.
Com o novo estilo, também veio uma abordagem mais contida para sua campanha. Enquanto no primeiro os jogadores exploravam uma pequena cidade atrás de pistas e realizando investigações, aqui a estrutura é muito mais linear, com os jogadores sempre seguindo em frente através de áreas interconectadas, embora com momentos de exploração.
É claro, nada adianta tais mecânicas se o combate não for satisfatório. Uma das principais críticas no primeiro jogo foi justamente o seu combate, mas a equipe deu muito mais atenção a esse elemento na sequência. Os tiroteios funcionam muito bem, com as armas tendo boa resposta e os controles estando muito mais modernos.
Os confrontos também são bem mais divertidos de se participar. Pelo foco no survival horror, agora há uma maior sensação de vulnerabilidade, deixando o jogador sempre atento ao perigo. O jogo também traz mecânicas interessantes para o combate, como pontos fracos nos inimigos e criaturas que conseguem reanimar cadáveres, o que torna tudo muito mais imprevisível.
Tudo funciona muito bem e ajuda a expandir a fórmula na direção certa. A Frogwares conseguiu encaixar os melhores elementos dos survival horrors modernos, dando uma nova vida ao jogo. No entanto, essa troca também exigiu mudanças profundas.
O sistema de investigação, um dos pontos mais diferentes do jogo original, acabou perdendo espaço. Embora ele seja um survival horror muito mais competente, para quem gostou do primeiro justamente pelo tom investigativo, pode não se agradar tanto da mudança.
Como todo bom survival horror que se preze, The Sinking City 2 entrega uma excelente combinação de level design, exploração e puzzles. O jogo traz diversas áreas grandes e interconectadas, cheia de caminhos para o jogador abrir e locais opcionais para encontrar. Você pode viajar entre essas áreas usando um barco para percorrer as áreas inundadas, não muito diferente do que vimos em God of War de 2018.
O backtracking, mecânica de retornar a lugares anteriores, também foi muito bem aproveitada no jogo. Conforme você avança, sempre há incentivo para voltar aos cenários antigos para superar obstáculos que antes eram impossíveis, com novas recompensas esperando pelo jogador.
Mesmo com as grandes melhorias no combate e mudança no estilo, o que mais acabou me conquistado no jogo foi sem dúvida os seus puzzles. Apesar de não ter mais o foco investigativo do primeiro, a sequência traz um sistema de pistas, onde encontrar documentos e outras informações espalhadas pelo mapa permite encontrar soluções para enigmas e desafios opcionais.
Tudo funciona de forma extremamente intuitiva e ajuda a trazer aquela sensação de investigação do primeiro jogo. Além disso, como os puzzles são em sua maioria desafios secundários, o jogo permite que o jogador foque apenas na campanha caso prefira mais ação e exploração, ou que vá além disso com os quebra-cabeças opcionais.
Toda a mitologia criada por Lovecraft se tornou um enorme fenômeno na cultura pop por sua originalidade e estética. Muitos jogos cometem o erro de utilizar a temática como pano de fundo, mas na superfície ser apenas um jogo de terror padrão. Por sorte, The Sinking City 2 não comete esse erro.
A história trabalha bem a ideia de entidades incompreensíveis e a fragilidade da percepção humana, conceitos básicos das obras de Lovecraft, e traz algumas reviravoltas que consegue deixar o jogador investido em sua narrativa. O personagem principal também apresenta muito mais profundidade que no jogo original. Sua missão pessoal e o relacionamento com Faye Bennett são bem trabalhados e ajudam a trazer um peso emocional para a narrativa.
As monstruosidades que habitam Arkham também merecem um destaque, com designs que parecem sair diretamente dos livros do autor. No entanto, se o design de inimigos agrada, não podemos dizer o mesmo da variedade. Do começo ao final da campanha, a quantidade é pequena, com o jogo repetindo os mesmos com muita frequência.
Boa parte dos inimigos humanos infectados acabam sendo extremamente similares. Uma maior variedade de inimigos comuns teria dado muito mais vida ao combate, e com o rico universo Lovecraft, referências eram o que não faltavam.
Se o combate trouxe melhorias significativas em relação ao primeiro, infelizmente o mesmo não pode ser dito das batalhas com chefes. O grande trunfo de The Sinking City 2 são seus elementos de survival horror, criando tensão a cada combate, mas esse aspecto acaba sendo completamente removido durante as grandes batalhas principais.
Nesses confrontos com chefes, a tensão é praticamente jogada fora em troca de uma aposta ainda maior na ação, com munições e recursos aparecendo infinitamente. Do nada, toda aquela estratégia de usar os recursos de forma inteligente não existe mais e vira uma troca de tiro contra criaturas, onde não há mais aquele medo e pressão clássicos do survival horror.
Embora seja compreensível o estúdio não querer que jogadores fiquem presos por falta de recursos, a solução encontrada acaba limitando o potencial dos chefes e tornando os confrontos menos perigosos do que os encontros normais durante a exploração.
Como já comentei anteriormente, na parte visual o jogo é competente tecnicamente, entregando visuais bonitos e texturas de alta qualidade, tudo isso rodando muito bem. No entanto, quando se trata das animações dos personagens, o jogo mostra o seu orçamento reduzido.
As animações faciais, em especial, acabam chamando atenção por não estarem no mesmo nível técnico que os gráficos do jogo. Durante as cutscenes é notável que as expressões deixam a desejar, especialmente quando comparadas a outros jogos no mercado.
Os atores fizeram um excelente trabalho trazendo os personagens à vida, com uma ótima atuação dos principais, mas isso só torna os problemas de expressões ainda mais evidentes para o jogador.
The Sinking City 2 é um caso curioso de uma sequência que abandona boa parte da identidade mecânica de seu antecessor para se tornar um jogo melhor dentro de um gênero diferente. Para os fãs de Resident Evil, esse novo jogo é um prato cheio e o mais próximo que encontrarão do jogo da Capcom.
O jogo se destaca pela sua atmosfera excepcional, com grande foco em gerenciamento de recursos, exploração e puzzles. É notável o quanto a equipe ouviu o feedback do primeiro jogo, com melhorias claras no combate e em outros aspectos.
Essa sequência ainda falha em alguns pontos, como uma baixa variedade de inimigos, batalhas com chefes não tão empolgantes e em especial limitações técnicas nas animações, mas ainda assim consegue entregar um jogo divertido e que consegue com sucesso encontrar um novo caminho para a franquia.
Pontos Fortes:
Pontos Fracos:
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