Viagem. As viagens podem servir para uma escapatória à rotina do dia-a-dia, para romper com o mundano e partir à procura de algo novo; são por vezes uma catarse pessoal, depois de interiorizarmos e percebermos todas as fases pelas quais percorremos.
Esta é a proposta que vos faço. Viajar para lugares únicos e conhecerem as maravilhas concebidas na forma de entretenimento mais jovem da nossa sociedade: os videojogos. Com uma frequência ainda por definir, partilharei convosco as minhas jornadas passadas com clássicos de culto, nas várias plataformas disponíveis. Seja no PC, numa consola doméstica ou portátil, haverá sempre uma história por contar.
A semana passada, aproveitando a onda de popularidade de BioShock Infinite, decidi ir até à aeronave idealizada pela Irrational Games e pela Looking Glass Studios, em 1999. Sim, regressei à Von Braun de System Shock 2.
BioShock Infinite situa-se a catorze anos de distância de System Shock 2, por isso, nas primeiras horas a bordo da Von Braun, tive que passar por uma pequena fase de habituação. Conhecer os cantos à casa não foi tarefa fácil simples, porque, infelizmente, venho mal habituado de uma época em que os jogos têm sido vulgarizados ao género da moda: os atiradores. Arregacei as mangas, peguei no meu dicionário System Shock 2-BioShock e aprendi as bases para poder aventurar-me neste RPG assustador. Poderes psíquicos, armamento e pirataria, tudo isto foi visto e revisto com o sofrimento da minha personagem que sucumbia vezes sem conta às investidas dos inimigos iniciais. E confesso com alguma frustração, pois sou incumbido de uma tarefa que me esqueço constantemente: gravar o meu progresso. Reconheço que mergulhei numa das mais intensas experiências RPG na primeira pessoa. Esta intensidade colocou-me curtos intervalos na progressão, para estar convicto que tomei as melhores decisões na evolução do meu soldado, sempre que me aproximava de máquinas para aumentar a afinidade das minhas habilidades.
Inicio a aventura e recupero de um cadáver a minha primeira arma: uma chave inglesa ensanguentada – uma das primeiras cenas que me lembro perfeitamente de BioShock. E esta, apesar de ser arriscada para iniciantes para usar em combates corpo-a-corpo, quando se aproxima mais do que um inimigo. Apesar dos riscos inerentes, esta provou-se ser bastante útil e eficaz. A chave inglesa economizou-me as munições das armas de fogo, que rapidamente percebi serem um bem precioso, e é letal quando usada corretamente. As animações das personagens são um pouco arcaicas, mas ainda assim apercebi-me que existe uma “dança” na luta corpo-a-corpo. Nunca devemos dar um passo em direção ao nosso inimigo quando este vem ao nosso encontro, pois arriscamo-nos a “pisarem-nos o pé” e vermos o ecrã a ficar momentaneamente vermelho, tal como a nossa barra de saúde a regredir. Cada inimigo tem a sua forma particular de abordagem e isso faz com que a monotonia não se instale, quando empunhamos a chave inglesa, ou outra arma dependendo da ocasião.
Vou progredindo, vasculhando cada divisão da aeronave. Procuro perceber o que se passou de tão macabro nesta nave; porquê que estão corpos sucumbidos, decepados e brutalizados sem indícios algum pelo responsável de tais crimes. O sangue das vítimas serve de tinta para mensagens de ameaçadoras nas paredes. Quero entender igualmente porquê que a Von Braun está em ruínas, destruída em quase todos os recantos, com falhas de rede e de energia. Estas respostas são entregues em mensagens áudio espalhadas pelo cenário, em forma de discos, que nos esclarecem o que se passou com a tripulação quando chegaram a Tau Ceti V, em resposta a um aviso de emergência vindo desse planeta. Com uma visita guiada feita pela Drª Janice Polito, cientista responsável para impedir que Xerxes siga o mesmo caminho que SHODAN no primeiro System Shock. Através do meu rádio, recebo os seus conselhos e os objetivos a completar. No entanto, cedo percebi que tal tentativa foi um fracasso, quando fiquei a saber quem é que esteve realmente do meu lado a guiar-me pela Von Braun.
Como é claro, não posso esquecer-me de mencionar a inesquecível Inteligência Artificial SHODAN, a principal antagonista do jogo. A sua personalidade minuciosamente construída é a principal razão por adorarmos odiar SHODAN. Ela é vaidosa, manipuladora e com um complexo de superioridade assaz irritante, uma mistura que a eleva ao estatuto de GLaDOS (Portal) como uma das melhores IA jamais criadas.
Todo o caminho percorrido é acompanhado de um banda sonora maravilhosa e com vocalizações imaculadas que ajudam, certamente, a estabelecer o tom do jogo. Este tom vindo a perder ao longo dos anos. Falo do terror sentido em todos os corredores, divisões e espaços exíguos da Von Braun. Este cenário de terror constante é coadjuvado por vários fatores que conseguem manter o nosso coração aos pulos. A escassez de munições, de provisões para restabelecer saúde, os sons emitidos pelas criaturas que habitam a nave e os ataques imprevistos destes mesmos seres são o suficiente para nos assustarmos algumas vezes. A sensação de sermos nós a presa, onde predadores atacam sem sabermos de onde possam vir. Somada esta última parcela, temos o cocktail perfeito para um jogo com uma tensão sempre elevada e sentirmos alguns suores frios.
Finalizando a minha visita a System Shock 2, fico triste por saber que ainda não se repetiu uma experiência tão rica nos anos seguintes ao seu lançamento. Muitos títulos foram beber inspiração a esta fonte, mas como o mercado das consolas é o que mais rende, os controlos e mecânicas de jogo acabam por ser reduzidas. Ou nas piores das hipóteses, as componentes RPG e de terror são retiradas dando lugar a tiroteios descontrolados e ação onde somos um espetador e não uma parte ativa da campanha. Esta é uma das maiores queixas que os consumidores podem ter das editoras, que não aproveitam as características únicas de cada sistema.
Se querem saber as origens de grandes títulos como Dead Space, BioShock, Dishonored ou de Deus Ex, aconselho-vos veemente a comprarem System Shock 2. Esta aventura pode não ter sido a primeira entregar no mercado uma experiência de Role Playing Game na primeira pessoa – esta reputação pertence certamente a Ultima Underworld -, no entanto foi aqui que este subgénero atingiu o auge. System Shock 2 pode ser adquirido no GoG.com por menos de 10 dólares.
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