A Double Fine voltou a ser um estúdio independente após sete anos sob o guarda-chuva da Microsoft, e o fundador Tim Schafer não poupou palavras ao comentar a saída. Em entrevista à Bloomberg, ele falou abertamente sobre a desconfiança inicial em relação à aquisição, o momento em que percebeu que o estúdio poderia ser fechado e o alívio de retomar o controle do próprio destino.
A independência foi oficializada em 6 de julho, junto a outros três estúdios que também deixaram o ecossistema Xbox, entre eles a Compulsion Games, desenvolvedora de South of Midnight. O movimento acontece em meio à reestruturação massiva liderada pela nova CEO do Xbox, Asha Sharma, que substituiu Phil Spencer no cargo.
Schafer revelou que, quando a Microsoft ofereceu comprar a Double Fine em 2019, sua reação imediata foi de resistência. “Eu não quero ser comprado por vocês”, ele lembra ter pensado, completando: “Vocês adoram fechar estúdios.” Quem o convenceu do contrário foi o então CEO da Microsoft Gaming, Phil Spencer, um fã declarado do trabalho da casa, e o atual CCO do Xbox, Matt Booty, que garantiu que o estúdio manteria autonomia criativa e assim foi, pelo menos por um tempo.
O cenário começou a mudar com a chegada de Asha Sharma e a grande reformulação de liderança do Xbox neste ano. Schafer descreveu de forma bem particular o momento em que percebeu que algo estava errado: “Não foi tudo de uma vez, do nada. Foi tipo: ah, aquela pessoa não respondeu minha mensagem engraçada. É mais ou menos assim que você descobre essas coisas. Então eu soube antes de saber.” A fala sugere que o fundador teve uma intuição de que a Double Fine poderia estar na lista de cortes antes de qualquer comunicado oficial.
Schafer admite que o estúdio sobreviveu sob a Microsoft operando no limite: o que começou com um foco em fazer jogos para o Game Pass, mudou para outras métricas que tornavam a sobrevivência do estúdio quase impossível. “Tínhamos uma missão mutuamente benéfica, que era simplesmente colocar ótimos jogos no Game Pass, e então a missão deles mudou”, disse Schafer. “Não consigo imaginar que qualquer nível de lucratividade — a menos que tivéssemos um fenômeno como Minecraft naquele ano — pudesse ter nos salvado.”
Agora livre, Schafer trocou a gravidade da situação por bom humor ao falar sobre a CEO Asha Sharma: “Ninguém fecha a Double Fine exceto eu. Asha não vai atirar no meu cachorro. Eu vou atirar. Mas não vou atirar porque ele vai se sair muito bem. Muita gente quer passear com o cachorro.” Em outras palavras: o controle é dele, e a perspectiva é positiva.
O estúdio já deu o primeiro passo como independente: anunciou recentemente o seu novo jogo Thank You Bus Driver, título em que o jogador assume o papel de um motorista de ônibus caótico que precisa agradar seus passageiros. É exatamente o tipo de proposta excêntrica que sempre definiu a equipe que criou Psychonauts 2 e mais recentemente Kiln, um jogo de briga ambientado no mundo da cerâmica.
Mesmo assim, a liberdade tem seu custo: após ter deixado o Xbox, o estúdio anunciou a demissão de 23 funcionários. Schafer disse que “apenas a sobrevivência do nosso estúdio nos faria considerar uma ação tão dolorosa” ao ter que deixar membros antigos irem embora.
Ao refletir sobre os anos dentro da gigante de Redmond, o fundador foi honesto sobre os próprios limites: “Depois de todos esses anos, o quão pouco eu entendo sobre o negócio só mostra como é difícil.” E completou com o que parece ser o objetivo do estúdio daqui para frente: “É por isso que estou focado em manter minha equipe viva. É por isso que fazemos essas coisas criativas o tempo todo. Se parássemos de fazer essas coisas malucas, eventualmente seríamos irrelevantes. Esses jogos não são lucrativos o suficiente para compensar o quão difíceis eles são. Eles também precisam ser muito divertidos e gratificantes de fazer.”
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