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3 desenvolvedores que defendem o uso de IA nos games, e 3 que estão resistindo à tecnologia

A inteligência artificial já faz parte do desenvolvimento de jogos, mas está longe de existir consenso sobre o espaço que ela deve ocupar. Enquanto alguns criadores enxergam a tecnologia como uma forma de reduzir custos, acelerar tarefas e permitir projetos mais ambiciosos, outros querem manter os modelos generativos longe das partes criativas de seus games.

A divisão não acontece apenas entre executivos e funcionários. Diretores e desenvolvedores conhecidos também estão chegando a conclusões bastante diferentes sobre a tecnologia. Neste artigo, separamos três nomes de cada lado desse debate.

Jogos cada vez mais caros aumentam a pressão por ferramentas de IA

O entusiasmo de parte dos desenvolvedores com inteligência artificial também aparece em um momento no qual produzir grandes jogos se tornou uma aposta financeira cada vez mais cara. Em março, o jornalista Jason Schreier afirmou que tem ouvido valores de US$ 300 milhões ou mais para grandes produções AAA desenvolvidas nos Estados Unidos e Canadá. Em um cálculo simplificado, um jogo com esse orçamento vendido por US$ 70 precisaria superar 6 milhões de cópias apenas para recuperar o investimento no desenvolvimento, considerando que cerca de 30% do valor fique com a plataforma digital, e isso antes mesmo de incluir marketing.

É nesse cenário que argumentos favoráveis à IA ganham peso dentro da indústria. Reduzir tarefas repetitivas, acelerar protótipos, localização, testes ou produção de determinados assets pode significar menos horas de trabalho e, consequentemente, menor custo de desenvolvimento. Isso nem de longe significa que a IA seja capaz de resolver sozinha a escalada dos orçamentos AAA. Mas ajuda a explicar por que alguns criadores enxergam ganhos de produtividade como difíceis de ignorar justamente quando um único projeto pode precisar vender milhões de unidades antes de começar a gerar retorno.

3 nomes da indústria que defendem a adoção da IA no desenvolvimento de games

Diretor de Stellar Blade diz que IA pode fazer uma pessoa realizar o trabalho de 100

Kim Hyung-tae, diretor de Stellar Blade e fundador da Shift Up, está entre os criadores que defendem de maneira mais aberta uma adoção maior da inteligência artificial no desenvolvimento de jogos.

Em janeiro de 2026, durante uma apresentação sobre a estratégia econômica da Coreia do Sul, Kim argumentou que a tecnologia pode ser necessária para que estúdios do país consigam competir com produções muito maiores vindas principalmente da China. Segundo ele, enquanto a Shift Up emprega cerca de 150 pessoas em um projeto, grandes desenvolvedoras chinesas podem colocar entre 1.000 e 2.000 profissionais em um único jogo.

Para compensar essa diferença sem simplesmente multiplicar o tamanho das equipes, Kim defendeu tornar os profissionais mais produtivos por meio da IA e chegou a afirmar que a tecnologia poderia permitir que “uma pessoa realizasse o trabalho de 100”.

Em julho, a Shift Up voltou a provocar discussão ao publicar um videoclipe de Stellar Blade: Blood Rain produzido com IA generativa. Diante das críticas, Kim defendeu o experimento afirmando que a personagem utilizada no vídeo havia sido criada pelos próprios artistas da empresa e que a IA estava sendo empregada sobre esse trabalho humano.

Daniel Vávra diz que os melhores desenvolvedores já enxergam o potencial da IA

Daniel Vávra, diretor de Kingdom Come: Deliverance e Kingdom Come: Deliverance 2, está entre os nomes da indústria que defendem de maneira mais aberta uma adoção maior da inteligência artificial. Em agosto de 2026, Vávra afirmou que o uso de IA já está disseminado entre desenvolvedores com quem conversa em diferentes estúdios. Segundo ele, equipes também estão criando ferramentas próprias para áreas como programação, modelagem, arte e escrita. O diretor acrescentou que alguns dos profissionais mais talentosos que conhece estão justamente entre aqueles que mais enxergam potencial na tecnologia.

O diretor foi além e afirmou que, em sua experiência, alguns dos profissionais mais talentosos que conhece estão justamente entre aqueles que menos temem a tecnologia e mais enxergam seu potencial.

Vávra já havia argumentado que resistir à IA seria semelhante a tentar impedir outras mudanças tecnológicas ocorridas durante a industrialização. Seu principal argumento é econômico: desenvolver um grande jogo pode consumir sete anos, centenas de profissionais e dezenas de milhões de dólares.

“Se a IA puder me ajudar a fazer um jogo épico em um ano com uma equipe menor, como nos velhos tempos, sou totalmente a favor”, afirmou.

Para Vávra, artistas, roteiristas, programadores e diretores continuariam fazendo parte das equipes, mas poderiam deixar tarefas repetitivas para as ferramentas de IA e concentrar seu tempo nas partes que considera realmente importantes da criação.

Criador de Crazy Taxi defende o uso de IA no desenvolvimento do novo jogo

Kenji Kanno, criador original de Crazy Taxi e produtor de Crazy Taxi: World Tour, está entre os desenvolvedores que já incorporaram inteligência artificial generativa diretamente ao processo de produção de um grande jogo. A utilização da tecnologia chamou atenção depois que a página do game na Steam passou a informar o uso de conteúdo gerado por IA durante o desenvolvimento. Diante das críticas, Kanno explicou que a equipe utiliza essas ferramentas principalmente durante a fase de referência visual.

Segundo o produtor, artistas podem gerar imagens e ideias com IA para explorar rapidamente como determinados elementos poderiam parecer. A partir desse material, porém, profissionais do estúdio criam manualmente os modelos e assets que efetivamente serão utilizados no jogo.

A SEGA também confirmou o uso de ferramentas generativas na produção e afirma que pretende utilizá-las como suporte para permitir que desenvolvedores concentrem mais tempo nas tarefas criativas.

3 desenvolvedores que resistem ao uso de IA na criação de games

Eric Barone diz que não quer terceirizar a criatividade para um algoritmo

Eric Barone, criador de Stardew Valley, está entre os desenvolvedores mais claramente contrários ao uso de IA generativa na parte criativa do desenvolvimento. Em maio de 2026, afirmou que não pretende recorrer à tecnologia para criar conteúdo de seus jogos, porque isso significaria “terceirizar a criatividade para um algoritmo”.

Para Barone, esse tipo de automação enfraquece justamente o elemento humano que ele tenta expressar por meio de suas obras. Caso precise de ajuda criativa, o desenvolvedor diz preferir trabalhar com outra pessoa e considera que essa colaboração deve ter prioridade sobre aquilo que chamou de uma “máquina sem alma”.

Casey Hudson considera IA “criativamente sem alma”

Casey Hudson, diretor da trilogia original de Mass Effect e de Star Wars: Knights of the Old Republic, não enxerga na inteligência artificial uma solução para reduzir a escala das equipes de desenvolvimento.

Em maio de 2026, Hudson classificou a IA como “criativamente sem alma” e afirmou ter dificuldade para enxergar onde a tecnologia realmente poderia ajudar em seu processo de criação. “Estou realmente pouco impressionado com ela”, disse.

A posição ganha peso porque Hudson também pretende desenvolver Star Wars: Fate of the Old Republic com uma estrutura menor. O diretor afirmou que quer evitar depender de “centenas e centenas de pessoas”, mas, em vez de utilizar IA generativa para substituir parte desse trabalho, a Arcanaut pretende manter uma produção conduzida por pessoas e recorrer a colaboradores externos quando necessário

Cocriador de Dragon Age chama IA generativa de “praga”

David Gaider, cocriador de Dragon Age e antigo roteirista-chefe da série na BioWare, está entre os desenvolvedores que adotaram uma das posições mais duras contra a atual geração de IA generativa. No fim de junho de 2026, Gaider afirmou que a tecnologia ainda “não está pronta” para ser incorporada de maneira confiável à produção de jogos e criticou a pressão de executivos interessados em acelerar sua adoção. Para ele, além das questões envolvendo direitos autorais e o material utilizado para treinar os modelos, ainda existem dúvidas sobre os ganhos reais de produtividade prometidos pela tecnologia.

Gaider rejeitou inclusive um dos usos considerados mais moderados da IA: gerar conceitos e referências temporárias durante as primeiras etapas de produção. O desenvolvedor também questionou a promessa de redução de trabalho repetitivo, argumentando que revisar conteúdo inferior produzido por IA pode consumir tanto tempo quanto simplesmente produzi-lo corretamente desde o início.

Outra preocupação está na formação de novos profissionais. Para Gaider, automatizar tarefas básicas pode eliminar justamente funções utilizadas por desenvolvedores iniciantes para adquirir experiência. Sua posição sobre a tecnologia atual é tão negativa que ele chegou a dizer que ela deveria ser tratada como uma “praga virulenta”

Jogos que declaram uso de IA enfrentam resistência na Steam

A discussão não está restrita aos próprios desenvolvedores. Há sinais de que parte dos jogadores também olha com desconfiança para games que utilizam inteligência artificial generativa.

Um estudo da Game Oracle analisou quase 10 mil jogos lançados na Steam entre janeiro e outubro de 2025 e identificou que títulos que declaravam uso de IA receberam cerca de 53% menos avaliações após o controle de fatores como experiência do desenvolvedor, presença de publisher, gênero e período de lançamento. Como avaliações costumam ser utilizadas como um indicador indireto de vendas na Steam, os pesquisadores estimaram que, entre estúdios mais estabelecidos, a diferença poderia representar vendas entre 40% e 60% menores.

No entanto, os próprios autores alertam que o resultado não prova que a IA seja a única responsável pela diferença. Qualidade, marketing e outras características difíceis de medir também podem influenciar os números.

O levantamento reforça um problema para os desenvolvedores que defendem a tecnologia, mesmo quando a IA promete reduzir custos e acelerar a produção, a maneira como os jogadores percebem seu uso pode criar um novo risco comercial. 

E você, se incomoda com o uso de inteligência artificial no desenvolvimento de games ou considera a tecnologia apenas mais uma ferramenta para os estúdios?

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Publicado por:
William R. Plaza

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