Prévia

Ator de Geralt quer processar IAs que usam sua voz: “Podem fazer Geralt ser racista ou misógino”

Doug Cockle, o ator de voz por trás de Geralt de Rívia na série The Witcher, não está disposto a ficar calado sobre o uso não autorizado de sua voz por plataformas de inteligência artificial. Em entrevista ao Polygon, ele afirmou que processaria judicialmente toda e qualquer plataforma de IA que utilize a sua voz, caso tivesse os recursos necessários para isso.

“Se eu tivesse o poder, o dinheiro e a influência, eu processaria cada plataforma de IA por aí que tem a minha voz. Eu as destruiria na justiça“, disse Cockle. O ator classificou as réplicas de sua voz geradas por IA como “uma pedra no meu sapato”, e demonstrou preocupação específica com o potencial de fazer Geralt proferir conteúdos ofensivos ou politicamente distorcidos, o que poderia levar o público a acreditar que ele mesmo havia gravado tais linhas.

“Mais do que dinheiro ou qualquer outra coisa, é que eles podem fazer Geralt dizer coisas horríveis. Podem fazer Geralt ser racista. Podem fazê-lo ser misógino. Podem fazer com que ele tenha opiniões políticas absolutamente horríveis“, continuou o ator. “Há pessoas por trás dessas vozes. Elas não são apenas cópias digitais.”

Do fã ao uso malicioso: o espectro do problema

Para Cockle, o problema tem duas camadas. A primeira envolve até mesmo fãs bem-intencionados que usam clones de voz para criar mods de The Witcher. Mesmo nesses casos, o impacto financeiro é real. “Cada vez que alguém faz isso, está efetivamente me roubando renda, e não apenas a mim, mas a qualquer outro ator de voz com quem façam o mesmo. Estamos todos assistindo nossas vozes serem usadas de formas que preferiríamos que não fossem“, afirmou.

A segunda camada, e a mais preocupante na visão do ator, é o uso para fins políticos e éticos questionáveis. “Essa é a parte que realmente não gostamos na IA: se eles podem fazer isso para coisas que são comercialmente questionáveis, então podem fazer com coisas que são política ou eticamente ruins”, argumentou. “Alguém pode usar IA para produzir algo racista usando a voz de Geralt, usando minha voz. Notícias falsas, opiniões falsas. Estamos vendo isso com políticos agora. A IA não é o problema. São as pessoas que usam a IA.”

Cockle também observou uma mudança cultural significativa em torno dos atores de voz desde o lançamento de The Witcher 3. “Quando The Witcher 3 saiu, acho que as pessoas que jogavam não pensavam muito em quem dava voz a esses personagens. Mas ao longo dos anos, tenho visto isso se tornar cada vez mais interessante para jogadores e fãs, o que é fantástico. Mas também significa que essas vozes são muito mais personalizadas. Não é apenas Geralt. É a minha voz”, concluiu.

Uma posição que não é de hoje

A crítica de Cockle à IA generativa não é nova. Em 2023, em entrevista à própria IGN, ele já demonstrava preocupação com o uso da tecnologia para fins escusos. “A IA é inevitável e os desenvolvedores vão usá-la. Não temos certeza absoluta do que isso significa“, declarou à época. “Eles já estão fazendo isso de várias formas, preenchendo vozes de fundo, de NPCs e coisas assim, o que é lamentável, porque essas vozes foram todas de seres humanos em algum momento. Eles pegaram a voz de alguém, colocaram em seu banco de dados, digitalizaram e estão usando para dizer coisas que o indivíduo jamais disse. Há algo antiético nisso.”

Há alguns anos, Cockle foi diretamente abordado por uma empresa de IA que queria enviar a sua voz de Geralt para uma base de dados. A resposta foi negativa, e ele faz questão de ressaltar que a recusa não é uma rejeição à tecnologia em si. “Não é porque eu não gosto de IA”, explicou. “É porque acho que, com atores de voz, particularmente com aqueles que interpretam personagens principais, é uma realidade que as pessoas estão roubando nossas vozes. Isso está acontecendo. Já aconteceu comigo em múltiplas ocasiões. Nem consigo mais fiscalizar isso, porque passaria todo o meu tempo vigiando essa besteira.”

Um problema que vai além de The Witcher

A situação de Doug Cockle não é isolada na indústria. Victoria Atkin, atriz de voz de Assassin’s Creed Syndicate, chamou os mods gerados por IA de “o inimigo invisível que estamos combatendo agora” após descobrir que sua voz havia sido usada por um software de clonagem. Paul Eiding, o ator por trás do Coronel Campbell na série Metal Gear Solid, também se manifestou contra a prática. Anteriormente, atores de jogos de vídeo game já haviam criticado publicamente mods explícitos gerados por IA para Skyrim.

O debate ganhou ainda mais tração recentemente com a revelação de que a Saber Interactive, empresa responsável por Warhammer 40,000: Space Marine 2, utilizou o ChatGPT no jogo de táxi Rideshare Stimulator para criar a vozes de passageiros.

Do lado institucional, em julho do ano passado, atores de videogames votaram para encerrar uma greve de um ano por proteções contra a IA. Cerca de 2.500 membros do sindicato norte-americano SAG-AFTRA estiveram envolvidos na ação contra 10 das maiores empresas do setor, incluindo a Activision e a Electronic Arts. Após o encerramento da greve, o sindicato informou que o novo contrato garantiu “requisitos de consentimento e divulgação para o uso de réplicas digitais com IA“. Ainda assim, isso não impede que qualquer pessoa utilize plataformas de IA já estabelecidas para criar vídeos falsos com personagens conhecidos dizendo o que quiser.

Fonte: IGN

Ver Mais
Compartilhar
Publicado por:
Vinicius Silva Dias
Tags: The Witcher

Posts Recentes

CEO da Take-Two vê pirataria de GTA 6 como inevitável e promete medidas legais

Strauss Zelnick acredita que o tamanho dos jogos e a dependência de servidores oficiais dificultam… Ver mais

5 de novembro de 2026

EA enfrenta críticas por vender produtos de Mass Effect antes do N7 Day

Campanha de merchandising para o N7 Day provoca revolta, enquanto fãs mobilizam petições para tentar… Ver mais

5 de novembro de 2026

Produtor de Zelda explica por que a Nintendo valoriza equipes estáveis

Eiji Aonuma defende a continuidade dos funcionários em meio às recentes ondas de demissões na… Ver mais

5 de novembro de 2026

PlayStation bate recorde de usuários ativos, lucro da Sony dispara 83%

A plataforma alcançou 127 milhões de usuários ativos mensais em setembro de 2026. Ver mais

5 de novembro de 2026

Dragon Ball Super: Beerus pode estrear dublagem brasileira em 12 de novembro na Crunchyroll

Wendel Bezerra e Alfredo Rollo estão entre os nomes associados à versão nacional, mas o… Ver mais

5 de novembro de 2026

Vendas de jogos do Switch 2 crescem 18,8% em relação a 2025

Splatoon Raiders lidera os novos exclusivos com 2,42 milhões de cópias. Ver mais

5 de novembro de 2026
Img de rastreio