Goro Taniguchi, diretor de Code Geass e One Piece Film: Red, usou uma palestra universitária para fazer um diagnóstico duro sobre o estado atual do anime e o caminho que a indústria está trilhando. Ele argumentou que uma sociedade japonesa cada vez mais “esterilizada” está remodelando tanto os temas quanto a estrutura de produção das animações, e chegando ao ponto de empurrar os criadores mais ambiciosos para fora do mercado.
Na palestra, Taniguchi traçou a história do anime desde os anos 1960 até hoje, dividindo sua evolução em várias etapas. Segundo ele, a mídia se tornou uma indústria de fato na era de Astro Boy, naquela década, e passou por transformações profundas até chegar ao que ele chama de sétima fase, o momento atual. Um dos elementos centrais da sua análise é o conceito de “sociedade branca“, termo cunhado pelo sociólogo Toshio Okada. O termo descreve uma sociedade altamente transparente e higienizada, moldada pela proliferação de smartphones e redes sociais, onde comportamentos vistos como disruptivos ou não convencionais são cada vez mais desencorajados em favor de uma harmonia superficial.
“Enxergo essa ‘sociedade branca’ como um fenômeno em que todos os japoneses estão, de certa forma, se tornando mais parecidos com moradores de Kyoto“, disse Taniguchi, referenciando o estereótipo de que os habitantes da cidade são notoriamente indiretos ao expressar sentimentos negativos, priorizando o decoro acima de tudo. “Não façamos nada incomum, lemos o ambiente, evitemos confrontos abertos e demonstramos respeito às pessoas que compartilham o mesmo espaço.”
O diretor observou ainda que muitos protagonistas dos recentes animes do estilo isekai se encaixam exatamente nesse perfil.
Olhando para a próxima década, o diretor reconhece que a animação japonesa se espalhou pelo mundo de forma notável, com o público e os criadores estrangeiros valorizando cada vez mais os clássicos do anime. Mas é exatamente aí que ele enxerga um risco. Taniguchi faz uma comparação com o fluxo massivo de gravuras em xilogravura e outras obras de arte japonesas para a Europa entre os séculos XIX e XX: a popularidade global pode, paradoxalmente, esvaziar a vantagem competitiva doméstica do Japão. Se o mercado interno continuar focado em lucros de curto prazo e em conteúdo de consumo rápido voltado para o público casual, o Japão pode ter dificuldade em competir com a velocidade de produção da China e da Coreia do Sul.
Ainda assim, Taniguchi encerrou sua palestra com uma perspectiva menos sombria. Para ele, o futuro do anime está garantido pela necessidade humana intrínseca de narrativas. “Enquanto as pessoas continuarem sendo pessoas, elas sempre vão precisar de histórias. As histórias ampliam nossa compreensão sobre as pessoas e o mundo, nos permitem vivenciar emoções e escolhas de forma vicária, encontrar significado nos eventos, desfrutar da emoção e da suspense, aliviar a solidão, conectar-se com os outros e transmitir experiências e sabedoria do passado. O anime é capaz de cobrir tudo isso“, concluiu o diretor.
Fonte: Automaton Media
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