A indústria de games japonesa pode não ter enfrentado as ondas de demissões em massa que varreram empresas ocidentais nos últimos anos, mas isso não significa que o setor esteja imune à crise. É o que alertam desenvolvedores japoneses: os cortes existem, só acontecem de forma menos visível — pela porta dos fundos do mercado de trabalho.
O debate ganhou tração após Taira Nakamura, produtor da Sega, publicar suas impressões sobre o tema no X. Segundo ele, a principal razão para o Japão não figurar nas manchetes de demissões está na legislação trabalhista do país, que impõe barreiras legais significativas para demissões em massa. O resultado, porém, não é necessariamente positivo para quem quer entrar no mercado.
“Acredito que um dos motivos pelos quais empresas japonesas, mesmo sob pressões de custo semelhantes, aparentam ter menos demissões visíveis é a regulação trabalhista do Japão“, disse Nakamura. “No entanto, a ‘dificuldade em dispensar funcionários’ simplesmente se transforma em ‘não contratar para começo de conversa’. As cotas de contratação de recém-formados estão encolhendo, e a porta para contratações em meio de carreira está se estreitando. Pode chegar uma era em que seja ainda mais difícil entrar em uma empresa de games no Japão do que é agora.”
A análise de Nakamura foi reforçada por Hiromichi Takahashi, CEO da Crescent Tower e da Amata Games, publicadora do jogo Ooo. Takahashi ampliou o diagnóstico ao apontar que estúdios terceirizados — responsáveis por boa parte do trabalho de suporte à produção das grandes publishers — também estão sentindo os cortes de forma direta, embora silenciosa.
“Embora nenhuma demissão explícita tenha sido anunciada na indústria de games japonesa, muitas grandes empresas reduziram significativamente as linhas de trabalho que terceirizavam para desenvolvedores externos ao longo dos últimos dois anos aproximadamente”, afirmou Takahashi. “Como resultado, os desenvolvedores continuam enfrentando uma situação muito difícil. Portanto, o Japão também está passando por uma redução no número de desenvolvedores, embora de uma forma que não é visível na superfície.”
O quadro pintado por Nakamura e Takahashi sugere que, enquanto o Ocidente enfrenta a crise de forma barulhenta e estatisticamente rastreável, o Japão vive sua própria versão do mesmo problema em silêncio: não pelo esvaziamento dos escritórios, mas pelo fechamento gradual das portas de entrada.
Fonte: Video Games Chronicle
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