A Pixar está passando por mais uma rodada de demissões em massa: cerca de 150 funcionários foram desligados do estúdio, tornando-o a divisão mais afetada pelos cortes recentes da Disney. Oficialmente, a empresa justifica as demissões como parte de um esforço contínuo de reestruturação operacional, realocação de recursos e adaptação às mudanças do mercado de entretenimento. Na prática, os filmes ‘Cara de Um, Focinho de Outro’ e ‘Elio’ estão sendo apontados internamente como os principais catalisadores do corte.
O peso de dois fracassos de bilheteria
Segundo o The Wrap, fontes da indústria apontam os desempenhos decepcionantes de Cara de Um, Focinho de Outro e Elio como os fatores que reforçaram a pressão interna por cortes. Cara de Um, Focinho de Outro até recebeu avaliações majoritariamente positivas da crítica, mas arrecadou aproximadamente US$ 390 milhões no mundo todo contra um orçamento de produção de US$ 150 milhões. Usando a regra do 2,5x, padrão utilizado pela indústria para estimar o ponto de equilíbrio de um longa, o prejuízo do filme gira em torno de US$ 60 milhões.
A situação de Elio é ainda mais grave. O longa enfrentou uma produção turbulenta, com o orçamento escalando para uma estimativa de US$ 300 milhões, ao passo que a arrecadação global ficou em apenas US$ 154 milhões. O resultado é uma das piores performances financeiras da história recente do estúdio. Para a Disney e a Pixar, os dois casos reforçam um diagnóstico que já vinha sendo discutido internamente: filmes originais de animação dificilmente geram o retorno que o estúdio espera, especialmente com orçamentos na casa das centenas de milhões.
Fontes citadas pelo The Wrap indicam que a pressão agora é clara, a Pixar precisará produzir filmes originais com orçamentos significativamente menores para que eles continuem sendo comercialmente viáveis.

Franquias clássicas continuam sendo sucesso
O que torna essa situação ainda mais contraditória é o fato de o estúdio estar, ao mesmo tempo, colhendo frutos expressivos com suas franquias consolidadas. Toy Story 5 está se aproximando da marca de US$ 1 bilhão de arrecadação global, enquanto Divertidamente 2 chegou a quase US$ 1,7 bilhão. Com Toy Story 5 e Divertidamente 3 no horizonte, as projeções indicam que os dois títulos podem somar até US$ 3 bilhões combinados no mundo todo.
Nenhum filme isolado é o único responsável por uma rodada de demissões dessa magnitude. Cara de Um, Focinho de Outro e Elio funcionam, em grande parte, como o bode expiatório oficial de uma crise criativa e financeira que vem se acumulando há anos. Vale lembrar que a rodada de demissões de 2024 já havia sido atribuída, em parte, ao recuo da Disney na produção de conteúdo para streaming após a expansão do Disney+.
Uma crise criativa que antecede os números
Os problemas da Pixar vão além do desempenho de bilheteria. Nenhum de seus filmes originais recentes conseguiu realmente marcar época ou entrar no imaginário popular da forma que os clássicos do estúdio fizeram. O último a alcançar esse feito foi Coco, lançado em 2017. Desde então, o estúdio alterna entre sequências seguras e originais que não conseguem repetir o impacto de obras como WALL-E, Ratatouille, Up, Procurando Nemo e Os Incríveis.
Muitos na indústria apontam a saída de John Lasseter em 2018, em meio a alegações de má conduta, como o momento em que o estúdio perdeu sua bússola criativa. Como a força motriz por trás de praticamente todos os clássicos da Pixar, Lasseter não apenas tinha visão, mas um entendimento profundo de narrativa que guiou o estúdio por décadas. Desde sua saída, a Pixar parece ter perdido o fio condutor que a tornava única, oscilando entre a segurança das franquias estabelecidas e originais que, apesar de tecnicamente elaborados, carecem do risco criativo que definiu sua era de ouro.
Fonte: World of Reel