O diretor do novo anime de The Ghost in the Shell, identificado pelo pseudônimo Mokochan, revelou em entrevista à WIRED Japan que sua abordagem para adaptar a obra de Masamune Shirow foi, nas próprias palavras dele, uma espécie de ritual espiritual. Sem nunca ter se encontrado pessoalmente com o autor, Mokochan passou aproximadamente um ano e meio relendo o mangá original repetidamente até construir uma imagem mental do criador e passou a rezar para essa versão imaginária enquanto desenvolvia o projeto.
“Eu rezava para essa versão imaginária do Shirow que emergiu da minha leitura do mangá. Depois de cerca de três dias, a resposta simplesmente aparecia em silêncio. Naquele ponto, não importava mais se a resposta vinha dos meus próprios pensamentos ou da minha interpretação do material-fonte. É isso que eu chamo de comunhão espiritual“, explicou o diretor na entrevista.
Para definir esse método de um jeito mais concreto, Mokochan usou o termo itako, referência às médiuns femininas treinadas do Japão, tradicionalmente cegas, que segundo a tradição conseguem se comunicar com espíritos e divindades xintoístas. Ele reconhece o exagero na analogia, mas a usa para descrever o ato de “tentar alcançar uma comunhão espiritual com o criador original” e sair do território da razão pura.
Uma estreia marcada pela responsabilidade
The Ghost in the Shell é produzido pelo estúdio Science SARU e começou a ser exibido em 7 de julho pelo Prime Video. O primeiro episódio já recebeu elogios pela fidelidade ao tom e ao humor do mangá original, algo que o diferencia bastante de adaptações anteriores consagradas, como o longa-metragem de Mamoru Oshii, de 1995. Curiosamente, este é o trabalho de estreia de Mokochan como diretor, o que torna o peso da responsabilidade ainda mais evidente nas suas declarações.
“Tanto o Ghost in the Shell do Shirow quanto o do Oshii ‘arrombaram’ algo dentro de mim e alteraram fundamentalmente minha perspectiva de mundo quando os encontrei na juventude“, disse ele, admitindo que, por ser um grande fã da franquia e estar ciente das altíssimas expectativas do público, sabia que um trabalho malfeito o faria ser “destruído” pela crítica.
O mangá tratado como escritura sagrada
Do lado mais analítico da produção, Mokochan contou com o roteirista EnJoe Toh, descrito pelo diretor como alguém com conhecimento profundo do universo e da tecnologia de Ghost in the Shell. Juntos, os dois trataram o mangá original como “escritura” durante todo o processo.
“O EnJoe disse que o mangá original é o tipo de livro que revela novas descobertas cada vez que você o revisita conforme envelhece, e eu concordo completamente”, afirmou Mokochan. “Só porque eu não entendo algo agora, aos 33 anos, não significa que posso simplesmente dizer ‘precisamos mesmo dessa parte?’. Recuso-me a tratar qualquer coisa retratada no original como se nunca tivesse existido. Mesmo que algo não apareça na tela por restrições práticas de tempo, garanto que ainda ‘existe’ em algum lugar fora do quadro.”
Seguindo essa lógica, o diretor estabeleceu uma diretriz clara para a adaptação: ajustes e acréscimos específicos ao meio anime são permitidos, mas os eventos originalmente retratados na história não podem ser alterados. É uma distinção que define toda a identidade criativa do projeto.
Fonte: Automaton Media
