Falta menos de um mês para o lançamento de Marvel’s Wolverine, mas uma parte da internet parece já ter chegado a um veredito sobre o novo jogo da Insomniac Games. Depois que veículos e criadores tiveram acesso às primeiras horas da aventura, novos vídeos começaram a circular pelas redes sociais e rapidamente deram origem a comparações pouco favoráveis, memes e acusações de que o título seria excessivamente linear, genérico e até mesmo “woke”.
A negatividade chegou a um nível que James Stevenson, diretor de comunidade e marketing da Insomniac, criticou publicamente a maneira como os algoritmos das redes sociais amplificam esse tipo de conteúdo. Segundo ele, a enxurrada de comentários negativos não necessariamente representa a opinião geral sobre o jogo. Isso não significa, porém, que todas as críticas possam simplesmente ser descartadas como “hate”.
Existem características de Marvel’s Wolverine que realmente podem afastar determinados jogadores e a própria Insomniac não esconde algumas delas.
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Sim, Marvel’s Wolverine é um jogo bastante linear
Talvez a principal reclamação seja também aquela que possui a maior base factual. Marvel’s Wolverine não será um jogo de mundo aberto como Marvel’s Spider-Man. O diretor Mike Daly explicou que a estrutura do jogo foi pensada ao redor de missões e da constante movimentação de Logan pelo mundo. Em entrevista ao Omelete, ele foi bastante direto ao afirmar que “não é um mundo aberto, é uma sequência de missões”.
A proposta é apresentar uma campanha de ritmo acelerado, levando Wolverine de um local para outro conforme investiga seu passado. Isso significa que quem esperava uma grande cidade ou regiões conectadas para explorar livremente, como acontece nos jogos do Homem-Aranha, provavelmente encontrará algo bem diferente.
Por outro lado, dizer que o jogo é completamente “sobre trilhos” também não descreve tudo que foi mostrado. Daly afirma que algumas missões possuem espaços maiores e com fluxo mais livre. Quem realmente jogou também encontrou áreas nas quais é possível sair do caminho principal, conversar com personagens, coletar itens e participar de desafios opcionais. Em Madripoor, por exemplo, o GamesRadar relata ter explorado uma área relativamente ampla antes de iniciar a missão seguinte.
Portanto, a crítica à linearidade faz sentido, principalmente para quem esperava algo próximo de Spider-Man. O exagero começa quando “linear” passa a ser tratado automaticamente como sinônimo de “sem gameplay”.
Foi daí que nasceu a comparação com Subway Surfers
Um dos vídeos que mais alimentou a discussão mostra Logan perseguindo um inimigo enquanto corre por um caminho bastante definido, com explosões e acontecimentos programados ocorrendo ao redor do personagem.
O trecho acabou sendo usado em montagens nas quais Marvel’s Wolverine é comparado a Subway Surfers, famoso endless runner para celulares. Houve até edições colocando elementos do jogo mobile sobre as imagens de Wolverine. A piada se espalhou justamente pela impressão de que naquela sequência o jogador estaria basicamente empurrando o analógico para frente e reagindo aos obstáculos.
Someone edited the Wolverine gameplay clips into Subway Surfers 😭😭
pic.twitter.com/gUJulb0slo— QNDZY (@QNDZYcom) August 16, 2026
Outras publicações passaram a brincar que seria possível “jogar” Wolverine apenas segurando o analógico para frente. A existência desses vídeos foi registrada até pela imprensa internacional durante a recente onda de críticas.
Como meme, a comparação funciona porque escolhe justamente um dos momentos mais guiados apresentados até agora. Como descrição do jogo inteiro, entretanto, ela entra em conflito com as próprias demonstrações mais longas disponíveis. As prévias incluem combate, furtividade, exploração, desafios opcionais e outras situações em que obviamente existe bem mais interação do que simplesmente correr para frente.
Isso não invalida a discussão sobre excesso de sequências roteirizadas. A dúvida legítima é quanto da campanha será composta por momentos extremamente controlados como esse. É algo que apenas a versão completa poderá responder.
A batalha contra o Sentinela também virou motivo de piada
Outro trecho muito criticado envolve uma batalha contra um protótipo de Sentinela. Wolverine precisa evitar os enormes braços da máquina e aproveitar os momentos em que eles ficam vulneráveis para atacar.
O formato imediatamente lembrou jogadores de batalhas contra chefes vistas inúmeras vezes em jogos de ação. As comparações chegaram ao ponto de colocarem a luta lado a lado com Ben 10: Protector of Earth, lançado para PS2 em 2007.
Será que Marvel’s Wolverine se inspirou em Ben 10 Protector of Earth? xD pic.twitter.com/pl9GOAskbt
— Academia dos Gamers Oficial (@academiadgamers) August 13, 2026
Nesse caso, existe uma crítica de design mais concreta por trás do meme. A reclamação não é simplesmente que os gráficos parecem antigos, mas que a mecânica mostrada utiliza um padrão muito conhecido: desviar de um golpe enorme, esperar o chefe ficar vulnerável e então atacar.
É provavelmente uma das preocupações mais interessantes em torno do jogo. Wolverine pode ser extremamente bem executado e ainda assim parecer seguro demais para jogadores cansados dessa fórmula.
E a acusação de que Marvel’s Wolverine é “woke”?
Essa talvez seja a parte mais complicada da discussão, porque diferentes críticas acabam sendo agrupadas sob a mesma palavra. Nos últimos dias, um pequeno trecho de uma cena ganhou repercussão justamente por isso. Nele, Logan aparece rendido e de joelhos enquanto Mística intervém para salvá-lo.
A sequência rapidamente gerou comentários acusando a Insomniac de enfraquecer Wolverine para valorizar uma personagem feminina. A discussão foi registrada pelo Metaload, que também ressalta um detalhe importante: o vídeo divulgado mostra apenas alguns segundos de uma situação cujo contexto completo ainda não é conhecido.
Mystique Saves Wolverine pic.twitter.com/cbQwsTW67p
— Zanar Gaming (@ZanarGaming) August 16, 2026
O visual das personagens femininas também está no centro dessas discussões há algum tempo. Jean Grey, por exemplo, foi chamada de “feia” por parte do público após aparições anteriores, enquanto outros jogadores defenderam o modelo e argumentaram que iluminação, expressão e enquadramento influenciaram bastante determinadas imagens usadas nas comparações. A própria discussão continua dividida entre fãs.
É perfeitamente possível não gostar de um design de personagem ou achar uma cena mal construída. O problema é transformar isso automaticamente em prova de uma intenção ideológica sem informações sobre a história completa.
Sweet Baby Inc. realmente esteve envolvida com Wolverine
Outro nome frequentemente citado nesse debate é o da Sweet Baby Inc., empresa de consultoria narrativa que se tornou alvo recorrente de grupos “anti-woke”. Nesse caso, existe um fato que vale esclarecer: a ligação não foi simplesmente inventada pela comunidade.
Uma publicação feita pela própria Sweet Baby Inc. em 2021 dizia que a empresa fazia parte das equipes que estavam ajudando a Insomniac a desenvolver Spider-Man 2 e Wolverine. Capturas dessa publicação foram posteriormente recuperadas e reproduzidas durante a controvérsia.

O que não está documentado publicamente com a mesma clareza é qual foi a extensão do trabalho realizado em Marvel’s Wolverine ou quais elementos específicos passaram pela consultoria. Isso faz uma diferença enorme.
Mary Kenney, que trabalhava na equipe narrativa de Wolverine e já havia colaborado com a Sweet Baby, explicou em 2024 como esse tipo de consultoria funciona. Segundo ela, empresas externas podem apontar problemas, sugerir mudanças e ajudar em elementos de narrativa, mas as sugestões não são obrigatórias: a equipe principal de desenvolvimento decide o que entra ou não no jogo.
Com as informações disponíveis, portanto, não há evidência que permita atribuir à Sweet Baby Inc. o visual de Jean Grey, a cena de Mística salvando Logan ou qualquer outro elemento específico usado atualmente como exemplo de conteúdo “woke”.
E falar sobre perseguição aos mutantes seria “woke”?
Outro ponto citado por algumas discussões é o foco da história na perseguição sofrida pelos mutantes. Só que esse aspecto está longe de ser uma invenção da Insomniac. O diretor narrativo Walt Williams explicou que o universo de Marvel’s Wolverine foi construído para apresentar os mutantes como pessoas que ainda vivem escondidas, com medo de serem descobertas e sem um lugar seguro como a Mansão X. É justamente por isso que os X-Men ainda não estão estabelecidos quando a história começa.
Temas envolvendo preconceito e medo do diferente acompanham os X-Men há décadas. Em uma entrevista publicada pelo Los Angeles Times em 2011, Stan Lee comentou explicitamente que as histórias dos X-Men lidavam com intolerância e com a questão de odiar ou desconfiar de pessoas por serem diferentes.
É possível discutir se a Insomniac executará bem essas ideias. Mas a simples existência de temas envolvendo discriminação contra mutantes não é uma mudança ideológica criada para este jogo.
Então Marvel’s Wolverine merece todo esse ódio?
Algumas preocupações são perfeitamente razoáveis.
Marvel’s Wolverine é deliberadamente mais linear que Spider-Man. Algumas sequências apresentadas são extremamente guiadas. A batalha contra o Sentinela utiliza uma estrutura conhecida e o jogo claramente compartilha várias características com outros grandes títulos cinematográficos em terceira pessoa da Sony. Quem está cansado dessa fórmula possui motivos concretos para esperar mais antes de comprar.
Também é legítimo discutir designs de personagens, roteiro, direção artística e qualquer decisão criativa mostrada pela Insomniac. O que parece precipitado é transformar esses pontos em uma conclusão definitiva de que Marvel’s Wolverine é um fracasso, um “Subway Surfers de US$ 70” ou uma experiência arruinada por uma suposta agenda antes que alguém tenha acesso à campanha completa.
As próprias prévias mostram a contradição dessa narrativa. Enquanto pequenos trechos rendem milhares de publicações negativas, jornalistas que efetivamente passaram algumas horas com o jogo encontraram combate brutal, exploração opcional, furtividade e mecânicas próprias de Logan. Talvez Marvel’s Wolverine realmente termine sendo convencional demais. Talvez a linearidade incomode. Talvez determinadas escolhas narrativas não funcionem.
Mas, em 20 de agosto de 2026, ainda estamos falando de um jogo que sequer chegou às lojas. A resposta definitiva começa a ficar possível em 15 de setembro de 2026, quando Marvel’s Wolverine será lançado para PlayStation 5.