A evolução dos jogos de Jurassic Park: da ação 16 bits aos simuladores de parques

Após a morte de Sam Neill, relembramos como a franquia que marcou gerações também construiu uma longa história nos videogames, passando por diversos gêneros.

Recentemente tivemos uma grande perda, com o ator Sam Neill, astro de Jurassic Park, tendo falecido aos 78 anos. Neill sem dúvidas fez parte da infância de muitas pessoas em uma das franquias de dinossauros mais amadas de todos os tempos. No entanto, o universo se estendeu muito além dos cinemas.

Poucas franquias do cinema parecem tão naturalmente adaptáveis aos videogames quanto Jurassic Park. Dinossauros são inimigos aterrorizantes, a Ilha Nublar é um cenário perfeito para exploração e a fantasia de construir um parque repleto de criaturas pré-históricas praticamente implora para virar um jogo de gerenciamento.

A franquia já virou jogo de ação, experimento em primeira pessoa, jogo de luta, aventura cinematográfica e, em sua fórmula mais bem-sucedida, simulador de gerenciamento de parques. Revisitar a história dos jogos de Jurassic Park revela não apenas a evolução da franquia, mas também as mudanças nas ambições da própria indústria de videogames.

A era dos 16 bits transformou Jurassic Park em um jogo de ação

Quando Jurassic Park, de Steven Spielberg, chegou aos cinemas em 1993, a indústria de videogames não demorou para tentar aproveitar seu enorme sucesso. O resultado, porém, não foi uma adaptação definitiva, mas uma série de jogos completamente diferentes lançados para diversas plataformas.

NES, SNES e Mega Drive receberam suas próprias interpretações de Jurassic Park. As limitações do hardware tornavam praticamente impossível reproduzir a tensão e o espetáculo cinematográfico do filme, então os desenvolvedores recorreram a gêneros já conhecidos pelo público.

No Mega Drive, os jogadores controlavam o Dr. Alan Grant, o personagem de Sam Neill, em um jogo de ação sidecroller, repleto de dinossauros e seções de plataforma. Mais interessante ainda, o título também permitia controlar um velociraptor, invertendo a tradicional relação entre herói e monstro.

A versão de SNES seguiu por um caminho diferente. Os jogadores exploravam a Ilha Nublar em uma perspectiva vista de cima, mas, ao entrar em determinados prédios, o jogo mudava para uma visão em primeira pessoa. Era uma tentativa ambiciosa de transformar o parque em um lugar que realmente pudesse ser explorado, em vez de apenas uma sequência de fases lineares.

Esses primeiros jogos estabeleceram uma tendência que acompanharia Jurassic Park durante anos. Os desenvolvedores tinham os dinossauros, os personagens e os cenários, mas não existia uma fórmula de gameplay estabelecida para a franquia. Cada estúdio estava, essencialmente, experimentando para descobrir o que um jogo de Jurassic Park poderia ser.

O Mundo Perdido levou os dinossauros para a era 3D

A chegada dos gráficos 3D abriu novas possibilidades. Os dinossauros finalmente poderiam transmitir uma sensação maior de escala, enquanto os desenvolvedores deixavam de estar limitados a sprites se movimentando por cenários planos.

Jogos baseados em O Mundo Perdido: Jurassic Park chegaram a diversas plataformas, com a versão de PlayStation se tornando uma das mais memoráveis. Nela, os jogadores controlavam diferentes personagens e dinossauros, incluindo um Compsognathus, um velociraptor e até um Tyrannosaurus rex. Pela primeira vez, jogar como os próprios dinossauros se tornou uma parte importante da experiência.

O período também trouxe o clásico Warpath: Jurassic Park, lançado em 1999, um jogo de luta que basicamente trazia uma proposta simples, mas inusitada: como seria um jogo estilo Tekken mas com os dinossauros de Jurassic Park?

Era uma direção extremamente incomum, mas que também demonstrava a flexibilidade da licença. No final dos anos 90, os jogos de Jurassic Park já haviam passado por ação, exploração, plataforma e luta.

Trespasser tentou criar o Jurassic Park do futuro

Lançado para PC em 1998, Trespasser continua sendo um dos jogos mais fascinantes associados a Jurassic Park. Em vez de desenvolver mais um título de ação tradicional, a DreamWorks Interactive tentou criar uma experiência em primeira pessoa profundamente imersiva. O jogo apresentava grandes ambientes, interações baseadas em física e dinossauros controlados por sistemas de inteligência artificial.

A vida da protagonista Anne era exibida diretamente em seu corpo com uma tatuagem. As armas não contavam com uma mira tradicional. Objetos podiam ser manipulados fisicamente com o braço da personagem. Os dinossauros deveriam se comportar de maneira dinâmica, em vez de simplesmente seguir padrões de ataque roteirizados.

Hoje, muitas dessas ideias parecem surpreendentemente modernas. O problema é que a tecnologia da época ainda não estava pronta para colocá-las em prática.

Trespasser se tornou famoso por seus problemas técnicos, controles desajeitados e sistemas que frequentemente não funcionavam como planejado. A ambiciosa inteligência artificial dos dinossauros precisou ser simplificada, enquanto a física muitas vezes provocava mais frustração do que imersão.

O jogo foi duramente criticado no lançamento, mas sua reputação mudou com o passar dos anos. Atualmente, Trespasser costuma ser lembrado como um fracasso ambicioso: um projeto que tentou implementar conceitos anos antes de a indústria possuir tecnologia suficiente para sustentá-los.

De muitas formas, ele representava o grande sonho de um jogo de Jurassic Park. Os jogadores não deveriam simplesmente enfrentar dinossauros. A proposta era fazê-los se sentir presos em um ambiente vivo e imprevisível ao lado dessas criaturas.

Jurassic Park III provocou uma explosão de jogos menores

O lançamento de Jurassic Park III, em 2001, trouxe uma nova onda de jogos.

Títulos como Dino Defender, Island Attack, The DNA Factor e Park Builder exploraram diferentes gêneros e plataformas, alguns novamente incluindo o personagem de Sam Neill em Jurassic Park como protagonista. O Game Boy Advance se tornou particularmente importante para a franquia, recebendo vários lançamentos centrados nos dinossauros.

A qualidade variava consideravelmente, e muitos desses jogos eram projetos licenciados relativamente pequenos. No entanto, uma ideia começava a ganhar força: os jogadores nem sempre queriam escapar do parque de dinossauros. Às vezes, eles queriam construí-lo.

Jurassic Park III: Park Builder experimentou com o gerenciamento de parques no Game Boy Advance, mas o conceito logo seria expandido em um projeto muito mais ambicioso.

Operation Genesis finalmente encontrou o gênero perfeito para Jurassic Park

Lançado em 2003, Jurassic Park: Operation Genesis se tornou um clássico cult. Em vez de colocar os jogadores no papel de Alan Grant ou de outro sobrevivente, o jogo entregava a eles o controle do próprio Jurassic Park. Era possível construir atrações, administrar visitantes, escavar fósseis e criar dinossauros.

Naturalmente, tudo também podia dar terrivelmente errado. Uma cerca quebrada ou um predador fugitivo era capaz de transformar um parque de sucesso em um completo caos, recriando a principal fantasia dos filmes por meio de sistemas de gameplay, e não de sequências roteirizadas. Esse era o grande mérito de Operation Genesis.

Os filmes mostram repetidamente humanos tentando controlar a natureza antes de perder completamente esse controle. Um simulador de gerenciamento permitia aos jogadores vivenciar exatamente esse processo. Você construía o parque. Você tomava as decisões. Quando um Tyrannosaurus rex escapava e começava a aterrorizar os visitantes, muitas vezes era resultado dos seus próprios erros.

Para muitos fãs, Operation Genesis se tornou o jogo definitivo de Jurassic Park. Sua influência ficaria ainda mais evidente mais de uma década depois.

A Telltale explorou o lado narrativo da franquia

Após alguns anos mais tranquilos para a franquia nos videogames, a Telltale Games lançou Jurassic Park: The Game em 2011. Em vez de adaptar diretamente o filme original, o jogo apresentou uma nova história conectada aos acontecimentos da Ilha Nublar. A trama explorava eventos paralelos e posteriores ao colapso do parque, incluindo o destino da famosa lata com embriões de dinossauros perdida por Dennis Nedry.

O gameplay seguia o formato de aventuras cinematográficas da Telltale, com foco em diálogos, quick time events e decisões narrativas. O jogo teve uma recepção dividida, mas sua abordagem foi significativa. Ele demonstrou o potencial de utilizar o universo de Jurassic Park para contar histórias além das adaptações diretas dos filmes.

Em vez de pedir aos jogadores que repetissem cenas famosas, os desenvolvedores poderiam explorar as lacunas existentes entre elas.

LEGO Jurassic World celebrou toda a franquia cinematográfica

A chegada de Jurassic World aos cinemas, em 2015, revitalizou a série, e os videogames rapidamente acompanharam esse retorno. LEGO Jurassic World adaptou os quatro primeiros filmes, combinando cenas conhecidas com o humor e o gameplay acessível dos jogos LEGO da Traveller’s Tales.

Talvez seu maior destaque tenha sido a enorme quantidade de dinossauros disponíveis. As criaturas deixaram de ser apenas obstáculos ou inimigos e se transformaram em personagens jogáveis, cada uma com habilidades próprias. Os jogadores também podiam explorar livremente versões em LEGO da Ilha Nublar e da Ilha Sorna.

O título representou uma abordagem mais comemorativa da franquia. Enquanto os primeiros jogos de Jurassic Park frequentemente se concentravam em sobrevivência ou ação, LEGO Jurassic World transformou toda a história dos filmes em um gigantesco parque de diversões com dinossauros.

No entanto, a maior transformação da franquia nos videogames ainda estava por vir.

Jurassic World Evolution aprimorou a fórmula de Operation Genesis

Em 2018, a Frontier Developments lançou Jurassic World Evolution. O conceito era imediatamente familiar para os fãs de Operation Genesis: construir um parque de dinossauros, administrar os visitantes e tentar impedir que tudo desmoronasse.

A tecnologia moderna permitiu que a Frontier expandisse consideravelmente essa fórmula. Os dinossauros eram mais detalhados, os parques maiores e os sistemas de gerenciamento ofereciam um controle muito maior sobre as atrações.

O jogo também se beneficiou da renovada popularidade dos filmes. Jurassic World havia transformado a ideia de um parque temático de dinossauros plenamente funcional em uma parte central da franquia, tornando o gerenciamento ainda mais relevante.

Jurassic World Evolution 2 expandiu o conceito com comportamentos mais complexos para os dinossauros, novos ambientes e sistemas de administração aprimorados. Jurassic World Evolution 3 levou a simulação ainda mais longe, dando continuidade à transformação gradual da série em um simulador de ecossistemas cada vez mais detalhado.

O sucesso da série Evolution praticamente confirmou aquilo que Operation Genesis já havia sugerido anos antes: talvez o estilo mais natural de Jurassic Park seja justamente o jogador gerenciar seu próprio parque.

A realidade virtual colocou os jogadores frente a frente com os dinossauros

Jurassic World Aftermath explorou outro antigo sonho relacionado à franquia: pode se imergir diretamente dentro desse mundo com dinossauros assustadores.

Originalmente lançado em realidade virtual, o jogo colocava os jogadores em uma instalação de pesquisa ocupada por velociraptores. Em vez de enfrentá-los diretamente, era necessário se esconder, distrair as criaturas e avançar cuidadosamente pelos ambientes.

Seu estilo visual em cel shading era incomum para Jurassic World, mas a realidade virtual proporcionava aos dinossauros uma sensação de presença física difícil de reproduzir em jogos tradicionais. Um velociraptor que parece estar a poucos metros de distância é uma experiência completamente diferente de apenas vê-lo em uma TV.

Aftermath demonstrou como uma nova tecnologia poderia, mais uma vez, transformar a maneira como os desenvolvedores abordavam a franquia, assim como os gráficos 3D haviam feito nos anos 1990.

Os jogos de Jurassic Park estão retornando à sobrevivência

Embora Trespasser tenha falhado em entregar um jogo de sobrevivência a altura da franquia 1998, com uma grande e atmosférica experiência de sobrevivência na qual os jogadores explorariam a Ilha Nublar enquanto eram caçados por dinossauros, a tecnologia atual permite que a ideia alcance seu potencial.

Jurassic Park: Survival representa uma nova tentativa de realizar essa fantasia. Ambientada após os acontecimentos do filme original de 1993, a aventura em primeira pessoa leva os jogadores de volta à Ilha Nublar e se concentra na sobrevivência entre os dinossauros deixados para trás após o colapso do parque.

 

Os jogos de Jurassic Park ainda está evoluindo

A história dos jogos de Jurassic Park é marcada pela experimentação. Nunca existiu apenas um gênero permanentemente associado à franquia. Desenvolvedores já tentaram jogos de plataforma, tiro, luta, aventura, LEGO, realidade virtual e simuladores de gerenciamento. Alguns experimentos fracassaram. Outros se tornaram clássicos cult.

Mas cada nova geração de tecnologia aproximou os desenvolvedores um pouco mais de recriar uma das principais ideias por trás de Jurassic Park: humanos entrando em um mundo que acreditam ser capazes de controlar, apenas para descobrir que não é bem assim.

É claro, tudo isso não teria existido sem o filme original, o qual a participação de Sam Neill ajudou a cimentar na história do entretenimento.

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Membro antigo da GameVicio, atuo atualmente como editor no site. Adoro todo tipo de jogo, especialmente com um profundo apreço por jogos com narrativas imersivas. Meu email de contato: [email protected]
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