Stephane D’Astous, fundador e ex-gerente geral da Eidos Montreal, disparou críticas duras contra o perfil dos executivos que lideram a indústria de games atualmente. Em conversa com o portal Thunderpick, ele afirmou que as pessoas que hoje detêm o poder de decisão nas grandes empresas operam muito mais por lógica financeira do que por amor aos jogos, uma virada que, segundo ele, se consolidou nos últimos 15 anos.
“As pessoas com dinheiro e poder de decisão são muito menos numerosas, e seus bolsos são muito mais fundos… elas não têm o mesmo DNA do tomador de decisão de 15 anos atrás; é muito mais Excel do que orientado por paixão”, afirmou D’Astous. A fala resume um diagnóstico preocupante: à medida que o mercado se concentrou em menos e maiores mãos, a cultura interna das empresas foi se distanciando da origem criativa do setor.
Um mercado irreconhecível
Para ilustrar a transformação, D’Astous aponta para a ascensão de players que, uma década e meia atrás, nem figuravam no radar da indústria. “Os grandes players de 15 anos atrás não são necessariamente os grandes players de hoje. Há novos players. Há 15 anos a Tencent existia, mas não era o gorila que é hoje… Se você olhar para o fundo soberano da Arábia Saudita, que tem recursos ilimitados comprando a EA, há 15 anos quem diria que a EA estava na fila para ser comprada?”
O cenário que ele descreve é o de uma indústria onde o dinheiro chegou em volume e velocidade maiores do que a sabedoria para administrá-lo e a pandemia de Covid-19 funcionou como um acelerador desse problema. “Milhares de projetos receberam dinheiro durante a Covid”, disse D’Astous. “Quando eu vi alguns deles… falei: ‘Essa ideia foi financiada? Meu Deus, isso é péssima notícia’… Vamos ver os resultados finais dessas más decisões de investimento daqui a alguns anos.”
Expectativas impossíveis e o caso do “Witcher 3 de orçamento limitado”
Se o diagnóstico sobre o dinheiro da pandemia já soava grave, a descrição do dia a dia de quem negocia com esses executivos é ainda mais reveladora. D’Astous contou que foi abordado múltiplas vezes com pedidos para desenvolver um jogo no estilo de The Witcher 3 com orçamento reduzido, em menos de quatro anos e com uma equipe nova, uma combinação que ele classifica como expectativa absurda e irrealista por parte de quem controla os recursos.
O quadro geral pintado pelo fundador da Eidos Montreal não aponta para uma reversão próxima. Com as empresas cada vez mais pressionadas a ampliar receitas, o ambiente atual é pouco favorável à tomada de riscos criativos, justamente o tipo de aposta que, historicamente, produziu os jogos mais marcantes do setor. Para D’Astous, esse é o preço de uma indústria que cresceu rápido demais.
Fonte: PC Gamer