A indústria de mangá no Japão enfrenta uma crise silenciosa, mas consistente: o público jovem está abandonando os quadrinhos japoneses, tanto em papel quanto no formato digital. É o que aponta uma análise recente de Ichishi Iida, publicada na revista President Online, que identifica dois fatores centrais para esse afastamento gradual entre crianças e adolescentes.
O primeiro motivo é a perda generalizada de interesse pela mídia impressa, praticamente substituída pelas telas de smartphones e outros dispositivos. O segundo é o alto custo das assinaturas nos serviços online de leitura de mangá. Iida aponta que os dois fatores estão diretamente ligados e, juntos, explicam o distanciamento progressivo do público mais jovem do setor, sem que haja, por ora, uma solução clara no horizonte.
Do auge das revistas à queda
Para entender a dimensão do problema, vale olhar para os números históricos. Até 2004, o mercado de mangá era sustentado principalmente pelas revistas-coletânea, como a icônica Weekly Shonen Jump. O auge desse modelo aconteceu nos anos 1980, quando alunos do ensino fundamental e médio podiam chegar a consumir até 10 revistas por mês. Em 2025, esse número despencou para apenas uma revista mensal por leitor. Mais alarmante ainda: a porcentagem de jovens que não lê nenhuma revista chegou a 77,7%.
Ao comparar os resultados de pesquisas realizadas entre 1985 e 1995 com levantamentos mais recentes conduzidos pelo Benesse Educational Research & Development Institute e pela Universidade de Tóquio, fica evidente que a leitura de mangá entre o público jovem caiu de forma expressiva, tanto no formato impresso quanto no digital.
O papel ainda lidera, mas perde terreno
Apesar do cenário adverso, os mangás impressos continuam mais populares do que os digitais no Japão. A análise de Iida sugere que o fator do declínio da mídia impressa, isoladamente, tem impacto menor do que o custo elevado das plataformas de assinatura para leitura online. Em outras palavras: o jovem japonês até demonstra algum interesse pelo digital, mas os preços das assinaturas funcionam como uma barreira de entrada.
Vale notar que essa dinâmica é praticamente o oposto do que acontece na Coreia do Sul, onde a indústria de quadrinhos digitais, os chamados webtoons, é muito mais consolidada e financeiramente robusta do que o mercado tradicional impresso. O contraste entre os dois países vizinhos evidencia que o problema japonês não é apenas cultural, mas também estrutural: o modelo de monetização digital ainda não encontrou o equilíbrio certo para reter os leitores mais jovens.
O setor havia atingido resultados recordes em 2020, no auge da pandemia de COVID-19, quando o isolamento social impulsionou o consumo de entretenimento em casa. A queda que se observa agora, portanto, é ainda mais sentida em comparação com aquele pico recente.
Fonte: Automaton