Durante muitos anos, o nome Naughty Dog funcionou praticamente como um selo de qualidade. Bastava o estúdio anunciar um novo jogo para que milhões de jogadores começassem a acompanhar cada trailer, entrevista e demonstração. Essa reputação foi construída com franquias como Crash Bandicoot, Jak and Daxter, Uncharted e The Last of Us. Em diferentes gerações, a empresa conseguiu entregar jogos que chamavam atenção pelos gráficos, pela narrativa e pelo nível de acabamento.
O problema é que essa confiança já não parece tão automática. The Last of Us Part II, lançado em junho de 2020 para o PlayStation 4, continua sendo o último jogo realmente inédito produzido pela Naughty Dog a chegar ao mercado. Desde então, a empresa passou mais de seis anos sem lançar uma nova aventura. Para um dos estúdios mais importantes da PlayStation, é tempo demais.
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A Naughty Dog lançou jogos, mas quase nada realmente novo

É verdade que a empresa não ficou completamente ausente durante esse período. A Naughty Dog lançou Uncharted: Legacy of Thieves Collection, The Last of Us Part I e The Last of Us Part II Remastered. Também trabalhou nas versões para PC de Uncharted 4, Uncharted: The Lost Legacy e dos dois capítulos de The Last of Us. O problema é que todos esses projetos foram baseados em jogos antigos.
Uncharted: Legacy of Thieves Collection reuniu versões atualizadas de dois títulos já disponíveis no PS4. The Last of Us Part I refez o jogo originalmente lançado em 2013, enquanto The Last of Us Part II Remastered atualizou uma produção que sequer havia completado quatro anos. Individualmente, esses lançamentos possuem justificativas. O remake do primeiro The Last of Us trouxe melhorias gráficas, controles modernizados e novos recursos de acessibilidade. A remasterização da sequência adicionou o modo Sem Volta e conteúdos descartados durante o desenvolvimento. Quando observados em conjunto, porém, eles passam outra impressão: a de uma empresa que está há anos dependendo do próprio passado.
A geração do PS5 quase não teve uma Naughty Dog inédita
O PlayStation 5 foi lançado em novembro de 2020. Desde então, jogadores já acompanharam o nascimento de novas franquias, sequências ambiciosas e até o retorno de sagas esquecidas. A Naughty Dog, por outro lado, ainda não lançou um jogo criado originalmente para essa geração. A participação do estúdio no PS5 ficou restrita principalmente a atualizações de obras conhecidas.
Para quem já havia terminado Uncharted 4 e os dois The Last of Us, houve pouco motivo para voltar a acompanhar a empresa. Isso ajuda a explicar a mudança no comportamento dos fãs. Antes, qualquer anúncio da Naughty Dog provocava entusiasmo imediato. Hoje, as reações costumam vir acompanhadas de cobranças sobre datas, jogabilidade e desenvolvimento. A empresa ainda tem prestígio, mas já não recebe um cheque em branco.
O cancelamento de The Last of Us Online piorou a situação
Boa parte desse longo intervalo pode ser explicada pelo desenvolvimento de The Last of Us Online. O multiplayer começou como uma expansão do modo Facções, mas cresceu até se transformar em um projeto independente. A Naughty Dog prometia uma experiência de grande escala, com história própria e uma estrutura pensada para durar vários anos. O jogo, no entanto, nunca chegou ao público.
Em dezembro de 2023, a empresa anunciou oficialmente o cancelamento. Segundo o estúdio, sustentar o projeto exigiria que praticamente toda a equipe passasse a trabalhar continuamente em conteúdos e atualizações. A Naughty Dog teria que escolher entre se transformar em uma produtora focada em jogos como serviço ou continuar desenvolvendo aventuras narrativas para um jogador.
Cancelar o projeto pode ter sido a decisão correta. Lançar um jogo online sem estrutura para mantê-lo poderia causar prejuízos ainda maiores. Isso não muda, porém, o resultado para o público. Anos de trabalho foram direcionados a um título que nunca foi lançado, enquanto a espera por uma experiência inédita continuou aumentando.
The Last of Us dominou demais a identidade do estúdio

Outro motivo para o desgaste é a presença constante de The Last of Us. A franquia ganhou sequência, remake, remasterização, versões para PC, uma adaptação de sucesso na televisão e um projeto multiplayer que acabou cancelado. O sucesso comercial explica esse investimento. The Last of Us é uma das propriedades mais valiosas da Sony e continua atraindo público fora dos videogames.
Ainda assim, a repetição começou a cansar parte dos jogadores. A Naughty Dog sempre foi conhecida por mudar de direção ao longo das gerações. Depois de Crash Bandicoot, criou Jak and Daxter. Em seguida, produziu Uncharted e, posteriormente, The Last of Us. Nos últimos anos, essa capacidade de renovação praticamente desapareceu da visão do público.
Não significa que o estúdio tenha perdido criatividade. Significa apenas que os jogadores passaram tempo demais vendo as mesmas franquias, personagens e histórias retornando em novos pacotes.
Intergalactic precisa ser mais do que um trailer bonito
A grande esperança para mudar essa percepção é Intergalactic: The Heretic Prophet. Anunciado no final de 2024, o jogo será uma nova propriedade intelectual de ficção científica. A história terá como protagonista Jordan A. Mun, uma caçadora de recompensas que acaba presa em um planeta isolado do restante do universo. O projeto está em produção desde 2020 e foi descrito pela Naughty Dog como uma de suas obras mais ambiciosas.
A revelação foi importante porque finalmente mostrou algo fora dos universos de Uncharted e The Last of Us. Depois de tantos relançamentos, o público precisava ver que o estúdio ainda estava disposto a assumir riscos. Entretanto, o anúncio também gerou novas dúvidas.
O primeiro trailer mostrou a protagonista, o cenário e a identidade visual, mas apresentou nada sobre a jogabilidade. Além disso, até julho de 2026, o jogo ainda não tem uma data oficial de lançamento. Depois de tantos anos de espera, apenas o nome Naughty Dog já não basta. A empresa precisa mostrar um jogo concreto, com mecânicas convincentes e uma janela de estreia realista.
A Naughty Dog perdeu sua moral?
A Naughty Dog perdeu sua moral?
Dizer que a Naughty Dog perdeu completamente sua moral com os jogadores talvez seja exagero. A empresa continua sendo respeitada pelo domínio técnico, pelas animações, pelas atuações e pela capacidade de produzir jogos com valores elevados de produção. The Last of Us Part II, independentemente das discussões sobre sua história, mostrou que o estúdio ainda conseguia criar sistemas de combate, cenários e animações acima da média da indústria.
O que a Naughty Dog perdeu foi parte da confiança incondicional do público. Os jogadores já não parecem dispostos a esperar indefinidamente sem questionar decisões, cancelamentos e relançamentos. O histórico do estúdio continua valioso, mas as conquistas do passado não conseguem sustentar a expectativa para sempre. Intergalactic terá, portanto, uma responsabilidade maior do que simplesmente ser um bom jogo.
A nova franquia precisará provar que a Naughty Dog ainda consegue criar mundos inéditos, apresentar ideias diferentes e surpreender uma geração de jogadores que passou praticamente toda a vida do PS5 esperando por algo novo. O talento provavelmente ainda está lá. O que falta é transformá-lo novamente em um jogo que o público possa realmente jogar.
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