A saída da PlayStation de Physint, novo jogo de ação e espionagem de Hideo Kojima, ganhou um novo capítulo nos últimos dias. Depois de uma reportagem apontar que custos elevados, atrasos e dúvidas sobre o retorno financeiro estavam entre as preocupações da Sony, antigas declarações do próprio desenvolvedor sobre a maneira como administra seus projetos voltaram a circular nas redes sociais.
E nelas, Kojima rebate justamente uma imagem que acompanha sua carreira há bastante tempo: a de um diretor que trabalha durante anos e gasta grandes quantidades de dinheiro sem se preocupar muito com os limites do projeto. A declaração não foi feita em resposta à atual controvérsia envolvendo Physint. Ela vem de uma participação anterior de Kojima em seu programa de rádio, na qual o desenvolvedor explicou como a Kojima Productions calcula orçamento, tamanho da equipe e quantidade necessária de vendas antes mesmo de avançar com uma produção. O trecho voltou a ganhar destaque neste fim de semana após ser compartilhado no Reddit.
“Eu também defino o orçamento. Existe um ponto de equilíbrio que precisa ser considerado, então a primeira coisa a se pensar é quanto é preciso vender para recuperar o investimento. As pessoas acham que eu gasto uma fortuna ou que passo anos trabalhando em projetos sem limites, mas não é o caso. Eu me certifico de que trabalhamos com um orçamento adequado”, disse Kojima.
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Kojima denied the rumors about the budget and development timeline.
byu/Superb-Employment291 inDeathStranding
Kojima diz que seus jogos começam pensando no ponto de equilíbrio
Segundo Kojima, um dos primeiros cálculos realizados durante a concepção de um jogo é justamente o chamado ponto de equilíbrio: quantas unidades o projeto precisaria vender para recuperar o investimento. A partir daí, orçamento, tamanho da equipe e escopo começariam a ser definidos em conjunto.O diretor afirma que não trabalha simplesmente adicionando ideias sem considerar os custos. Pelo contrário, o objetivo seria descobrir o que é possível produzir dentro do dinheiro disponível, equilibrando sua visão criativa com aquilo que o estúdio realmente consegue financiar.
Como exemplo, ele citou o primeiro Death Stranding. De acordo com Kojima, nos estágios iniciais a Kojima Productions ainda não possuía nem 30 funcionários e, no começo da reconstrução do estúdio, o grupo era formado por apenas quatro pessoas. Isso teria afetado diretamente várias decisões de design. Criar grandes cidades repletas de NPCs ou sistemas semelhantes aos encontrados em RPGs, por exemplo, exigiria recursos que a equipe não tinha naquele momento.
Soluções como cidades que podem ser vistas externamente, mas não exploradas internamente, teriam surgido parcialmente dessas limitações práticas. Ou seja, algumas características que acabaram fazendo parte da identidade de Death Stranding também nasceram da necessidade de adaptar o jogo aos recursos disponíveis.
Até atores famosos entram nessa conta
Kojima também usou Mads Mikkelsen, intérprete de Cliff em Death Stranding, para explicar sua filosofia. Segundo o diretor, trabalhar de maneira independente permite decidir onde gastar mais e onde economizar. Contratar um ator conhecido pode aumentar os custos de uma determinada área, mas o orçamento pode ser compensado reduzindo gastos em outras partes da produção. Para Kojima, esse controle é justamente o que permite preservar determinadas decisões criativas sem simplesmente transformar o orçamento em um “poço sem fundo”.

A posição também combina com declarações anteriores do desenvolvedor sobre tamanho de equipes. Em 2025, ao falar sobre Clair Obscur: Expedition 33, Kojima afirmou que prefere trabalhar com grupos menores e chegou a descrever uma equipe criativa com cerca de 30 pessoas como próxima de seu cenário ideal, embora grandes produções modernas também utilizem muitos colaboradores e empresas terceirizadas.
Mas isso não derruba a reportagem sobre Physint
O momento em que essas declarações ressurgiram é particularmente interessante. Uma reportagem de Jason Schreier, da Bloomberg, publicada em 11 de setembro, afirma que a decisão da PlayStation de abandonar Physint envolveu diversos fatores. Segundo pessoas familiarizadas com o projeto, Physint teria perdido prazos de desenvolvimento e caminhava para ficar consideravelmente acima do orçamento, mesmo ainda estando a anos do lançamento.
Outro fator teria sido o desempenho comercial dos dois Death Stranding publicados em parceria com a Sony. De acordo com essas fontes, os jogos não atingiram as expectativas de receita da PlayStation. Também existia uma questão envolvendo a propriedade e a exclusividade do projeto. A Sony estaria relutante em investir centenas de milhões de dólares em outro título que poderia posteriormente aparecer em plataformas concorrentes, especialmente porque a propriedade intelectual continuaria pertencendo à Kojima Productions. Nada disso, porém, foi confirmado publicamente pela Sony.
Discussão divide os jogadores
O ressurgimento das declarações de Kojima também abriu uma discussão interessante entre jogadores. Em uma publicação no subreddit de Death Stranding que ultrapassou 1,7 mil votos positivos, alguns usuários interpretaram a fala como evidência de que a reputação de Kojima como alguém que constantemente estoura orçamentos pode ser exagerada. Outros fizeram uma ressalva importante: o diretor estava falando sobre Death Stranding e sua filosofia de desenvolvimento, não especificamente sobre Physint. Portanto, as declarações antigas não serviriam para desmentir automaticamente as informações publicadas pela Bloomberg.
Também houve quem argumentasse que o próprio modelo descrito por Kojima (no qual ele controla como o dinheiro é distribuído entre atores, equipe, ambientes e outros elementos) ajuda a explicar por que uma publicadora poderia avaliar o risco de forma diferente do próprio diretor. No fim das contas, é justamente essa diferença de perspectivas que parece estar no centro da situação.
Para Kojima, grandes ideias precisam existir dentro de um orçamento calculado desde o começo. Para uma publicadora do tamanho da Sony, entretanto, a questão não seria apenas saber se o jogo pode ser concluído, mas quanto ele custará, quanto precisa vender e quanto desse investimento retornará para a própria PlayStation. Agora será a Microsoft que fará essa aposta.
E considerando que Physint pretende marcar o retorno de Hideo Kojima ao gênero que o tornou mundialmente conhecido com Metal Gear, o resultado dessa troca de parceiros provavelmente será observado de perto por toda a indústria.