Você achava que estes 14 jogos eram assustadores até descobrir o que realmente estava acontecendo

De Silent Hill 2 a SOMA e Rule of Rose, alguns jogos revelam histórias capazes de tornar seus monstros e cenários ainda mais perturbadores

Alerta, o artigo conta com spoilers. Há jogos de terror em que a ameaça é simples de identificar: existe alguma coisa tentando matar o personagem e o objetivo é sobreviver. Outros seguem um caminho diferente. Monstros, lugares deformados e acontecimentos aparentemente sobrenaturais começam a ganhar outro significado conforme a história é descoberta.

Em alguns casos, entender quem são aquelas criaturas ou por que determinado cenário existe torna a experiência consideravelmente mais desconfortável. Em outros, o elemento sobrenatural sequer é a parte mais perturbadora da história.

A lista abaixo reúne jogos que funcionam dessa forma. Como a proposta depende justamente de explicar o que está por trás de cada história, existem grandes spoilers daqui para frente. Você achava que estes 14 jogos eram assustadores até descobrir o que realmente estava acontecendo. Alerta, o artigo conta com spoilers.

Silent Hill 2

  • Lançamento original: 2001
  • Plataformas: PS2, Xbox e PC; o remake de 2024 está disponível para PS5 e PC.

James Sunderland chega a Silent Hill depois de receber uma carta de Mary, sua esposa, que supostamente morreu três anos antes. Durante boa parte do jogo, essa premissa permite acreditar que James é apenas mais uma vítima da cidade. A verdade muda completamente essa percepção.

James matou Mary sufocada enquanto ela sofria de uma doença terminal e reprimiu a lembrança do que fez. Silent Hill transforma sua culpa, frustração e desejo de punição em lugares e criaturas. Pyramid Head, especialmente, deixa de ser somente um perseguidor e passa a funcionar como uma representação da necessidade de James de ser castigado.

Até Maria, praticamente idêntica a Mary, está ligada aos desejos e conflitos que ele tenta esconder. Depois da revelação, revisitar diversos momentos do jogo significa enxergar a cidade pela cabeça de alguém que está tentando fugir do próprio crime.

SOMA

  • Lançamento: 22 de setembro de 2015
  • Plataformas: PC, macOS, Linux, PS4 e Xbox One.

SOMA começa colocando Simon Jarrett em uma instalação submarina tomada por máquinas que parecem acreditar que são pessoas. Isso já seria suficiente para sustentar um jogo de terror, mas a história vai muito além das criaturas espalhadas pela PATHOS-II.

A humanidade praticamente acabou após um evento catastrófico, e o Simon controlado pelo jogador não é simplesmente o homem que entrou em um laboratório anos antes: ele é uma cópia de sua consciência. O mesmo processo ocorre outras vezes. Não existe uma transferência literal entre corpos, apenas uma nova versão que acorda acreditando ter continuado a experiência anterior.

O golpe final vem com a ARK. Simon acredita que sua consciência será enviada para ela, mas apenas outra cópia segue adiante. A versão que acompanhamos continua presa no fundo do oceano. A própria Frictional descreveu SOMA como uma tentativa de produzir um tipo de medo relacionado à consciência e ao significado de ser humano, e entender essa lógica torna várias decisões do jogo muito mais desagradáveis.

Amnesia: The Dark Descent

  • Lançamento: 8 de setembro de 2010
  • Plataformas: PC, macOS e Linux; posteriormente também chegou a PS4, Xbox One e Nintendo Switch.

Daniel acorda no Castelo Brennenburg sem memória e encontra uma mensagem escrita por ele mesmo dizendo que precisa matar Alexander. Durante as primeiras horas, parece que alguém fez algo terrível contra o protagonista. O problema é que Daniel apagou suas próprias memórias de propósito.

Antes disso, ele colaborou com Alexander na captura e tortura de pessoas. A justificativa era produzir vitae e ajudá-lo a escapar da entidade conhecida como Shadow, mas Daniel gradualmente participou de atrocidades cada vez piores. Quando percebeu o que havia se tornado, preferiu esquecer tudo.

Por isso, recuperar a memória não serve apenas para explicar o castelo. O jogador descobre que o homem aterrorizado que está tentando escapar daquele lugar ajudou a criar boa parte do sofrimento encontrado nele.

Darkwood

  • Lançamento: 2017
  • Plataformas: PC, PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series X|S e Nintendo Switch.

Darkwood já apresenta uma floresta que parece ter engolido tudo ao seu redor. Pessoas estão deformadas, criaturas aparecem à noite e ninguém parece compreender completamente o que está acontecendo, mas o final consegue piorar a situação.

Depois de finalmente escapar, o protagonista aparentemente retorna para casa e simplesmente vai dormir. É possível aceitar esse desfecho e terminar o jogo. Mas quem percebe pequenas inconsistências no apartamento pode encontrar raízes sob o chão e descobrir que aquela volta para casa é uma ilusão.

O suposto lugar seguro faz parte da mesma influência da floresta. A possibilidade de que outras pessoas estejam adormecidas e presas naquele estado transforma a ideia de “escapar” em algo muito mais incerto. Darkwood passa boa parte do tempo ensinando o jogador a desconfiar da floresta e termina mostrando que nem mesmo sair dela necessariamente significa estar livre.

Layers of Fear

  • Lançamento: 16 de fevereiro de 2016
  • Plataformas: PC, macOS, Linux, PS4 e Xbox One; posteriormente recebeu versão para Nintendo Switch.

A mansão que muda de forma parece inicialmente a casa de um pintor enlouquecido. Conforme documentos e lembranças aparecem, descobrimos o que aconteceu com sua esposa e filha. Depois de um incêndio deixar sua esposa gravemente ferida e incapaz de seguir normalmente sua carreira como musicista, a relação do casal entrou em colapso.

O pintor se tornou cada vez mais obcecado pelo trabalho, negligenciou a família e perdeu a guarda da filha após a morte da esposa. A parte mais desagradável está na obra que ele tenta terminar. O jogo sugere que os materiais utilizados para produzir sua pintura incluem partes do corpo da própria esposa, como pele, cabelo, sangue e um dedo.

Como o protagonista é um narrador pouco confiável, nem toda imagem apresentada precisa ser interpretada literalmente, mas saber o histórico da família torna a mansão menos uma “casa mal-assombrada” e mais a visão deformada de um homem responsável por grande parte da destruição que o cerca.

Mouthwashing

  • Lançamento: 26 de setembro de 2024
  • Plataformas: lançado originalmente para PC; versões para PS5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch também foram anunciadas.

Nos primeiros minutos, Mouthwashing leva o jogador a acreditar que o capitão Curly provocou deliberadamente o acidente que destruiu o cargueiro Tulpar. Com Curly mutilado e incapaz de falar, Jimmy assume o controle. A estrutura não linear gradualmente mostra uma história bem diferente.

O jogo deixa fortemente implícito que Jimmy abusou sexualmente de Anya, que posteriormente revela estar grávida. Curly sabia que havia um problema grave entre os dois, mas não conseguiu proteger a tripulante nem tomar uma atitude adequada. Diante das consequências de seus atos, Jimmy provoca o acidente e passa boa parte da história transferindo responsabilidade para outras pessoas.

Os monstros e sequências surreais acabam ficando em segundo plano diante daquilo que aconteceu entre pessoas comuns dentro da nave. Mouthwashing é especialmente desconfortável porque boa parte do horror existia antes mesmo de a Tulpar bater no asteroide.

Detention

  • Lançamento: janeiro de 2017
  • Plataformas: PC, macOS, Linux, PS4, Nintendo Switch e dispositivos móveis.

A Greenwood High School está cheia de espíritos e imagens violentas, mas Detention usa esse horror para falar de um período histórico real: o Terror Branco de Taiwan. Ray se envolve com o professor Chang e, após interpretar de maneira equivocada a relação dele com a professora Yin, consegue com Wei informações sobre um clube clandestino que lia livros proibidos. Ela entrega a lista ao instrutor Bai esperando atingir Yin.

O resultado é muito maior do que imaginava. Integrantes do grupo são presos, torturados e mortos pelas autoridades. Ray posteriormente precisa lidar com o peso do que provocou. Quando essa parte da história fica clara, os corredores da escola deixam de parecer apenas um purgatório sobrenatural.

Eles representam culpa pessoal dentro de um sistema político onde possuir ou discutir determinados livros podia destruir várias vidas.

The Cat Lady

  • Lançamento: 2012
  • Plataformas: PC e Linux.

The Cat Lady começa com Susan Ashworth tentando tirar a própria vida. Depois de retornar do que parece ser uma espécie de pós-vida, ela recebe a missão de eliminar cinco pessoas chamadas de “Parasitas”. A violência desses personagens é perturbadora, mas a história de Susan gradualmente se torna a parte mais importante.

Ela perdeu a filha ainda bebê, depois perdeu o marido e passou anos convivendo com depressão e isolamento. A misteriosa Queen of Maggots, que aparentemente controla parte da experiência sobrenatural, também pode ser interpretada diretamente como uma manifestação dessa depressão.

Isso muda a forma de enxergar muitas situações do jogo: Susan não está somente enfrentando assassinos. Ela está tentando descobrir se ainda existe alguma possibilidade de voltar a viver depois de anos em que praticamente tudo ao seu redor foi associado à perda.

Who’s Lila?

  • Lançamento: 23 de fevereiro de 2022
  • Plataforma: PC.

William Clarke tem dificuldade para demonstrar emoções, e o jogador precisa literalmente manipular seu rosto durante conversas. Ao mesmo tempo, uma garota chamada Tanya desapareceu e William foi uma das últimas pessoas vistas com ela. O que já parece estranho fica pior quando a identidade do protagonista começa a ser questionada.

As diferentes rotas mostram que William está relacionado a crimes graves, mas existe outra presença na história: Lila. A entidade parece ter assumido o controle de William antes dos principais acontecimentos, e o próprio jogador pode estar controlando Lila, não o jovem que acreditava estar interpretando.

O sistema de mexer manualmente no rosto ganha outra leitura. Talvez a dificuldade de William em expressar emoções nunca tenha sido apenas uma característica social; existe literalmente alguma coisa aprendendo a usar sua aparência.

Martha Is Dead

  • Lançamento: 24 de fevereiro de 2022
  • Plataformas: PC, PS4, PS5, Xbox One e Xbox Series X|S.

A premissa acompanha Giulia após encontrar o corpo de sua irmã gêmea Martha em um lago. Quando a mãe confunde Giulia com a irmã morta, ela decide assumir a identidade de Martha. Só que Martha Is Dead utiliza uma protagonista cuja percepção dos acontecimentos não é confiável.

Conforme a história avança, versões contraditórias aparecem sobre quem matou Martha, o relacionamento familiar e até mesmo sobre a existência das duas irmãs como pessoas separadas. Uma das revelações centrais apresenta Giulia como uma identidade alternativa criada dentro da própria Martha após anos de abuso.

Isso significa que várias cenas que pareciam mostrar uma investigação externa podem estar passando por uma mente incapaz de separar completamente memória, fantasia e realidade. O jogo deliberadamente não oferece uma resposta confortável para tudo que é mostrado.

Pathologic 2

  • Lançamento: 23 de maio de 2019
  • Plataformas: PC, PS4 e Xbox One.

Pathologic 2 já é sufocante antes de qualquer grande revelação. Artemy Burakh precisa tentar salvar uma cidade tomada pela Sand Pest enquanto comida, medicamentos e tempo desaparecem rapidamente. Então ele descobre que a própria cidade possui uma relação física com a Terra.

Sob o Abattoir existe algo semelhante a um enorme coração, enquanto a base da Polyhedron perfura profundamente esse organismo. Artemy também descobre que seu próprio pai permitiu deliberadamente que a peste entrasse na cidade porque acreditava que aquele sofrimento seria necessário para provocar uma transformação.

No fim, preservar a cidade e preservar a Terra são objetivos incompatíveis. Destruir a Polyhedron permite obter o sangue necessário para salvar os habitantes, mas sacrifica o mundo antigo ligado à Terra. Mantê-la significa aceitar outra forma de futuro em que muitas pessoas comuns não têm lugar.

O terror de Pathologic 2 não está apenas na epidemia, mas na constatação de que não existe uma solução capaz de preservar tudo.

Rule of Rose

  • Lançamento: 2006
  • Plataforma: PS2.

Rule of Rose apresenta Jennifer presa em um mundo governado por crianças que criaram uma hierarquia chamada Red Crayon Aristocrats. As punições são cruéis, os acontecimentos parecem impossíveis e um cachorro chamado Brown é uma das únicas presenças realmente confiáveis para a protagonista. Aos poucos, fica claro que o jogo está reconstruindo memórias distorcidas da infância de Jennifer.

Ela viveu no Rose Garden Orphanage e teve uma relação complicada com Wendy. Quando Jennifer passa a dedicar mais atenção a Brown, Wendy reage com ciúme, usa a estrutura criada pelas crianças contra ela e eventualmente ordena a morte do cachorro.

A situação termina de maneira ainda pior quando Wendy manipula Gregory, um homem emocionalmente destruído pela perda do filho Joshua, fazendo com que ele assuma a identidade do “Stray Dog”. Gregory massacra as crianças do orfanato, e Jennifer sobrevive.

O estranho dirigível, os livros infantis e os rituais deixam de parecer uma fantasia aleatória quando entendemos que Jennifer adulta está reconstruindo uma infância marcada por abuso, crueldade e um massacre.

In Sound Mind

  • Lançamento: 28 de setembro de 2021
  • Plataformas: PC, PS5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch.

Desmond Wales é um terapeuta que atravessa ambientes construídos a partir dos medos e problemas de antigos pacientes. Por algum tempo, parece que tudo pode ser explicado apenas como uma viagem pela mente do protagonista. Existe, porém, uma causa concreta conectando aquelas pessoas.

Uma substância psicoativa conhecida como Agent Rainbow foi desenvolvida e acabou contaminando Milton Haven. Ela influencia as pessoas afetadas e está ligada às experiências mentais compartilhadas vistas por Desmond.

Isso torna particularmente desagradável descobrir que pacientes que pareciam ter sofrido crises individuais estavam ligados ao mesmo experimento. A figura de Agent Rainbow que persegue Desmond é também uma manifestação construída a partir dos próprios medos dele.

Slay the Princess

  • Lançamento: 23 de outubro de 2023
  • Plataformas: PC, macOS e Linux; The Pristine Cut também levou o jogo a PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series X|S e Nintendo Switch.

A ordem parece simples: existe uma princesa presa no porão de uma cabana e o Narrador afirma que ela precisa morrer porque destruirá o mundo. As diversas rotas rapidamente demonstram que a realidade é muito mais complicada.

O protagonista é o Long Quiet, enquanto a Princesa é uma manifestação da Shifting Mound, uma entidade relacionada à mudança, destruição, morte e renascimento. O Narrador é apenas o eco de um mortal que tentou separar essas forças porque tinha medo da morte.

Matar definitivamente a Princesa pode impedir o fim daquele universo, mas também remove a própria possibilidade de mudança, renovação e novas vidas. Deixar que ela exista significa aceitar que tudo eventualmente termina.

Isso altera completamente as primeiras ordens recebidas pelo jogador. O homem aparentemente tentando “salvar o mundo” construiu todo aquele sistema porque queria eliminar um componente fundamental da existência, e as diferentes versões monstruosas da Princesa são influenciadas diretamente pela forma como o protagonista a percebe.

Quando a história passa a fazer parte do terror

Esses jogos chegam ao mesmo resultado por caminhos bastante diferentes. Silent Hill 2 transforma culpa em monstros. SOMA usa cópias de consciência para questionar o que significa continuar existindo. Devotion pega um apartamento familiar e mostra como ele foi destruído por decisões humanas.

É por isso que algumas dessas histórias funcionam tão bem depois dos créditos. Saber a verdade não elimina o medo. Em muitos casos, faz exatamente o contrário, porque permite voltar mentalmente a cenas anteriores e perceber informações que estavam visíveis desde o começo, mas ainda não tinham contexto.

No fim, os monstros continuam os mesmos. O que muda é saber de onde eles vieram.

Gostou? Nos ajude compartilhando!
Postado por
Sou do tipo que adora assistir algo antes de dormir e perder horas em jogos duvidosos no fim de semana. Me segue lá no Twitter/X.
Siga em:
VEJA TAMBÉM
Assine nosso Newsletter
Assine nossa newsletter e receba nossa seleção de conteúdo sobre games e entretenimento diretamente em seu email.
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Gostou? Discordou? Comente! Sua opinião vale ouro e nos ajuda a melhorar cada vez mais!
SELEÇÕES ESPECIAIS
Das pérolas escondidas aos grandes sucessos, confira nossas listas e descubra novos games!
Img de rastreio
Localize algo no site!