A década de 2000 foi um dos períodos mais importantes para a indústria dos animes. Enquanto fenômenos como Naruto, Bleach, Death Note e Fullmetal Alchemist conquistavam milhões de fãs ao redor do mundo, diversas outras produções de excelente qualidade acabaram passando despercebidas pelo grande público.
Seja por uma divulgação limitada, concorrência acirrada ou simplesmente por terem sido lançadas na época errada, muitos desses títulos continuam pouco lembrados, apesar de oferecerem histórias marcantes, personagens cativantes e animações que ainda impressionam. Confira alguns dos melhores animes dos anos 2000 que mereciam muito mais reconhecimento.
Planetes
A abordagem da ficção científica nesta produção do estúdio Sunrise troca as grandes batalhas intergalácticas por burocracia, escalas de trabalho e contratos precários de emprego. A trama acompanha uma equipe de lixeiros espaciais no ano de 2075, responsáveis por recolher detritos na órbita da Terra que ameaçam a navegação de satélites e espaçonaves comerciais. A convivência no departamento de coleta de detritos expõe um choque de realidades e perspectivas sobre a exploração espacial.
Enquanto a novata Ai Tanabe acredita em ideais de justiça e na importância essencial do trabalho, Hachirouta, seu veterano, enxerga o serviço apenas como um degrau exaustivo para tentar comprar sua própria nave um dia. O abandono pelo público geral ocorreu justamente pelo ritmo deliberadamente focado na rotina comum de operários. Fãs de animes espaciais estavam condicionados a esperar robôs gigantes ou guerras entre impérios galácticos, o que tornou a rotina de preencher formulários de seguro e lidar com equipamentos sucateados algo frustrante para a época.
GetBackers
A transição dos anos 90 para a primeira década dos anos 2000 trouxe uma leva de adaptações que tentavam misturar ação urbana com habilidades sobre-humanas, e esta produção do Studio Deen é um dos exemplos mais claros desse movimento. A história acompanha uma dupla de recuperadores profissionais operando nas ruas de Shinjuku, aceitando qualquer trabalho para devolver itens perdidos ou roubados aos seus donos originais.
O contraste comportamental entre os dois protagonistas atua como o motor de toda a narrativa. De um lado, Ginji Amano funciona como a força bruta elétrica e o alívio cômico da equipe, enquanto Ban Mido traz um tom calculista, utilizando o poder de criar ilusões momentâneas na mente dos adversários. A maior barreira que afasta o público moderno do título é a forma como a adaptação foi encerrada no estúdio. Sem uma continuação para amarrar as tramas que ficaram abertas, o desfecho abrupto frustrou a audiência da época.
Gungrave
Adaptar um jogo de videogame focado em atirar freneticamente contra monstros parecia uma receita simples para um anime de ação padrão, mas o estúdio Madhouse optou por desconstruir essa expectativa. A narrativa foca na juventude de Brandon Heat e Harry MacDowell, dois delinquentes de rua que decidem entrar para o maior sindicato criminoso da cidade, a Millennion. A partir daí, o que era para ser uma história de monstros transforma-se em um denso drama mafioso sobre lealdade, escalada de poder e a corrupção de valores dentro do crime organizado.
A estrutura de roteiro assumiu um risco altíssimo ao dedicar quase metade de todos os episódios exclusivamente à construção do passado dos protagonistas dentro da máfia. A principal razão para o ostracismo do título foi a desastrosa escolha de montagem do primeiro episódio, que adianta eventos do futuro de forma confusa, seguido imediatamente por uma sequência enorme de flashbacks a partir do segundo capítulo.
Wolf’s Rain
A premissa parte de uma lenda antiga afirmando que a salvação final, referida como o paraíso, só pode ser alcançada por lobos. O ponto central é que esses animais são considerados extintos pelo restante da sociedade, sobrevivendo apenas através de truques visuais que os fazem parecer humanos perante a população civil. A condução da trama se baseia em uma travessia contínua, impulsionada pelo aroma de uma flor mística que atrai os poucos lobos remanescentes do continente.
Não há uma jornada heroica nos moldes tradicionais; o foco recai sobre a fome, a sobrevivência e o choque direto contra cidades que já não têm recursos a oferecer. Atualmente, o título sobrevive graças à memória de um segmento muito específico de fãs que valoriza abordagens filosóficas. A construção visual e a trilha sonora foram desenhadas para gerar um clima introspectivo, algo que destoa bastante da urgência vista na indústria contemporânea de animação.
Kurau: Phantom Memory
Produzido pelo estúdio Bones, este anime explora as consequências de um experimento científico que dá terrivelmente errado nas instalações lunares, mudando as leis de energia conhecidas. A protagonista Kurau tem seu corpo fundido a uma forma de energia alienígena chamada Rynax quando ainda era criança, forçando-a a crescer isolada enquanto aprende a dominar capacidades sobre-humanas.
Já adulta e operando como uma mercenária independente, sua vida sofre um colapso quando a outra metade de sua energia se materializa na forma de uma garotinha, Christmas, desencadeando uma caçada global por entidades governamentais. A falta de apelo comercial agressivo e o tom altamente contemplativo fizeram com que a produção passasse despercebida no ano de seu lançamento.
Last Exile
Idealizado pelas equipes do estúdio Gonzo, o anime encontrou um caminho estético próprio apostando em maquinários a vapor e conflitos aéreos em grande altitude. A ambientação divide o espaço entre duas nações em guerra permanente que são vigiadas de perto por uma guilda detentora de tecnologias superiores. A engenharia do universo rouba a atenção ao apresentar aeronaves retro-futuristas de grande porte que operam como navios de guerra nos céus.
A inovação visual gerou burburinho no ano de lançamento, mas a obra foi gradativamente soterrada por tendências mais imediatistas de ficção científica espacial. A decisão de priorizar debates logísticos e diálogos táticos sobre explosões ininterruptas causou estranheza no público impaciente. Com o passar das décadas, manteve-se como um clássico silencioso que merece respeito pela coesão de suas batalhas nos ares e design original de veículos.
Noein: To Your Other Self
A mecânica quântica e a teoria dos múltiplos universos servem como alicerce para esta narrativa que divide sua atenção entre o cotidiano infantil e conflitos temporais de larga escala. O cenário de uma pacata cidade costeira japonesa no tempo presente é invadido por soldados do futuro, conhecidos como Cavaleiros do Dragão, que travam uma guerra contra uma dimensão paralela focada na aniquilação do espaço-tempo.
O peso técnico do roteiro, carregado de terminologias físicas e longas exposições sobre paradoxos temporais, alienou grande parte do público logo nas primeiras semanas de exibição. Além disso, a alternância brusca no estilo de traço durante as lutas foi mal interpretada por muitos como um “desenho mal feito” ou falta de orçamento na época, quando, na verdade, era uma escolha de direção artística deliberada.
Nodame Cantabile
Contrariando a melancolia inerente a boa parte dos títulos focados em carreira artística, esta comédia opta por retratar as pressões do ensino superior de música de forma realista, sem forçar tragédias. Os acontecimentos tomam forma nos corredores de um conservatório japonês de elite, fugindo do ambiente escolar tradicional. A atenção é voltada exclusivamente para as demandas, ensaios exaustivos e as exigências técnicas impostas aos instrumentistas que tentam despontar no meio profissional erudito.
Obras centradas em maturidade profissional e relacionamento focado no crescimento mútuo disputam espaço em desvantagem contra obras de alta adrenalina. Ao recusar dramas exagerados ou rivalidades de vida e morte, o título acabou sendo esquecido pelo grande público que consumia lançamentos da época. O resultado é um retrato genuíno e respeitoso sobre o processo exaustivo de aprendizado e performance musical técnica.
Fantastic Children
Inspirada em estéticas clássicas do folclore europeu e contos de fadas, essa produção da Nippon Animation esconde um mistério de ficção científica profundo. A investigação foca em um grupo de crianças de cabelos brancos que são registradas em diversas partes do mundo ao longo de vários séculos, sempre com a mesma aparência física e nunca envelhecendo. Quando o jovem Thoma se cruza com a misteriosa Helga no tempo presente, as peças espalhadas através do tempo começam a se juntar, conectando pesquisadores, órfãos e o passado apagado de outro planeta.
O principal fator que enterrou o título nas prateleiras foi o visual fortemente retrô de seus personagens. Em um mercado de meados dos anos 2000, onde o público priorizava traços afiados, olhos extremamente brilhantes e designs modernos, a arte com forte inspiração nos animes dos anos 70 e 80 afastou a audiência moderna de cara. Aqueles que superaram o preconceito visual inicial encontraram um dos roteiros de quebra-cabeça mais coesos e emocionantes do período.
D.Gray-man
Apresentando plenas condições para disputar a atenção da mídia ao lado dos maiores sucessos da década, esta produção se apoiou em uma roupagem gótica fortíssima no fim do século XIX. A narrativa coloca em evidência Allen Walker, jovem recém-chegado à Ordem Negra, uma organização militarizada de exorcistas desenhada para varrer as criaturas conhecidas como Akuma. O adversário central, o Conde do Milênio, atua como o arquiteto do fim do mundo orquestrando seus ataques nas sombras da revolução industrial europeia.
As interrupções contínuas na produção causadas por problemas de saúde severos da autora original quebraram o ritmo de lançamento da animação na pior hora possível. A perda da constância semanal congelou o interesse de grande parte da comunidade, que precisava de entregas mais regulares para sustentar o debate em torno do universo. Para quem gosta de estéticas carregadas e habilidades detalhadas de combate, o material permanece como uma recomendação indispensável.