No decorrer da última década, temos presenciado o “apodrecimento” de várias das franquias mais consagradas. Jogos que marcaram uma geração e hoje estão limitados a sequências de baixa qualidade, com pouco impacto dentre os jogadores. Seria isso o resultado do crescimento da indústria de jogos, que antes, o que era feito por paixão, hoje não passa de números, vendas e dinheiro? Estamos na era da corrupção dos jogos?
OS TEMPOS DE OURO
A franquia Silent Hill, lançada em 1999 para PlayStation, trouxe aos jogadores uma experiência única em terror psicológico. O jogo foi aclamado pela crítica por sua história e principalmente por sua atmosfera, sombria e pesada, com cenas perturbadoras e temas polêmicos. Conquistando uma legião de fãs.

Sua sequência, Silent Hill 2 lançada para PlayStation 2 e Xbox em setembro de 2001, apresentou uma história ainda mais envolvente, gráficos aprimorados e uma trilha sonora memorável composta por Akira Yamaoka. Silent Hill 2 também introduziu um dos inimigos mais característicos da franquia: o Pyramid Head (cabeça de pirâmide). Que ainda hoje, é considerado um dos inimigos mais marcantes da história dos vídeo-games.
Em 2003, Silent Hill 3 deu continuidade ao enredo do primeiro jogo, e foi o último jogo memorável e aclamado da franquia. Os três primeiros episódios mantiveram sua essência, sem grandes modificações na mecânica de jogo, apenas evoluindo e aprimorando a experiência do jogador, e garantiram a Konami uma franquia sólida e aclamada no mundo dos jogos.
DECISÕES EQUIVOCADAS
Silent Hill 4: The Room, lançado em 2004, deu início a degradação da franquia. O jogo apresentou um enredo sem tanta profundidade, personagens pouco carismáticos e um gameplay que parece ter sido entregue as pressas, de forma inacabada. Mas, a principal mudança, foi que desta vez, você poderia lutar com os inimigos, usando como arma qualquer coisa que encontrasse pelo cenário… Essa “inovação” não foi bem recebida pelos fãs, pois tirou grande parte da tensão ao se deparar com um monstro, pois agora você poderia “espancá-lo” até a morte. Isso contribuiu muito para a pouca aceitação do público ao game. Apesar das mudanças, o jogo continuava apresentando cenas perturbadoras e mantinha a mesma qualidade da trilha sonora, composta pela aclamado compositor Akira Yamaoka, do qual ajudou a dar a identidade de Silent Hill desde a sua origem.
Após a baixa aceitação do público ao SH4, a Konami deu uma pausa de quatro anos até o lançamento de um novo jogo. Silent Hill Homecoming, foi lançado em setembro de 2008, e com ele mais uma grande “inovação” introduzida pela Konami. O game não era situado em Silent Hill, sendo um dos maiores erros de direção. A principal essência da série é a cidade macabra que intitula o jogo, atuando quase como um personagem principal. Além desta mudança, o game seguiu os caminhos do seu antecessor, aprimorando ainda mais o combate com os inimigos. O enredo foi ainda mais fraco que o de SH4, com personagens sem carisma e dublagem fraca.
Silent Hill Homecoming, aproveitou-se do sucesso da adaptação dos jogos para o cinema: Terror em Silent Hill lançado em 2006, para tentar restaurar os tempos de glória da franquia. Inclusive, as enfermeiras, inimigos tradicionais presentes nos três primeiros jogos, retornaram com o visual igual ao do filme. Alguns outros detalhes como a transição para o mundo obscuro e inspirações no cenário, tiveram o longa metragem como inspiração.
A GANÂNCIA EM DETRIMENTO DA QUALIDADE
Em março deste ano, Silent Hill 2 e 3 foram relançados para PlayStation 3 e Xbox 360. Silent Hill HD Collection oferecia a converssão dos jogos para alta definição, e suporte aos troféis. Junto com o jogo, uma avalanche de polêmicas se atrelaram a franquia. A primeira delas envolve propriedade de direitos intelectuais. Para evitar o pagamento de royaltes aos atores responsáveis pelas vozes dos 2 jogos, a Konami decidiu redubla-los com novos atores. Isso gerou uma grande insatisfação por parte dos fãs. Sensibilizados com a má repercussão da notícia, o ator responsável pela voz de James Sunderland Guy Cihi e de Mary Monica Taylor Horgan abriram mão de qualquer remuneração financeira para manter as vozes originais nos jogos, e não alterar as obras originais. Por fim, a versão final contava com as vozes originais e a nova dublagem, dando ao jogador a opção de escolha.
Um dia após o lançamento de Silent Hill HD Collection, surgiram vários vídeos de fãs no You Tube mostrando os diversos bugs e a má qualidade da conversão para alta definição, com texturas de baixa resolução, falta de sincronia no áudio músicas ausentes em momentos chaves do enredo e sérios defeitos gráficos. A repercussão da baixa qualidade da coletânea se alastrou pela internet rapidamente. E o principal questionamento dos fãs, se baseava em como a Konami conseguiu relançar um jogo que era considerado uma obra de arte com tantos defeitos não existentes nas obras originais.
Dias após o lançamento, a Konami veio a publico, dizer que perderam o código fonte dos jogos originais, e que a produção da coletânea foi feita com uma codificação beta dos mesmos, justificando a presença dos bugs não existentes nas versões anteriores do game. Algum tempo após seu lançamento, foram divulgados patches para a correção de bugs, porém nem todos os defeitos foram corrigidos, e permanecem assim até hoje.
Quase que simultaneamente ao desastre de SH HD Collection, foi lançado mais um episódio da franquia: Silent Hill Downpour, veio para provar que o brilhantismo e originalidade da série veio a seu fim. Primeiramente pelo fato da Konami ter retirado o compositor veterano da série: Akira Yamaoka, que seria substituído por Daniel Licht. E para um apelo mais comercial, a banda de rock Korn fez a música tema do jogo.
O enredo, apesar de inicialmente interessante é superficial e pouco trabalhado, apresentando um desfecho decepcionante e fraco. As expressões faciais são pobres, se comparadas com o padrão dos jogos atuais. O combate com inimigos foi aprimorado, podendo os inimigos inclusive bloquear os ataques desferidos pelo jogador, apesar dessa novidade soar como positiva, os fãs veteranos da franquia não encaram desta forma, pois a essência de medo ao se deparar com um inimigo presente nos jogos aclamados da franquia se perdeu totalmente.
UMA GRANDE PERDA
É realmente lastimável o que aconteceu com a franquia Silent Hill. e o que pode justificar isso, é o fato da indústria dos jogos estar seguindo os mesmos passos da indústria do cinema. Se compararmos, na década passada, haviam poucos filmes em cartaz no cinema, porém ainda podíamos encontrar uma grande quantidade de filmes de qualidade e realmente significantes. Hoje em dia, a cada semana temos o dobro senão o triplo de filmes em cartaz, porém poucos deles se destacam. Oque importa para a indústria é a bilheteria! e não a qualidade. Com a indústria de jogos, não é diferente. A rentabilidade dos games hoje em dia é tão grande quanto ao dos filmes, tornando um mercado “fácil” de se fazer dinheiro.
Esta analogia se aplica perfeitamente a série Silent Hill. A maior prova disso é o Silent Hill HD Collection, onde o jogo foi entregue inacabado aos jogadores visando apenas as vendas de um produto que se aproveitou dos fãs e de sua popularidade para gerar dinheiro fácil…



