Yakuza 3: Uma análise do jogo (feita pela Yakuza)

Esta é a história de Jake Adelstein, um reporter Judeu-americano que atuou 12 anos como reporter criminal no Japão e escreveu sobre isso em seu livro “Tokyo Vice” (lançado no Brasil como “Tóquio Proibida – Uma Viagem Perigosa pelo Submundo Japonês” pela editora Companhia das Letras). Após seu envolvimento com a Yakuza, ele foi capaz de convencer uns membros da máfia japonesa a fazer um experimento: que eles avaliassem o jogo Yakuza 3 que mostra a máfia para pessoas comuns.

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É tarde de terça-feira em Tóquio e eu estou sentado na área de repeção de uma agência de locação de imóveis jogando um game. A agência é atualmente uma empresa de fachada para a Yakuza. – á area de recepção atua como um pequeno escritório da máfia, e no mesmo andar existem salas de estar para jovens yakuza em treinamento. Estes jovens enram e saem do quarto de vez em quando para esvaziar os cinzeiros e nos oferecer chá. Uma câmera de segurança nos observa na entrada.

Nesta primavera, SEGA USA lançou Yakuza 3, a versão americana do popular jogo de ação Ryu Ga Gotoku 3. O jogador assume o papel de Kazuma Kiryu, um lendário ex-chefão da Yakuza. A história se basea sobre a nova vida de Kiryu como gerente de um orfanato e seu retorno a sua vida de mafioso quando um projeto de desenvolvimento imobiliário em Okinawa – ligado a politicos corruptos, outro grupo de yakuzas e a CIA – resulta em circunstâncias que forçam ele a lutar e proteger seu orfanato de ser demolido. Ele deve vingar os ataques contra os seus colegas mais nobres e reagrupar seu antigo grupo. No processo, ele visita cabarés, lê revistas vulgares em lojas de conveniência, e chuta os traseiros de todo bandido vagabundo e perdedor que cruza seu caminho. Ele também gasta a primeira parte do jogo tomando conta de crianças orfãs e cozinhando para elas. (Raramente um trabalho sentimental e violência foram tão bem integrados em um jogo de console!). Como Kiryu, o jogador deve explorar a fundo a ilha de Okinawa e o distrito da luz-vermelha de Tokyo, Kabuchiko (chamado Kamurocho no jogo).

Como um jogo para katagi’s (gíria yakuza para “civís” ou “não-yakuza”), é tremendamente divertido – mas o que a Yakuza pensa sobre o jogo? Como eles classificam? Eu consegui chamar 3 pessoas dos maiores grupos criminosos que não querem ser identificados pelos seus nomes verdadeiros (embora fanzines da Yakuza existam e o grupo não é uma parte escondida da sociedade Japonesa, devido a recentes ataques da polícia, os analisadores pediram para permanecerem anônimos.). Midoriyama é um antigo chefe de uma facção mediana. Shirokawa é um chefe de escalão alto de um grupo diferente ligado a Midoriyama através de um ritual de passagem de sake. Kuroishi conhece os dois mas também é de um outro grupo.

Eu pedi a ajuda de um adolescente para mostrar os yakuzas como jogar um videogame. Mesmo assim, é difícil. Das 3 pessoas, apenas Kuroishi conseguiu jogar até o fim. Os outros 2 membros não tem os dedos mindinhos – antigamente, quando um yakuza ou seus subordinados cometem um erro grave, eles cortam seus dedos em um ato de expiação – e isto parece afetar suas experiências no jogo.

Exceto pelos hamonjo – avisos de expulsão de um membro da Yakzua entre os grupos – colado na parede sobre a poltrona, a sala poderia ser uma sala de estar de um prédio da Sony. Existe uma pequena estante cheia de listas telefônicas, arquivos, mangás, revistas e DVD’s (entre os mangás eu reparo várias edições de Shizukanarudon, um mangá cômico sobre um trabalhador empregado em uma empresa de roupas íntimas femininas durante o dia e se torna em um chefe durão da Yakuza durante a noite.). Os únicos detalhes incomuns além disso é um poster de uma estrela pornô seminua colada na parede perto na porta com seu autógrafo.

Eu peço para que eles comparem o jogo com o que acontece em suas experiências reais como yakuza. Aqui estão os principais momentos:

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AMBIENTAÇÃO

M: Eu nunca visitei Okinawa, mas Kabuchiko já.

S: você quer dizer a antiga Kabuchiko. Governador Ishihara arruinou totalmente o local. É como uma cidade fantasma.

K: É como voltar no tempo. O cinema Koma está lá, os salons rosados, as lojas de café expreso, o centro de rebatidas de Shinjuku, os hotéis.

S: Você tem o homem salariado aqui, a garota escolar delinquente e seu papai, chineses e até mesmo aliciadores nigerianos. Que negócio é este com estes gaijins do ca***** nesta área afinal de contas? Costumava ser apenas japoneses, coreanos e chineses.

M: Não diga ‘Gaijin’. Diga Gaikokujin. É mais educado. Jake é um Gaijin.

S: Sim, eu esqueço de vez em quando. De qualquer maneira, que negócio e este com estes Gaikokujins do ca***** em Kabuchiko?

K: Internacionalização. O mundo é um lugar pequeno. Os nigerianos? Eles se casam com garotas japonesas, conseguem um visto permanente, os policias não conseguem dar cabo deles e eles são bons em guiar fregueses para os estabelecimentos. Os valentões japoneses que nós contratamos, eles desistem, eles não intimidam bêbados em trazer negócios para nosos estabelecimentos. Eles não tem coragem. Os nigerianos são gressivos. Eles podem ser bons aliciadores. A propósito, Adelstein, geramente quando nós falamos Gaijin estamos referindo a estrangeiros não-asiáticos como você e os nigerianos. Não os chineses e coreanos.

S: Sim. Coreanos são Chosenjin, não Gaijin.

M: Eu gosto desse negócio de você ganhar força comendo comida de verdade. Shio Ramen dá um monte de força – C.C. Lemon, não muita. Isso faz sentido.

S: A caixa de bento de carré a milanesa dá uma ‘mega força’. Mais do que ramen. Isto é preciso.

K: Se eles tivessem shabu (metafetamina) como item de power-up, seria realista. É um jogo sobre a Yakuza.

S: Eles têm sake!

M: Kiryu é um executivo, certo? Todos nós sabemos que caras no topo não bebem ou usam shabu.

S: Sim… Não mais.

M: Você pode fumar no jogo? Eu esqueço. Isto deveria ser um power-up.

S: Cigarros e shabu deveriam estar em todo jogo de yakuza.

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DESCRIÇÃO DA YAKUZA

Nota do autor: uma discussão acalorada começa sobre a possibilidade do jogo estar estereotipando a Yakuza, coisa que é resolvida quando Midoriyama aponta que os estereótipos sobre a Yakuza estão mais ou menos corretos, com a excessão de suas proezas em artes marciais.

M: Os caras associados a Yakuza tem minha aprovação pelo realismo. Belos ternos. Espertos. Financeriamente experientes. Tem obsessão pelo dinheiro. Sorrateiro e convenientes. Implacáveis.

S: Tem um monte de caras que eu sinto como se eu os conhecesse. O diálogo está certo também. Eles soam como yakuza.

K: Fanfarrões, valentões e confiantes. Eu concordo – eu sinto como se eu conhecesse os caras na tela.

M: Kiryu é o jeito como a Yakuza costumava ser. Nós mantinhamos as ruas limpas. Pessoas gostavam da gente. Nós não importunávamos cidadãos comuns. Nós respeitávamos nossos chefes. Agora, caras como ele existem apenas em video-games.

S: Eu não conheço nenhum ex-yakuza cuidando de um orfanato.

K: Existiu um alguns anos atrás. Um bom rapaz.

M: Tem certeza que isto não era apenas uma fachada?

K: É claro que era uma fachada mas ele fazia como se fosse algo legítimo. Você sabe.

VESTUÁRIO

Nota do autor: Kuroishi e Shirokawa estavam vestindo ternos verde-escuros, o primeiro da Armani e o último era um terno feito a mão em uma empresa de um distrito em Ginza. Midoriyama estava vestindo um moletom cinza e um suéter com uma gravura de Doraemon.

M: Que negócio é este com a camisa vermelho-escarlate de Kiryu? Ele deveria ser um antigo chefe do Inagawakai — e ele veste como um chinpira (yakuza de baixo escalão). Ele é um yakuza não um host.

S: Exceto pela camisa tosca do Kiryu, isto é realista. Os executivos da Yakuza estão todos vestindo bons ternos. Eles parecem homens de negócio. As garotas dos cabarés tem belos trajes. Os hosts se vestem como hosts. Alguém fez o dever de casa direitinho.

K: A policial, o traje dela é perfeito também. O terno preto chato com blazer branco. Isto é como uma mulher policial se veste.

M: Exceto pela camisa do Kiryu, bom. E sua tatuagem.

S: Não tem muita tatuagem.

K: Apenas nas costas dele. Talvez ele ficou sem dinheiro para terminá-la.

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CENAS DE LUTA

Nota do autor: Midoriyama fica muito empolgado durante as cenas de luta, ficando de pé na poltrona e balançando na direção da tela. Kuroishi nunca perde a compostura e continua a treinar combos até que ele consiga fazer direito. Shirokawa bufa uns xingamentos, mas quando ele vence ele grita “Yatta!”. Todos eles concordam que o combate é fantasioso, com algumas excessões.

S: Ninguém morre… Isto não é realista.

K: Kiryu briga o tempo todo. Ele dever ser um baita idiota. Nenhum yakuza anda por aí se metendo em brigas como estas. Especialmente um membro executivo. Ele pode acabar na cadeia, no hospital ou morto, talvez morto pela sua própria gente por ser um criador de problemas. Nesses dias, ele certamente seria chutado pra fora antes mesmo de ir para a cadeia. Caras como ele começam guerra entre gangues e ninugém quer isso agora. Quando um yakuza entra numa briga, é coisa séria.

M: Uma briga de verdade — é curta e brutal. Acaba em um minuto. Ninguém sai por aí trocando sopapos desta maneira. Geralmente o cara que soca primeiro ganha.

K: Eu gosto desse negócio de você pode pegar qualquer coisa como cinzeiros e placas e bater nos bandidos te incomodando. Ou arrebentar o rosto deles nas janelas dos carros. Isto é o que você realmente faria numa briga, pegar qualquer coisa e usar como arma.

S: Por que ele simplesmente não atira neles?

K: Isto não seria realista. Ninguém quer gastar uma bala em um valentão de rua, como aqueles que ficam abordando Kiryu.

M: Se eles quisessem manter as coisas realistas, ele sacaria a pistola, atiraria e erraria! Ou a pistola simplesmente não iria atirar. Isto seria realista. (Todos riem).

K: Atirar nas pessoas manda uma mensagem.

M: Assim como atirar em qualquer coisa. Atirar nas pessoas faz com que você seja mandado pra cadeia.

K: Isto é parte da descrição do trabalho.

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HISTÓRIA

M: O enredo sobre expansão de um resort em Okinawa e a CIA e os politicos envolvidos e tudo isso? Nossa. Este jogo é do ano passado, certo (2010)? Isto é o que está acontecendo em Okinawa agora.

K: Os políticos e a Yakuza sempre trabalharam juntas. O jogo acertou nesse respeito.

S: Yakuza e politicos, praticamente é a mesma coisa. Nós temos emblemas, nós temos facções, nõs temos nossos oyabuns (pais).

M: Não esqueça que existem alguns yakuza que são políticos.

K: E ainda são. A parte da CIA na história, eu não levo muito fé. Achei meio “voado” pra mim. O que você acha Adelstein? Você costumava trabalhar para eles certo?

A: Nunca trabalhei para a CIA. Pelo menos não diretamente.

M: O Mossad. Você é judeu.

K: Ele nunca irá admitir isso.

A: Eu admito. Sou judeu. Vocês super-estimam a CIA. A CIA não chega a ser tão competente como uma organização como a Yamaguchi-Gumi.

S: Bem. Eu acho que eles queriam fazer um jogo mais internacional. E vamos encarar os fatos. Nestes dias os americanos e a CIA fazem ótimos vilões.

K: E a Yakuza chuta os traseiros deles. Vai Japão!

CONCLUSÃO

Resumundo, o jogo foi bem recebido pelso 3 yakuzas que jogaram. Enquanto ele vilaniza o crime organizado em várias partes, no fim o jogo glorifica a Yakuza e dá razão para o protagonista. Adiconando o fato do jogo não fugir muito ao descrever a yakuza moderna. Ironicamente, as partes que Shirokawa mais gostou foram removidas na versão americana: os clubes de Mahjong, os salões de massagem, e os cabarés de hostess. Após uma explicação do que a SEGA removeu na versão americana, Shirokawa respondeu: Tenho pena das pessoas que compraram a versão americana. A SEGA Americana fede…

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