Home Sweet Home: uma crítica a Resident Evil Remake

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Desenvolvido pela Capcom em exclusivo para a GameCube ” devido ao acordo da companhia com a Nintendo, em 2001, no qual foi garantida a exclusividade da série no cubo da empresa nipónica “, Resident Evil (ou REmake) é o remake do jogo original da saga, editado pela primeira vez na PlayStation em 1996, tendo ainda direito a conversões para a Sega Saturn (1997) e para o PC (1997) e a uma versão especial intitulada Director”s Cut ( lançado também em 1997), para a PlayStation. Mais recentemente, em Abril de 2006, foi editado, para a Nintendo DS, Resident Evil: Deadly Silence, uma conversão fiel ao original PSX, com alguns pequenos extras que utilizam as capacidades da DS. Marcando o regresso à direção da série de Shinji Mikami ” a última vez que desempenhara o papel de Director foi em 1996, no título original, tendo actuado como Produtor desde então “, Remake, aqui analisado, foi lançado exclusivamente para a GameCube em 2002, tendo o seu lançamento europeu ocorrido em Setembro desse mesmo ano e também há uma versão adaptada pro Wii lançada excluvamente no Japão em 2008, que será lançada também no ocidente, mas ainda não há uma data prevista para o lançamento.

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1998. Depois de uma série de desaparecimentos na zona de Arclay Mountains, em Racoon City, as autoridades decidem enviar a equipa Bravo dos S.T.A.R.S. (Special Tactics and Rescue Service) investigar a área. Após perderem o contacto com a brigada, e temendo o pior, a equipe Alpha dos S.T.A.R.S. é enviada para encontrar a sua congénere e continuar a investigação. Ao descobrir o helicóptero da outra equipa destruído no meio de uma floresta (numa excelente FMV que nada tem a ver com a horrível introdução do original) o grupo é atacado e obrigado a refugiar-se numa velha mansão. Encurralados e sem saber onde estão os outros membros da Alpha, os sobrevivente decidem separar-se, descobrir o que se passa naquela casa, onde estão os seus companheiros, e procurar uma saída o mais rapidamente possível: é esta a premissa de REmake, não tão simplista como possa parecer a nível da jogabilidade: a mansão é enorme e esconde inúmeros segredos ” não é por acaso que o género tem o nome de Survival Horror. A história, o estilo, as personagens, são uma homenagem aos clássicos filmes de terror de série B ” e não se esconde a admiração por George Romero e a sua obra.

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Shinji Mikami, o criador da série Resident Evil, afirmou numa entrevista que REmake seria “70% diferente do original”, colocando as expectativas bem elevadas e alimentando o hype em torno do jogo. A sua frase é certeira e resume bem as diferenças entre o original de 1996 e este REmake de 2002. Com 6 anos de distância e com o poder dos 128 bits do cubo da Nintendo, REmake tem um novo estilo, marcando bem a diferença de uma simples geração de consolas para outra e como a indústria tem evoluído tão depressa em termos técnicos. O excelente e detalhado grafismo (ver imagem do original e do REmake) garantem um lugar de destaque entre o melhor que se fez na Geração 128 Bits. Os cenários pré-renderizados têm um aspecto foto-realista, dando vida à mansão e aumentando a imersão ” parece que estamos dentro de um filme de terror. As personagens também estão com um excelente aspecto ” diria que o grafismo de REmake não anda muito longe do de Resident Evil 4 (ou vice-versa) ” , e nota-se uma grande atenção ao pormenor por parte da Capcom. Alma de série B, grafismo de série A.

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Tal como no original, vamos poder escolher uma de duas personagens: Jill Valentine ou Chris Redfield. As diferenças entre ambos são notórias, pois a nossa escolha irá modificar a jogabilidade e a história. Jill é a melhor escolha para jogar pela primeira vez pois tem um inventário maior (8 slots, enquanto que Chris tem apenas 6), tem uma lockpick que lhe permite abrir imediatamente algumas portas que estão trancadas (enquanto que Chris tem de andar à procura de old keys, o que se torna irritante e aborrecido ” ainda para mais porque só temos 6 slots com ele) e Jill (que tem uma arma exclusiva: um lança-granadas) tem sempre a ajuda de Barry ” que tem um revólver ” em situações complicadas, enquanto que Chris tem Rebecca e terá de enfrentar alguns bosses (como Yawn ou Plant 42) sozinho. Em contrapartida, Chris pode sofrer mais danos do que Jill e é mais rápido. Em suma: mesmo que tenham jogado o original aconselho a escolherem a Jill em primeiro lugar; quando chegarem ao fim com Jill escolham agora Chris de forma a poderem ver as diferenças entre ambos, o que também acaba por ser uma excelente forma de prolongar a longevidade. As diferenças entre ambos podem ser subtis ao início, mas é só numa segunda visita à mansão que o jogador irá notar bem as diferenças ” e a forma como a equipa muda ligeiramente certos caminhos e tarefas, que farão toda a diferença para o público mais entusiasta, para os fãs.

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Outra das novidades introduzidas em REmake é o facto de agora termos armas de defesa, como punhais (que as duas personagens podem usar), um tazer (apenas a Jill) ou uma granada (apenas o Chris). Estes itens vão sendo encontrados ao longo do jogo e existem poucos, mas são muito úteis e podem salvar-nos a vida ” se formos agarrados por um zombie, por exemplo, a nossa personagem irá espetar-lhe um punhal, não perdendo energia e dando tempo para escapar ou para acabar com o inimigo. Para uma série conhecida pelo seu nível elevado de dificuldade ” e aqui ainda mais, embora com o sempre recomendável modo “easy” (confesso que foi assim que o passei) ” esta novidade constitui um aspecto que se poderia facilmente integrar em qualquer título da série que siga as pisadas do original.

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Para além de termos novas áreas no exterior e uma ” chamemos-lhe assim, embora seja obrigatória ” sub-quest (a história da família Trevor), a mansão foi remodelada, e não só a nível do grafismo: itens mudaram de sítio, bem como salas e inimigos, alguns puzzles foram mudados, ou estão noutra sala ou a sua solução foi mudada, ou simplesmente desapareceram, e a forma de matar os zombies mudou por completo: depois de “mortos”, os zombies vão voltar à vida passado algum tempo na forma de Crimson Heads ” duas vezes mais fortes. Só há duas formas de o evitar: primeira, rebentar com a cabeça dos zombies; segunda, assim que os matarmos devemos queimar imediatamente o seu corpo, evitando, desta forma, a mutação: o problema é que com a Jill o isqueiro e o kerosene (que há em quantidades limitadas) ocupam logo dois espaços do inventário e com o Chris, embora já só ocupe um espaço, o kerosene encontra-se normalmente em quartos trancados e para os abrir vamos precisar de old keys. Enfim, temos aqui uma verdadeira dor de cabeça que vem aumentar ainda mais a dificuldade e a táctica de progressão no jogo ” REmake é um enorme puzzle, em que cada aspecto, cada passo tem de ser reflectido, estudado e planeado, desde a munição, ao espaço no inventário, aos inimigos que matamos. Ã um jogo que requer concentração e inteligência, em que a personagem ” o jogador ” se vê perdida, desesperada, pelo labirinto de portas e corredores da mansão, captando a claustrofobia do hotel de “The Shining” de Stanley Kubrick. A sobrevivência é a génese do Survival Horror: se querem um “Survival Shooter” joguem Resident Evil 4 ” REmake é um Survival Horror old-school, fiel às raízes da série (apesar de eu ter gostado muito das inovações e do novo rumo que Resident Evil 4 deu a uma série ” praticamente ” estagnada).

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O som desempenha um papel importante em REmake, contribuindo para o ambiente de tensão constante que se pretende: quase não há música, há sempre um silêncio desconfortável que aumenta a tensão e a imersão no jogo; nunca sabemos quando irá acontecer alguma coisa, um inimigo pode surgir de repente ao virar da esquina, temos de ser muito cuidadosos, andar calmamente, investigar tudo ” o ritmo de jogo é deliciosamente lento. Note-se que os diálogos foram regravados com um novo grupo de actores e estão agora bem melhores ” os do original eram demasiado exagerados, demasiado maus para soarem a série B; aqui mantém-se o tom amador e os diálogos propositadamente ridículos (embora tenha desaparecido a impagável “the master of unlocking”), mas com outra credibilidade “, tendo também desaparecido aquelas horríveis sequências de Live Action.

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Mantêm-se as velhas críticas a Resident Evil neste REmake: a personagem controla-se “como um tanque” ou os controlos são confusos, ou não se controla a personagem com naturalidade, ou os ângulos de câmara atrapalham a acção, ou há poucas munições, ou os saves são limitados, ou as corridas de baú em baú são irritantes, ou o jogo é demasiado difícil… Algumas destas críticas têm fundamento. Outras não.

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A forma de controlar a personagem não me causa nenhuma confusão. Ã uma questão de hábito; seria confuso se os ângulos de câmara se mantivessem e controlássemos a personagem como em Eternal Darkness. Os ângulos são mesmo assim para criar uma permanente desconforto no jogador; não saber o que se encontra à nossa frente obriga a ter um cuidado especial ” Survival Horror e não Survival Shooter. Para um Survival Horror old-school como é REmake, que respeita e reconstrói um clássico, não poderíamos pedir uma mudança radical.

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Este jogo em particular não é excessivamente difícil graças ao modo “easy” (embora eu concorde que há outros jogos da saga que exageram na dificuldade), mesmo com as mudanças efectuadas, como os Crimson Heads ” basta jogar com a Jill no easy, que foi como eu passei o jogo da primeira vez: penso que nesta dificuldade REmake é acessível a qualquer jogador “, quando cheguei ao fim ainda me sobrava muita munição para quase todas as armas, menos para a magnum: temos de tentar conservar a munição ao máximo e fugir dos zombies sempre que possível, ou andar sempre equipados com o isqueiro e kerosene para os queimarmos assim que os matarmos, temos de conhecer muito bem a planta da mansão e conhecer todos os caminhos ” a palavra-chave é precaução. E os puzzles, que são o que nos faz progredir no jogo, até são bastante simples, na minha opinião.

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Nunca gostei dos baús. Concordo com um inventário limitado, mas 6 slots com o Chris é de facto muito pouco: só a pistola e a munição ocupam logo 2 slots, se trouxermos um item de cura restam 3, o que obriga a constantes corridas aos save rooms que atrofiam a jogabilidade ” este é um aspecto completamente desnecessário e o ponto que menos gosto de REmake e da série em geral. Um ambiente tenso não se constrói limitando demasiado o jogador; concordo que deva ser limitado, mas não a este ponto. Este é um aspecto que devia ter sido revisto.

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REmake surpreendeu-me pela positiva e foi graças a ele que recuperei o meu interesse pela série: não esperava um jogo tão diferente do original ” os 70% de Shinji Mikami “; adorei o ambiente ” que coloca o jogador sob uma constante pressão e desconforto, completamente imerso no jogo “; tecnicamente é muito bom, desde os cenários pré-renderizados aos modelos das personagens; tem uma boa longevidade, que incentiva o jogador a chegar ao fim, pelo menos, duas vezes ” com Chris e Jill; e todas as remodelações que a equipa da Capcom efectuou são bem-vindas e ajudam REmake a tornar-se numa experiência bastante diferente do original. Se gostam de Survival Horror old school, não procurem mais ” REmake é um remake de grande qualidade que dá a um verdadeiro clássico o tratamento 128 bits e que ajuda a destruir o preconceito de que a Nintendo apenas tem jogos infantis.

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