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Análise do jogo "The Legend of Zelda: Majora's Mask" para N64 escrito por E-Zine/MyGames

Escrito por E-Zine/MyGames, nota 97 de 100, enviado por Anônimo,
[img]hide:aHR0cDovL20ubXlnYW1lcy5wdC9NZWRpYUNlbnRlci9tZWRpYS9pbWFnZXMvZXppbmU0L3plbGRhLW1ham9yYXMtbWctYW5hLWltZzEuanBn[/img] "Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem." - Marcel Proust Desta feita, o conceito a reter na citação do escritor francês é "tempo", a palavra-chave na obra que aqui vai ser tratada. Nunca na série The Legend of Zelda o tempo teve tanta importância. Aqui realmente sentimos a pressão de termos um prazo limite para cumprir certas tarefas. E a grande particularidade deste jogo é que não é somente um "sentir". É também um "ver", pois a Lua, gigante esférica, olha para nós, cada vez mais perto e com ar ameaçador, a cada dia que passa. Dois anos após o lançamento do revolucionário The Legend of Zelda Ocarina of Time, eis que The Legend of Zelda Majora's Mask entre no ringue para elevar a fasquia. Mais uma vez. Poucos meses depois dos acontecimentos de The Legend of Zelda Ocarina of Time, Link parte com Epona em busca de um amigo cujo nome não é referenciado. Quando se encontram a atravessar as Lost Woods, duas fadas - Tatl e Tael - cúmplices de um Skull Kid mascarado avistam o nosso herói, cabisbaixo, cavalgando a sua elegante égua. Ao ser bruscamente interpelado pelos dois pequenos seres, Epona agita-se demasiado e deixa cair Link, ficando este inconsciente. Nisto aparece o irrequieto Skull Kid, o vilão do jogo. Pegando na ocarina dada por Zelda ao nosso herói, o antagonista tenta tocar o precioso instrumento, rindo-se do resultado. No meio de tudo isto, Link recupera os sentidos e tenta aproximar-se do vilão, a fim de o surpreender e imobilizar. Acontece que este, sendo astuto e ágil, não se deixa apanhar e, num ápice, monta na égua e tenta fugir a todo o custo. Após ter sido frustrada a tentativa de Link o derrubar da sua montada, o nosso herói segue Skull Kid e dá por si a cair num enorme fosso dentro de uma árvore. Uma vez encontrado o vilão, este informa-o que estava muito desagradado com a rebeldia da montada de Link e informa que se viu livre dela. Para rematar, lança um feitiço sobre Link, transformando-o num Deku Scrub - pequenas criaturas de Lost Woods - e foge com Tael, pensado que Tatl vinha imediatamente atrás. Algo que não se verificou, uma vez que a irmã de Tael ficou para trás ao importunar o protagonista. Uma vez separada do irmão, Tatl fica visivelmente irritada e, num golpe de puro oportunismo, enceta com Link um acordo de mútua ajuda a fim de encontrar os seus amigos. Posteriormente encontramo-nos com o Happy Mask Salesman - sim, o mesmo de The Legend of Zelda Ocarina of Time - que nos diz que foi o Skull Kid que lhe roubou a máscara que agora enverga. Máscara essa que possui grande poder e não deve cair nas mãos erradas. Na urgência de a recuperar, o vendedor diz que fará com que Link retorne à sua morfologia original se, num espaço de 3 dias - recuperar a máscara das mãos do vilão. Para isso, teremos que acordar gigantes, enfrentar a ameaça lunar, viajar no tempo e ainda "vestir a pele" de outras raças presentes no jogo. E assim é dado o "pontapé de saída" para uma das melhores histórias do universo Zelda. Hyrule é trocada por Termina, um mundo significativamente mais pequeno que o anterior, mas nem por isso menos variado. Zelda e Ganondorf estão também ausentes, deixando-nos completamente desligados do velho ambiente, o que permite que mergulhemos mais fundo no novo contexto. Este capítulo apresenta-nos um vilão bem mais sentimental e de personalidade complexa. As suas acções parecem sempre imprevisíveis, de tanta impetuosidade com que são levadas a cabo. A última revelação então, é genial! Nunca um vilão teve um carácter tão humano, ao ponto de, no fim, ficarmos com a sensação de que o tratámos sempre com uma certa injustiça. Um dilema muito bem-vindo, que só prova que a história é suficientemente coesa e bem estruturada ao ponto de o jogador mergulhar tão fundo. Bravo! Distando apenas 2 anos do original e partilhando o mesmo motor de jogo - já muito limitado devido ao parco espaço de armazenamento dos cartuchos da Nintendo 64 - os programadores ainda conseguiram inserir algumas novidades. Não são significativas, mas são sempre bem-vindas. O modelo de Link está agora ligeiramente mais detalhado e as animações mais fluidas, como é o caso dos saltos encadeados, por exemplo. Porém, parece-me ter sido apenas o protagonista a personagem que graficamente recebeu algumas melhorias, pois o resto parece estar ao mesmo nível do anterior título. Há ainda o caso de, por exemplo, quando encarnamos um Zora, as animações deste não serem as melhores. Há uma certa falta de agilidade nos movimentos e especialmente nos ataques, sendo estes também bastante crus e mecanizados (à excepção dos movimentos aquáticos bem conseguidos). Pouco limados, portanto. Felizmente, o mesmo não se verifica com a incarnação do Deku Scrub ou até mesmo do Goron. No que toca a efeitos visuais, estes estão sensivelmente ao nível daquilo que vimos em The Legend of Zelda Ocarina of Time. Nota-se que a paleta de cores é agora composta por cores mais escuras, por norma. Quando chega o fim da tarde, o jogo adquire um visual pesado e sombrio, dando a este capítulo um aspecto muito mais adulto que qualquer outro na série. A mestria deste acto é conseguir mudar sem romper com as raízes, ou seja, embora tenho um visual mais adulto, a essência da série está intacta. Nunca nos dá a sensação de se esforçar demasiado em mudar ou de ser um flop. Atentando no tamanho do mundo que exploramos, podemos dizer que o mundo de The Legend of Zelda Majora's Mask é mais pequeno que Hyrule. Por exemplo, em Clock Town - povoação no centro de Termina - é patente o esforço levado a cabo para manter aquela cidade toda em 3D, sem recorrer aos cenários pré-renderizados vistos no capítulo anterior. Mas para isso a cidade que já não é assim tão grande, teve que ser dividida em 4 partes - cada uma corresponde a um ponto cardeal - tornando a navegação dentro da mesma algo "sinuosa", pois não é uma experiência fluida. Ainda assim, esta solução apresenta-se melhor que aquela que anteriormente foi adoptada no capítulo anterior. Outro aspecto bem melhorado foi a maior autonomia dada aos NPC's. Nesta obra eles movimentam-se mais de um lado para e outro e têm rotinas organizadas, dando um aspecto muito mais orgânico ao cenário. Destaque ainda para a variedade enorme de inimigos. Não só no aspecto como também no seu tamanho e morfologia, nunca nos dando a sensação de estarmos a combater o mesmo modelo com diferentes skins. Contudo, no espaço de dois anos, a mudança foi mínima, pelo que, em proporção à sua data de lançamento, os gráficos não estão ao mesmo nível de The Legend of Zelda Ocarina of Time. A jogabilidade é o departamento que mais mudou nesta sequela. The Legend of Zelda Majora's Mask dá-nos a possibilidade de jogar não só como Link, mas também com mais 4 entidades completamente diferentes. Embora venha encher os puzzles de novas possibilidades de resolução - devido às capacidades intrínsecas a cada raça encarnada - acontece que o facto de termos que as usar tantas vezes e por tanto tempo faz com que o jogo não se centre tanto em Link como seria desejável, ficando este um pouco à margem ao longo da narrativa. Atenção, não me interpretem mal. Gosto bastante da nova dinâmica de transfiguração! No entanto, acredito que esta particularidade deveria ter sido usada com um pouco menos de frequência. Principalmente nos primeiros momentos do jogo. É extremamente frustrante termos Link com toda a sua agilidade e razoável equipamento quando, pouco tempo depois, nos vemos agarrados a uma criatura baixa, de andar desajeitado, incapaz de dar um salto digno desse nome. Sim, a Song of Healing resolve este problema a curto prazo, mas, ainda assim, creio haver uma forte crise de identidade no guião do jogo, algo que afecta muito a jogabilidade - não obrigatoriamente de uma forma francamente negativa que mereça penalização. Todavia, embora passemos muito tempo com estas personagens, a experiência não é assim tão penosa, graças aos controlos bem implementados e inteligência com que são aplicados nas mais variadas circunstâncias. Aqui há uma aprendizagem constante dos novos movimentos que certa raça nos permite efectuar e saber aplicá-los nas mais variadas situações, caso contrário, ficarão presos nas dungeons desde muito cedo. De resto, tudo se mantém muito semelhante a The Legend of Zelda Ocarina of Time. Muitos dos itens são os mesmos e também as suas aplicações. Epona mantém-se ágil e expedita, assim como se encontram também os novos inimigos, que oferecem uma dinâmica interessante aos combates. O sistema de lock-on, como não podia deixar de ser, também continua a marcar a sua presença neste jogo. Embora sendo-nos retirada logo no início do jogo - mas não por muito tempo - a Ocarina e as suas canções estão de regresso, mas em menor número, não sendo uma coisa obrigatoriamente má. Desde voltar atrás no tempo, abrandar ou acelerar o tempo, ao clássico chamamento de Epona, o instrumento continua indispensável ao nosso progresso. E ainda bem, pois foi das melhores adições que Miyamoto fez na série. Em termos sonoros, para The Legend of Zelda Majora's Mask, Koji Kondo chama Toru Minegishi - o compositor do jingle inicial da Gamecube e de toda a banda sonora de The Legend of Zelda Twilight Princess - para o ajudar a gerir os destinos deste departamento, uma vez que não mais iria ele gerir, sozinho, a direcção sonora de um jogo Zelda desde o The Legend of Zelda Ocarina of Time. Embora se note uma ligeira diferença, esta é para melhor, pois condiz na perfeição com o ambiente sinistro e obscuro que nos aparece no ecrã. Músicas pesadas, com notas graves e compassadas são o veículo que os compositores encontraram para nos levar à completa imersão nos acontecimentos. Outra das estratégias adoptadas foi a de acelerar o ritmo musical à medida que a Lua se vai aproximando de Termina, dando-nos uma sensação de pânico ao ver tudo prestes a desabar à nossa frente. Os efeitos sonoros estão como seria de esperar, ao nível da anterior obra da série. As novas raças oferecem novas acções e, com elas, novos sons magistralmente compostos. Apenas retirava os passinhos irritantes do Deku Scrub, pois conseguem ser incómodos, por vezes. No entanto, para compensar isso, Tatl não é - nem de longe nem de perto - tão intrusiva como Navi. Agora apenas se ouve uma leve campainha cada vez que temos que interagir com ela. Sim, o "Hey, listen!" morreu! Como não podia deixar de ser, The Legendo f Zelda Majora's Mask é um jogo longo. Apesar de possuir um mundo fisicamente inferior a Hyrule e dono de menos dungeons, a quantidade de tarefas para levar a cabo é astronómica. As máscaras são um bom exemplo disso. Existem 24 e a maior parte delas apenas acessível através de side-quests. E uma vez todas juntas, serão presenteados com uma ajuda preciosa para combater os mais variados bosses. Portanto, em Termina terão muito que vasculhar até darem por completo o jogo. Talvez até mais que tinham a fazer no reino da princesa Zelda. The Legend of Zelda Majora's Mask está actualmente à venda na Virtual Console da Wii por 1000 Wii Points (€10), o que, para um jogo desta índole e tendo em conta que passou ao lado de muita gente, é um preço mais que convidativo para experimentar aquele que muitos defendem ser a melhor incursão da série. Isso é discutível... No entanto, ninguém poderá negar que é a mais variada. A série Zelda cresceu, inegavelmente. Está mais crua, mais sombria, mais variada. The Legend of Zelda Majora's Mask veio mostrar que Ocarina of Time não foi um acaso e apresenta-se como o estado evolutivo normal do capítulo anterior. Mecânica apurada, motor de jogo totalmente espremido a fim de providenciar o máximo potencial e uma banda sonora intrincada e íntima com o contexto virtual como nunca se houvera visto na série. Pelo menos com o mesmo calibre. Dono de um enredo de luxo, The Legend of Zelda Majora's Mask dá-nos uma série de situações onde ficamos sem saber muito bem o que pensar acerca dos actos do Skull Kid. O facto de termos que ir às 4 dungeons acordar os gigantes sagrados para, no fim, vê-los a fazer o seu trabalho, é algo de épico, pois raramente nos sentimos tão bem com a sensação de "missão cumprida", pois o extermínio de Termina sempre foi um cenário que, além de altamente provável, estava sempre muito presente, pressionando-nos até a nós, jogadores. O facto de terem cruzado vários aspectos com o jogo anterior é também de louvar - sim, o Skull Kid aparece logo em The Legend of Zelda Ocarina of Time, nas Lost Woods. Basta olharem para uma das imagens que coloquei na análise ao capítulo anterior. Desde o vilão, ao Happy Mask Salesman, aos Goron, Zora, ao Kaepora Gaebora e até às Gold Skulltulas, está lá muita coisa que nos liga àquilo que fizemos dois anos antes na mesma consola, dando à aventura um toque familiar muito agradável. Por tudo isto, The Legend of Zelda Majora's Mask é uma compra obrigatória para quem possuir uma Nintendo 64 ou uma Wii, pois é um jogo ímpar no que ao seu conteúdo e experiência diz respeito. Numa indústria tão impregnada de cópias, de cópias, de cópias, de conceitos já gastos, uma obra desta envergadura irá fazer-vos adorá-la e questionar porque raio não a adquiriram mais cedo. Mesmo sob o olhar omnipresente da Lua, a imagem de marca do jogo.
Fonte: E-Zine/MyGames
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