Seth Hall é mais um protagonista das histórias de "quase". Ele não perdeu um avião ou passou perto na Mega Sena, mas quase desistiu de trabalhar com games após projetos que não deram certo. A sorte é que ele foi resgatado a tempo de entrar para a equipe da Visceral Games depois de ter passado por LucasArts e pela própria EA. Foi na Visceral que ele fez um brilhante trabalho nos efeitos especiais de Dead Space 2, jogo de terror que você tem a obrigação moral de jogar antes de ter filhos. (E se você sofre com "spoilers" ou revelações sobre trechos do que ainda não jogou, proceda com cuidado pelo texto a seguir).
De passagem pelo Brasil, Seth foi um dos palestrantes internacionais do The Union, evento de computação gráfica que aconteceu nesta terça-feira (15) em São Paulo. Combinando linguagem técnica, exemplos práticos e vídeos comparativos, ele mostrou como os efeitos visuais deram vida a Dead Space 2. Ou, mais precisamente, deram uma atmosfera perfeita para os cenários mortais e a história do jogo de terror de Isaac Clarke.
Você pensa "efeitos especiais, grande coisa". E então você vê a apresentação de Seth e pensa "preciso jogar Dead Space 2 novamente". Em cerca de uma hora, o artista mostrou como os efeitos especiais fazem a diferença.
Seth mostrou uma cena em que Isaac vai até uma plataforma para ser lançado ao espaço. Ele é disparado e passa a voar entre destroços, como se fosse uma versão atualizada de Chapolin e os meteoritos. A seguir, o artista mostra o mesmo trecho, mas com acréscimo de efeitos especiais, a versão final que você viu (ou verá) em casa. O que parecia um jogo de PlayStation 2, raso, sem detalhes e com um acabamento humilde, transforma-se em uma batalha sufocante pela sobrevivência no espaço. Culpa das luzes, faíscas, fumaças, fogos e dezenas de outros detalhes visuais que são competência de Seth e sua equipe. "As texturas não fazem todo o trabalho", Seth disse em entrevista depois da apresentação. "Você precisa de partículas".
FURANDO O OLHO DE ISAAC
Seth pontuou sua apresentação com momentos-chave de Dead Space 2, incluindo a infernal sequência final. Mas, enfim, só é "spoiler" quando você avisa que é "spoiler", então vamos torcer para que as centenas de estudantes e profissionais que acompanhavam a palestra não tenham sido surpreendidos. Seth explicou detalhes técnicos, falou sobre renderização em tempo real e mostrou como os efeitos especiais podem ter importância nas "cutscenes", sejam elas interativas ou não. O auge da tensão foi quando o artista detalhou a famosa cena da "broca no olho" do herói Isaac.
Para não estragar a história, vamos simplificar: digamos que você precisa, em certo momento de Dead Space 2, interagir cirurgicamente com o olho direito de Isaac na famigerada "eye poke machine". Algo que pode lembrar o trecho do filme Laranja Mecânica, mas logo assume um clima mais pesado. Essa sequência exige movimentos precisos na alavanca do controle, sob a pena de morte rápida e dolorosa se você falhar. E aqui os efeitos especiais conduzem a história: laser nos olhos, pupila dilatando, reflexos, luzes, cores, barulho de broca, batimentos cardíacos crescendo.
Essa sequência, diz Seth, poderia muito bem ser uma "cutscene" em que o jogador só assiste. A decisão da equipe, porém, foi passar o controle para o jogador e fazer com que ele sentisse uma tensão muito maior. Essa sequência também "poderia ter sido um desastre se não fosse bem feita", lembra o artista.
Tudo começou com pesquisas por imagens no Google, um processo comum não só para os internautas, mas também para ninjas em computação gráfica que precisam de imagens de referência. Foi lá que eles aprenderam um pouco sobre equipamentos e o processo de uma intervenção tão delicada. As experiências extrapolaram para o ambiente de trabalho.
"Começamos a pegar lanternas e colocar no olho das pessoas no estúdio para testar as diferentes reações", disse Seth, entusiasmado com o caráter científico da descoberta. Eles projetavam a luz da lanterna em um dos olhos das "cobaias" e analisavam o resultado. Na maioria dos casos, as pupilas dos dois olhos reagiam " mas, em alguns casos, apenas a pupila atingida reagia. Ou seja: já temos um mistério a desvendar.
A pupila do herói Isaac, porém, reage de forma convincente, embora não saibamos se é um processo realista ou não (mas já compramos um laser e estamos aceitando a participação de voluntários). Quanto mais nervoso Isaac fica, mais seus olhos se mexem e maior é a chance de fracasso. O erro resulta em vísceras explodindo, mas o acerto não é menos aterrorizante. Agulhas, sangue e a sensação de que você também está preso na mesa, indefeso. Ã uma das cenas mais fortes, angustiantes e memoráveis de Dead Space 2.
Seth diz que essa cena do olho foi o que ele mais gostou de fazer em Dead Space 2. "Porque não era simplesmente um monte de explosões e essa loucura, foi algo bastante sutil. Uma ideia bastante interessante".
Antes de Dead Space 2, Seth participou de Def Jam: Icon e Dante"s Inferno. Ele não revela em quais projetos está trabalhando atualmente, e não fala nada sobre um aguardado terceiro capítulo de Dead Space. Pergunto, sob o ponto de vista técnico, que tipo de jogo ele gostaria de fazer um dia para exercitar novos tipos de efeitos especiais, e ele responde: "Eu não acharia ruim fazer algo com um pouco mais de líquido, trabalhar com essa sensação de fluidos".