Leia entrevista de Pablo Miyazawa com Anderson Gracias da Sony Brasil
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Vamos direto ao assunto: a Entrevista da Semana de hoje é com Anderson Gracias, o general manager da Divisão PlayStation da Sony Brasil. Conforme você pode imaginar, Anderson é o homem de frente e comanda a grande missão da empresa no Brasil, que é superar a pirataria e o contrabando e instituir as operações oficiais da fabricante do PlayStation em nosso território.
Será que a missão já está ganha? Quais são as cartas escondidas nas mangas? O que o futuro reserva para o Brasil dos games no que depender da Sony? E, mais do que tudo isso, o que realmente importa: e o PlayStation 3 brasileiro, vem ou não vem?
A conversa com Anderson rendeu muito, tanto que nem consegui transcrever tudo para publicar aqui no Gamer.br. Então, fica assim: hoje eu publico metade do papo. Amanhã, por volta da hora do almoço, prometo que você terá uma grande surpresa que irá complementar as lacunas dessa entrevista (por essa você não esperava, hein?). E até o final da semana, publico o restante do papo, que é dos mais interessantes para quem realmente se importa com o futuro do mercado de games no Brasil.
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Gamer.br: Quais têm sido as dificuldades enfrentadas pela Sony Brasil no que diz respeito aos videogames?
Anderson Gracias: Há pouco tempo, a Sony Brasil iniciou oficialmente a divisão PlayStation oficialmente " foi em outubro do ano passado. Para nós, PlayStation é importante, tanto que abrimos uma divisão exclusiva. Não é só uma categoria dentro de todo um grande guarda-chuva. O potencial aqui é enorme. Obviamente, estamos passando por uma série de dificuldades que envolvem a tributação e como combater ou inibir esse mercado tão cinza e violento que existe aí fora. No caso do PlayStation 2 estamos falando de pirataria. E no Playstation 3, estamos falando de contrabando e importação "paralela". Ã importante dividir as duas coisas: a importação paralela é feita pelo importador independente, que não necessariamente está fazendo algo ilegal. E o contrabando é a chamada "reclassificação fiscal", subfaturamento. E isso tudo afeta diretamente não só a gente, mas os grandes players do mercado. Tenho certeza de que a Microsoft está passando por isso também.
A Microsoft, aliás, há mais tempo que vocês.
AG: Há mais tempo que a gente. O Guilherme [Camargo, gerente da Microsoft Brasil] sofre há muito tempo com isso. Então, a gente está olhando mesmo para o Brasil. Primeiro: a base instalada atualmente é enorme. Se contarmos hardware, software e acessórios, há um potencial diferente em cada plataforma. No PlayStation 2, existe um potencial para legitimar um pouco desse mercado. A base instalada é absurda. São dados estimados, mas estimados por tanta gente que devem ser bem próximos da realidade. Mas falamos de quase 5 milhões de PS2 no Brasil. E se você legitimar uma parte dessa base instalada, já é um grande negócio. Então, o ponto é: o quanto você consegue legitimar? 2, 5, 10, 20%? Aí está o tamanho do seu negócio.
E como você legitima quem já possui o videogame em casa?
AG: Este é um ponto. Acho que há formas de se conseguir isso. Tem uma questão educacional, e ela é muito difícil, demorada e custosa. Convencer o consumidor de que ele precisa parar de comprar um jogo a R$ 5 e comprar o mesmo jogo a R$ 50??? Até você mostrar a ele os benefícios, e educá-lo de que aquilo faz bem para o país dele e para as gerações futuras, ou seja, para os filhos dele " isso é muito complicado. Então a gente tem que identificar a pequena porção de clientes que está disposta a ouvir essa história e que tem um nível de consciência compatível com o que a gente pretende fazer. Mas é muito difícil.
Você diria que no máximo 20% da base instalada estaria disposta a mudar de hábitos?
AG: Já seria um grande negócio. A gente pode desenhar planos com percentuais que aumentam gradativamente. Em contrapartida, vem a questão do ciclo de vida do PlayStation 2. Muitos falam que o console teria mais dois ou três anos de vida. Pode ser que isso seja verdade fora do Brasil. Mas se a gente olhar para a classe social C, tão crescente no Brasil, será que o PS2 não pode ser uma grande plataforma de entretenimento para a família? Ã um produto que você pode jogar online, é o seu DVD player e o seu videogame, com uma infinidade de jogos disponíveis. Esse trabalho teria foco direto no consumidor.
Além disso, há questões com o governo, com o comércio informal??? Ã impressionante o tamanho desse mercado que envolve pirataria e contrabando " não só um nem só o outro, mas os dois. E em jogos, acho que isso está muito pesado. Se a gente conseguisse, junto às autoridades, provar que existe uma possibilidade de arrecadação grande de impostos, muito maior do que é feita hoje, apenas reclassificando o produto, e não reduzindo impostos??? A questão da "redução" talvez não seja o approach mais correto, mas sim uma "reclassificação". O videogame, você sabe, vem para o Brasil como se fosse jogo de azar. Enfim, não faz sentido. Não dá para um console de videogame voltado para o entretenimento familiar ser considerado semelhante a uma máquina de vídeo pôquer, com esses 50% de IPI [Impostos sobre Produtos Industrializados]. Não tem essa necessidade. E isso fomenta o mercado paralelo, a importação paralela, o contrabando e a pirataria. A gente tem agora um trabalho educacional, no consumidor, e também com o governo.
Voltando às ações que podemos tomar: por exemplo, me deixe bloquear seu console novamente, e com isso eu lhe proporciono descontos gradativos em jogos. Ou eu volto a te dar uma garantia do console que você trouxe de fora??? Ainda estamos pensando em tudo o que for possível. Talvez legitimar seja o mais difícil a ser feito, então temos que pensar em todas as alternativas para isso.
E com os outros consoles da Sony, qual é a atual situação?
AG: O PSP vai acontecer. A Sony está trabalhando nas certificações agora, tem Anatel [Agência Nacional de Telecomunicações] rolando. Passando por essa fase de certificação, ele estará pronto para ser viabilizado no país. A gente não vai fazer absolutamente que não esteja em conformidade com a legislação brasileira. A Anatel e o Inmetro [Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial] para nós, são grandes parceiros. E a gente também espera a contrapartida: que a Anatel e o Inmetro nos ajudem, olhando para o restante do mercado e o que está sendo colocado na casa do consumidor e que talvez não esteja em conformidade com a legislação. Ã uma obrigação da indústria colocar no mercado um console que resista a um pico de energia coerente com a nossa infraestrutura.
De maneira prática, falando da Anatel e do Inmetro, quanto tempo leva para um aparelho aprovado por esses órgãos ser, enfim, comercializado?
AG: Não é demorado. Na verdade, o Inmetro cuida da regulamentação do cabo. Já a Anatel também não é um processo longo. Quando você dá entrada no produto, também é preciso verificar se está tudo pronto para ele ser lançado??? Uma coisa é a homologação da Anatel, outra coisa é a empresa estar pronta para vendê-lo. Em 60 dias, você coloca e tira um produto testado e aprovado ou não pela Anatel. Eles testam não só o wi-fi, mas tem também um teste de kV, que é o de pico de energia. A gente não teve dificuldades. O que tivemos sim, em primeiro momento, foi acertar o produto para ele resistir à regulamentação brasileira. Mas por parte desses órgãos, não. Foi tudo feito de maneira transparente e rápida.
Houve algum tipo de modificação no PlayStation 3 para ele estar apto a passar pelo crivo da Anatel?
AG: Sim. Tecnicamente não posso detalhar, mas houve adaptações, principalmente na questão da energia. Porque o teste feito no Brasil é muito mais exigente. A Anatel é exigente nessa questão " se não me engano, ela aplica 2 kVs de pico de energia e o produto tem que resistir " ele não pode colocar em risco a sua infraestrutura domiciliar. Então, tivemos que fazer mudanças.
E tanto o PSP quanto o PS3 já passaram por todas essas aprovações?
AG: O PSP está nesse processo. O Playstation 3 já foi.
Falou-se muito que essa aprovação da Anatel estaria atrasando o lançamento do PS3 no Brasil. Agora o que vocês estão fazendo? Aparando as arestas?
AG: Ã importante deixar claro a verdade: não é a Anatel. Foi um processo necessário, mas não foi isso que talvez tenha atrasado o lançamento. Se é que a gente pode chamar de atraso, porque são varias etapas para cumprir até que consigamos lançar o produto. E uma das principais etapas é o varejo, fazer com que o varejo esteja preparado para receber e vender o produto oficial da Sony Brasil.
Este é um assunto bem delicado. Existe hoje uma base instalada nos depósitos do varejo, de produtos que foram importados. A gente está atuando em parceria com os varejistas, para que eles possam vender o estoque que têm e começar logo a trabalhar com o produto oficial da Sony Brasil. Muitos dos varejistas não sabem que aquele produto que está no estoque não está em conformidade com a regulamentação local. Acho até que há varejistas que sabem, mas muitos não sabem: ele comprou o produto e possui a documentação daquele produto que a Sony Brasil não oferecia antes a ele. O ponto é: quem vendeu a ele que talvez não tenha feito o trabalho adequado. Porque quem vendeu deveria ser o responsável pelo produto.
Estamos passando agora por essa etapa, de preparar o varejo. E isso inclui preparar a loja. Como é que está o PlayStation no mercado brasileiro? Você vai a uma loja grande e encontrará o videogame dentro de um balcão, trancado e com um vidro na frente. Absolutamente nada de "hands-on", nenhum trabalho adequado para o consumidor gamer??? E o que seria isso? A possibilidade de testar o jogo dentro da loja. Estamos fazendo investimento em displays, espaços PlayStation com o produto ligado a um LCD, ou home theater, com uma variedade de jogos e acessórios. O consumidor entra e pode experimentar, se conectar e tudo o mais. Ã justo mostrar tudo isso dentro da loja. O consumidor brasileiro merece esse respeito.
Você tocou em um ponto interessante sobre o varejista ter que queimar seu estoque. Existe uma possibilidade de a Sony Brasil ajudá-lo nesse processo, seja substituindo esses consoles "não-oficiais" pelos chamados "oficiais"?
AG: Esse são produtos "não conforme", né? Eu não consigo colocar aquele produto em conformidade. Não existe uma obrigatoriedade por parte do varejista em se comprometer somente com os nossos produtos. A Sony Brasil não tem esse poder. Mas é aí que vamos ver quem são e quem não são os parceiros. O que está claro para cada um dos varejistas é que aquele produto não está conforme. A partir do momento que você só tem produtos "não conformes", há uma certa realidade. Quando começa a existir o produto "conforme" e o "não conforme", o consumidor vai saber que existe um que está adequado e outro que não está. E os órgãos públicos, que deveriam trabalhar esse tipo de problema, também saberão. Porque até hoje, todos os PlayStation que estão por aí são iguais. A partir do momento em que eu colocar à venda o primeiro PS3 em conformidade com a regulamentação brasileira, você passa a ter dois tipos de produtos. E é uma opção do varejo, trabalhar com o produto correto ou com o produto errado. Os riscos são dele. Existe o risco de fiscalização? Eu acredito que sim. Ela nunca vai ser da Sony " a empresa não tem esse papel de fiscalizar e apreender. Mas existem outros órgãos que possuem essa responsabilidade. E o varejo sabe disso, e quem não sabe ficará sabendo. Será uma opção dele trabalhar corretamente ou como se faz hoje em dia.
Vocês sabem que o consumidor também terá uma opção de escolher entre esses dois produtos, já que é bem possível que exista uma discrepância nos preços. O varejista consegue vender esse console que trouxe por debaixo dos panos por um preço mais em conta, porque ele pulou diversas taxações. E como se combate esse tipo de coisa, já que o Playstation 3 oficial da Sony Brasil certamente será bem mais caro?
AG: Esse é um dos grandes desafios. Vamos fazer de maneira extremamente transparente. A gente vai mostrar porque o nosso produto custa mais caro. Claro que eu não tenho o preço final ainda para lhe dizer, mas estamos brigando para que ele seja o mais baixo possível. E é aquela questão do fair play: como é que você enfrenta um produto que foi subfaturato e reclassificado, ou até mesmo um console "refurbished" [literalmente, "recauchutado"]?
Vocês, como Sony, não podem fazer muito nesse sentido?
AG: Não. Ã uma questão legal, governamental, com as alfândegas. Ã o tipo de trabalho que eu até entendo que existam ações sendo feitas em diferentes frentes, para que o contrabando e a importação paralela sejam evitados ou diminuídos. Mas isso não parte só da gente, mas de todo um ecossistema. Nós entendemos que o varejo possui responsabilidade social, um dever para com a sua comunidade, e esperamos que eles entendam que o correto é fazer assim. E aí é que eles serão grandes parceiros nossos. Muitos varejistas já estão no jogo com a gente desde o primeiro momento. Eu e você sabemos como funciona imposto, e o porquê de eles existirem. Se eles são altos ou não, essa é outra discussão. Mas o porquê da existência desse imposto e para onde o dinheiro vai, todo mundo sabe. Não pagar imposto, todos sabem que é ilegal. Então se você quer participar desse esquema, é uma opção sua. A gente não vai participar. E não vamos permitir que quem participe esteja do nosso lado. Vai ser uma seleção natural.
Falemos finalmente sobre o Playstation 3. Imagino que exista muita coisa que você não pode falar agora, mas queria que você detalhasse tudo o que for possível.
AG: Com relação à data, eu posso lhe dizer o seguinte: eu mesmo havia dito "primeiro semestre", e a gente não conseguiu " o primeiro semestre já acabou. Mas ele está chegando. Em questão de semanas. Vai ser [um lançamento] maciço? Não, não vai. E por que não vai ser? Nós vamos gradativamente ganhando corpo. E porque existe toda essa gordura pra ser queimada, de produtos paralelos.
Resumindo, o produto brasileiro não terá montagem por aqui: ele vem lacrado, já preparado com essa homologação, ou seja, sai de sua origem já com o selo da Anatel. O cabo a gente fabrica por aqui. E ele vem com a embalagem e manual em português e o cartão de garantia da Sony Brasil. A única mudança que fazemos na localização é a troca do cabo original pelo cabo homologado pelo Inmetro. E o produto brasileiro também tem um selo holográfico, para realmente diferenciar o produto daqui do não-oficial.
A embalagem e o manual serão impressos aqui?
AG: Depende do lote. Em alguns casos, imprimimos o manual aqui. Em outros, isso é feito fora. Até nisso temos alguns cuidados: a Sony Brasil só trabalha com "green packers", então qualquer coisa que eu imprimir tem que ser livre de cádmio etc. Tudo isso significa que estamos olhando para o nosso país e pensando no que é melhor para o consumidor. Mas isso nem todos fazem. Já vi produtos cujo manual de instrução é uma xerox. Isso é desrespeito ao consumidor. E o consumidor pode dizer: "Eu prefiro isso tudo para pagar mais barato". Ã uma opção do consumidor? Ã. Tudo o que é feito para deixar o produto em conforme tem custos. E por isso a gente vai gradativamente tentar diminuir esse "gap" entre o preço que existe hoje no mercado e o preço com que a gente vai lançar.
As fabricantes que já estão no Brasil costumam culpar os impostos como os culpados pelos preços altos dos consoles no Brasil. Quando vocês divulgarem o preço do Playstation 3, certamente o público irá reclamar. O vilão é esse mesmo?
AG: O grande vilão é a carga tributária.
E sobre essas iniciativas que tentam reduzir a carga tributária " a Jogo Justo por exemplo: se derem resultados, o consumidor iria perceber a diferença na hora?
AG: Imediatamente. Se o imposto for revisto, ou se o videogame for reclassificado para outra categoria, certamente sim. Porque falar sobre "redução" em ano de eleição é pedir para encerrar qualquer reunião [risos]. Falar em reclassificação é o approach mais adequado. Meu produto não é um jogo de azar, é um produto de entretenimento familiar. Essa é a diferença. Repetindo: o consumidor perceberia imediatamente. Obviamente que todas as outras coisas que mencionei acarretam em custos, mas a gente consegue absorver muito disso. Agora, o grande vilão é o imposto, sem dúvida alguma.
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