As declarações de Shinji Mikami sobre Resident Evil 6 causaram um efeito interessante na comunidade de fãs. Encarada como recalque, a fala do criador da franquia, que comparou o sexto game da série a um filme de Hollywood, gerou uma pequena corrente de ódio ao designer japonês, que saiu da Capcom em 2005 e hoje trabalha para a Tango Gameworks, uma empresa-irmã da cultuada Bethesda.
O efeito é considerado interessante pois, há bem pouco tempo, o retorno de Shinji Mikami era apontado por alguns como a única maneira de trazer a série de volta aos trilhos. Não estou dizendo que essas pessoas todas desapareceram ou deixaram de acreditar nisso, mas é curioso notar que, no momento em que o criador criticou a obra que deixou para trás, ele se tornou um vilão e não mais uma esperança de salvação.
Mas, e se todos ainda amassem Shinji Mikami? E se Resident Evil 4 nunca tivesse saído para o PlayStation 2 e o designer célebre ainda fizesse parte do time de desenvolvimento da Capcom? Antes de seguir por esse caminho, é preciso firmar algumas bases e relembrar alguns acontecimentos do passado.
(Criando a curva)
Em 1999, a Capcom lançava Resident Evil 3, o último título da franquia principal a desembarcar no PlayStation. Apesar de contar com ports lançados para PC e outros consoles, a série sempre foi vista como uma exclusiva "velada" da Sony, com jogos saindo primeiro para os consoles da marca.
Uma nova geração de consoles já estava chegando e, no caminho para se tornar uma das principais marcas do entretenimento eletrônico, Resident Evil também precisava seguir em frente. Foi aí que a Capcom firmou uma parceria com a Nextech para desenvolver RE CODE: Veronica, que não esperaria o lançamento do PlayStation 2 e chegaria em 2000 ao SEGA Dreamcast.
A marca de 1,1 milhão de unidades vendidas do título, ao lado do sucesso de crítica, estava dentro do esperado, mas a Capcom queria mais. O relançamento, que chegou ao mercado um ano depois, adicionou cenas inéditas e ultrapassou as vendas da versão original. Mas não em grande escala. O PS2, esperança de sucesso da empresa, praticamente se equiparou ao Dreamcast, vendendo apenas 300 mil unidades a mais.
Para Shinji Mikami e a Capcom, esse número que não ultrapassou as expectativas tanto assim significou uma queda no interesse dos fãs pelo estilo antigo da jogabilidade. Estávamos cada vez mais em um mundo tridimensional e, enquanto isso, Resident Evil permanecia em um universo de câmeras travadas e cenários pré-renderizados.
Nesse momento, haviam duas preocupações na cabeça do criador da série. A primeira delas era adequar a história aos novos rumos que ela havia seguido com o Wesker's Report e CODE: Veronica. Foi daí que veio o remake do primeiro game da série (RE Remake) e Resident Evil Zero. A segunda era repaginar completamente a saga para um novo público, que começava a gostar de jogos mais movimentados e estava deixando a velha morosidade de lado.
Isso aconteceu, porém, quando Resident Evil 4 já estava em desenvolvimento. A primeira versão Beta ? que tratava de alucinações e era ainda mais focada no horror ? foi abandonada e em seu lugar, Shinji Mikami foi obrigado a criar um estilo que, até hoje, é copiado e considerado uma das melhores mecânicas para jogos de ação da história.
A câmera fixa foi substituída por uma que se colocava sobre o ombro direito do personagem, que era seguido de trás durante todo o tempo. A mira em cruz ainda não existia na tela e toda a regulagem dos disparos era feita por um laser. Os inimigos se tornaram mais rápidos e estratégicos, atacando em maior quantidade e por todos os lados. A visibilidade do cenário, apesar de maior, não permitia que o jogador enxergasse o que vinha por trás. O resultado era angustiante e realista.
Resident Evil 4 se tornaria um dos títulos mais cultuados da sexta geração de consoles, recebendo diversos ports e relançamentos, acumulando prêmios e se tornando um dos jogos mais vendidos da história da Capcom. Shinji Mikami se tornou um designer extremamente cultuado, mas, devido a diferenças criativas relacionadas à versão de RE4 para o PS2, deixou a Capcom e seguiu seu próprio caminho.
Resident Evil não perdeu apenas seu criador no quarto game da série. A história também caminhou por rumos distantes do canon estabelecido nos jogos anteriores. Os zumbis se foram e, em seu lugar, ficaram criaturas que acabaram adoradas, mas que deixaram os fãs mais puristas com saudade.
Com a saída de Mikami, a Capcom tentou atender aos fãs e retornar a franquia às suas origens. O resultado foi uma série de títulos para o Nintendo Wii que recontavam acontecimentos do passado e uma união entre o novo estilo e a antiga história em Resident Evil 5, com RE6 levando isso ainda mais além. Para alguns, a fórmula funcionou. Para outros, a marca se distancia irremediavelmente daquilo que a consagrou.
(Cada vez mais alheio)
Shinji Mikami normalmente é associado ao começo da saga. A maioria dos que fazem esse tipo de relação se esquece que ele também foi o principal responsável pelos novos rumos de Resident Evil, criando uma fábula de ação com inimigos inteligentes e história distante. Vamos imaginar que o designer tivesse permanecido na Capcom e, não apenas isso, também continuasse com influência primordial sobre a franquia.
O primeiro efeito prático disso seria uma redução dramática na influência de Resident Evil 4 devido à inexistência de uma versão PlayStation 2. O game acabaria saindo apenas para PCs e poderia chegar às mãos dos fãs da Sony apenas na geração seguinte, quando o novo potencial gráfico do PS3 permitiria as pequenas nuances visuais que Mikami havia dado à sua obra original.
A partir daí, veríamos uma evolução da nova fórmula. Mesmo apenas no Nintendo GameCube, Resident Evil 4 foi um sucesso e a Capcom não teria porque voltar atrás. Veríamos novas possibilidades adicionadas à jogabilidade bem como uma continuidade no enredo que mais se parecia com um filme de ação.
A mão controladora de Mikami também poderia não dar origem aos shooters sobre trilhos lançados para o Nintendo Wii. Eles poderiam ser substituídos por novos episódios da subsérie Survivor, que continuaria com tramas paralelas que, apesar de acrescentarem à saga principal, apresentariam pouca representatividade e qualidade.
A parceria com a Nintendo, porém, seria continuada e o Wii se tornaria um terreno fértil para os novos títulos da saga. Mikami fez sua fama com consoles da "Big N" e estima grandemente a empresa, tendo afirmado mais de uma vez que adoraria lançar Shadows of the Damned para o console "branquinho" caso ele suportasse o game. Se antes o PlayStation era o console obrigatório para o fã de RE, a franquia teria o Wii como casa na sétima geração.
Não dá para saber muito bem o que se passaria na cabeça de Shinji Mikami no longo prazo, cinco ou dez anos após o lançamento de Resident Evil 4. Como qualquer criativo, ele tem ideias geniais que surgem e desaparecem de forma extremamente rápida. Mas uma coisa é certa, a série não seria nada parecida com o seu estado atual. Cabe a você decidir se essas modificações seriam boas ou ruins.
Shinji Mikami atualmente trabalha na produção de um jogo de Survival Horror que segundo ele será genuinamente baseado no horror, nada de tiroteios e ação frenética.