GameVicio Entretenimento: GameVicio | FlashVicio | Hhide.ME | ClubVicio | Fórum | Flow | MovieVicio

Review de Silent Hill: Book of Memories para PSVITA de GameTV

por Anônimo, fonte GameTV, data  editar remover


Aberração, anomalia, aborto vivo, coisa ruim, jogo travesti e por aí vai. Foram muitas as adjetivações carinhosas atribuídas pelos ditos "fãzinhos hardcore" de Silent Hill para Book of Memories quando fora anunciado. Não houve quem tenha ficado de fora desta festa da pejoração. Não negue, você estava lá, e bastante embriagado.

No entanto, quando estava com o primeiro grande spin-off da série Silent Hill nas mãos (sim, há outros, como uma graphic novel animada do primeiro jogo para GBA, um shooter on-rails para Arcade e até um joguetezinho safado para smartphones) tive que tomar uma outra postura.

Na verdade, um post desaforado, mas com muita razão inserida, feito pelo produtor atual da série, Tomm Hulett, em seu blog pessoal me fez repensar as coisas. Faz muito sentido. Por que só os fãs de Silent Hill são tão insuportáveis e fechados a novas possibilidades? Sendo fã de Final Fantasy, gostei muito de Dissidia, que se trata de um jogo de luta (ou pelo menos dentro desse gênero) feito com base em uma série de RPG. O mesmo digo para todo meu entusiasmo para Metal Gear Revengeance, um jogo de ação oriundo de uma franquia stealth. Tratei de colocar meu pré conceito e hipocrisia precoce de lado e tentar BoM de coração e mente abertos.

Mas não importa o quão bem intencionado eu poderia estar, nada salvaria Silent Hill Book of Memories de ser um total desperdício, uma chatice sem fim e uma repetição que beira o deprimente.



Feliz Aniversário!

Após curtir um pouco a excelente música tema composta pelo recém-agregado Daniel Licht (cuja reputação vem da série de TV Dexter e da ótima OST de Downpour) e cantada pela queridinha da série Mary Elizabeth McGlynn, é hora de começar a torcer o nariz e fazer um esforço descomunal para se afastar cada vez mais e mais da mitologia acerca de Silent Hill.

As opções para criação de seu personagem ? que tem como ponto de partida um adolescente macho ou fêmea ? são limitadas. Voz, corte de cabelo, roupa, estilo. Todo esforço do mundo não será o bastante para conseguir criar algo que não seja estereotipado e ridículo, como uma menininha gótica revoltada ou um cara atlético e mais descolado. O que de mais significativo será selecionado nesta etapa envolve um de seis medalhões que atribuirão bônus para seu personagem. Bônus estes que vão de melhorias em determinados atributos, como força ou destreza ou uma maior quantidade de karma adquirido ? você vai entender depois. Creio que o final esteja vinculado a isto também.

Book of Memories é, fundamentalmente, um hack'n slash com todos os elementos de RPG que o gênero criado por Diablo nos trouxe. Minha experiência com tais jogos não se estende muito, devo ressaltar, mas gastei diversas dezenas de horas com Record of Lodoss War no Dreamcast e Champions of Norrath no PS2. Creio que isso tenha beneficiado minha experiência com o jogo, já que cheguei a conclusão de que um profissional na vertente vai pisar e cuspir no título ainda mais do que eu. Você é fã de Diablo e de Silent Hill? Então prepare-se, pois o ódio vai tomar conta do seu coração juvenil.

Voltando a trama, após concluir seu protagonista sem identidade, toda a proposta do jogo é apresentada em minutos. No dia do seu aniversário, uma encomenda chega pelo correio (e das mãos do já famoso carteiro Howard Blackwood): um livro que faria Lovecraft se orgulhar. Nele consta toda a vida do personagem, desde seu nascimento até formatura, incluindo interações conjugais, extraconjugais, familiares e por aí vai. Por pura curiosidade, ele/ela resolve alterar algumas coisas no livro e, depois de sobreviver a um pesadelo (incursionado a Silent Hill, claro) tudo começa a mudar na vida real. A promoção de emprego chega, a garota desejada dá bola e coisas assim. A trama é totalmente terciária e contada somente por intermédio de notas espalhadas pelo cenário e interferência em aparelhos de TV. Você certamente não vai jogar Book of Memories pela história, isso eu asseguro. E devo dizer que meu final foi péssimo. Mas há mais outros cinco, mas eu não pretendo descobrir se o nível foi mantido.



O jogo é dividido em vinte e uma zonas dentro de sete áreas, cada uma com sua temática própria, que recria de forma extremamente tola e superficial algum lugar que já vimos antes em algum Silent Hill. Há a área da floresta, a área do underworld industrializado convencional, a área das paredes e chão cobertos de sangue e por aí vai.

Book of Memories é metódico em todos os seus sistemas e faz péssimo uso da rica mitologia criada pela série. Esqueça toda e qualquer sensação de estranheza, mal estar ou insegurança que alguma iteração já pode ter causado em você antes: não há nada aqui. Só fases desmotivadas e desmotivantes, constituídas por salas muito parecidas umas com as outras interligadas com corredores muito parecidos uns com os outros. E nada de geração aleatória, já que elas são sempre as mesmas toda vez que você joga, com os itens e monstros posicionados nos mesmos lugares. O design destas é muito fraco, com obstáculos pouco inspirados e desafios que muitas vezes apelam para soarem realmente como desafios. Já que a dificuldade é alta, você vai morrer muito e perderá muitos minutos de sua vida neste doloroso processo de volta para o checkpoint, que também inclui longas telas de loading ? muito maiores do que o aceitável para um jogo portátil, devo salientar.

Mas o maior problema mesmo está em quão metódico tudo se apresenta em Book of Memories e isso se reflete em todos os aspectos do jogo.

Valtiel quer você!

É sempre igual: no começo de cada zona você vai se deparar com a entidade Valtiel ? veteranos da série se lembrarão dele de SH3 como um ser misterioso, adepto do voyeurismo e que tornou as aventuras de Heather muito mais mal-assombradas. Pois esqueça tudo isso, já que ele aqui é só um qualquer que irá lhe impor missões paralelas, afim de presentear o jogador com mimos caso sejam concluídas. Fiquei muito incomodado com isso no começo, pois elas são bem imbecis: numa das zonas, Valtiel lhe ordena que leve com segurança um cachorrinho até o fim da fase. Talvez isso diga respeito ao final secreto da versão Restless Dreams de SH2. Talvez. Em Book of Memories, só parece bobo. Aliás, o jogo traz itens de diversos outros jogos da série, como o famoso Aglaophotis ou as velas sagradas de SH4. Homenagenzinha superficial.



Partindo desta mesmice, o objetivo de cada região também é sempre igual: conseguir uma certa quantidade de peças de um quebra-cabeças para assim conseguir passar de fase. Um ponto azul no seu minimapa indicará que ali você terá obrigação de matar todos os inimigos para então receber a pecinha. Até mesmo o segredo por trás da resolução desses quebra-cabeças é parecido, já que basta colocar em ordem de tamanho ou de tonalidade de cor uma quantidade x de peças em prateleiras ou tabuleiros. As coisas dão uma variada, mas no geral é mais ou menos isso.

Como a jogabilidade é totalmente inspirada em Diablo e afins, a visão isométrica e todos os outros requisitos estão presentes. Você ganha experiência ao matar monstros, distribui pontos em atributos ao passar de nível, consegue dinheiro (aqui o dito memória residual) para gastar na lojinha do carteiro Howard, equipar armas e acessórios e etc.

Exploração um tanto quanto minuciosa pelas salas é importante para continuar a jogatina. Sua lanterna tem a função de indicar quais mobílias podem ser reviradas afim de se encontrar itens úteis, como chaves genéricas que quebram após abrir uma porta trancada, no melhor estilo Zelda.

A batalha é bastante simples, com a peculiaridade de que é possível equipar uma arma em cada uma das mãos e que há botão para acioná-las em separado, fazendo com que combos sejam gerados e execuções com animações particulares finalizem tudo de maneira mais pesada. Como o inventório é limitado e as armas quebram com facilidade, o cuidado com seu arsenal faz parte da estratégia do jogo.

Não há muito o que equipar em seu personagem. Além de uma arma em cada mão (e leve em consideração que as melhores delas, como a faca gigante de Pyramid Head, ocupa as duas), você pode associar os preciosos artefatos aos seus atributos, ganhando uma série de bônus e penalidades no processo. Há também bonés, máscaras e adereços que só servem mesmo para enfeite. Uma máscara dos irmãos siameses de SH4 custa muito caro. Informação importante.

A tela de toque do vita é recurso de primeira importância em BoM, mas, infelizmente, se torna um problema mais do que um atrativo. Acionar os itens de sua mochila, que não passam de kits medicinais, munição (que é geral para todas as armas) e chaves de boca (muito úteis, pois consertam seu arsenal) se dá com um simples toque, mas os itens estão todos próximos uns aos outros e não serão poucas as vezes que você selecionará um ao invés de outro. É frustrante especialmente em meio a batalhas, já que tudo é feito em tempo real e fechar a mochila no lugar de consertar a arma pode enraivecer o clima. Isso supostamente daria um toque de "terror e desespero" ao jogo, mas as aspas aí servem para mostrar que o que ocorre na verdade é uma raiva descabida, pois a dificuldade é alta e parece que tudo conspira para o pior.



As criaturas que você enfrentará são retiradas diretamente do famoso bestiário da série, indo de enfermeiras a cachorros infernais Double Head de SH3. Até figurões clássicos como Pyramid Head, de SH2, e Butcher, de SH Origins, dão as caras como mini chefes (há até troféus para matar um quantidade x de cada um deles com uma arma y...). Somente os chefes de zona são originais, mas bem que poderiam não ser, porque são o mais genérico possível. Imagine você que, na fase da floresta, o monstrão representante não passa de uma árvore gigante aspirante a Barbárvore do mal. Baixíssimo nível.

O que traz uma certa tática ao enfadonho martelar de botões inerente ao próprio gênero é o sistema de karma muito bem implementado em Book of Memories. Há diversas variáveis de monstros dentro de uma mesma categoria (sabe em Streets of Rage quando aparecem inimigos iguais, só que com cores diferentes? Então...): enfermeiras e demais criaturas podem ser de luz, de sangue, de metal, de sombras, de chamas, etc. Após serem derrotados, os monstros deixam para trás uma substância viscosa que pode encher seu medidor de karma para o lado da luz ou do sangue, fazendo assim com que diferentes poderes sejam acionados. Matar um monstro de sangue faz com que o karma deixado para trás seja de luz, enchendo assim seu medido respectivo a esta propriedade. Como há golpes especiais que podem mudar a condição do monstro, você vai querer matá-los de acordo com o poder que está querendo acumular.

O painel de toque traseiro do Vita é o recurso da vez para acionar o golpe especial, mas infelizmente ele não funciona tão bem assim. Golpes de sangue causam dano nos monstros e você deve esfregar seu dedo por cima (por baixo) do local que quer que o sangue danoso percorra. Facilmente os monstros escaparão do seu campo de alcance, tornando o poder inútil e o jogador furioso, afinal, não é fácil acumular karma para acionar os golpes especiais.

Um dos elementos mais frustrantes de BoM é seu nível de dificuldade. O que, a princípio, parece interessante e instigante, se torna cada vez pior e pior. Armadilhas espalhadas pelo cenário podem se tornar um verdadeiro pesadelo, pois algumas delas levam seu HP para 1 em um mísero segundo e outras podem sugar sua vitalidade rapidamente. Os monstros também caem nessas arapucas, mas a quantidade as vezes é tão grande e a sala, tão pequena, que isso não faz muita diferença. Até mesmo o inicialmente funcional sistema de esquiva presente acaba se tornando motivo de piada nas fases mais avançadas: é péssimo receber dano mesmo conseguindo esquivar do golpe. O ataque de algumas criaturas pode simplesmente acabar com a sua vida, mesmo que seu nível esteja avançado e que este mesmo ataque não tenha causado metade do dano em partidas passadas.

Apesar dos altos e baixos presentes em todos os sistemas de BoM, há meios de se divertir nessa Silent Hill de mentirinha que a WayForward nos trouxe com exclusividade para o Vita. O modo co-op para até quatro jogadores funciona com garbo e elegância.



Traga sua família para Silent Hill!

Online ou local, quatro pessoas podem se aventurar pelos labirintos enfadonhos da Silent Hill onírica de BoM. A quantidade de frustração que isso sana é absurda. Esqueça morrer e voltar do único save point presente em toda zona, esqueça o desespero em enfrentar uma horda desumana de inimigos sozinho e esqueça a necessidade de voltar nas fases para realizar o famigerado grinding de experiência e dinheiro. Com ajuda, tudo fica mais divertido.

Fiquei impressionado com a facilidade em encontrar pessoas para jogar. Não chegava a esperar nem cinco minutos para que mais alguém aparecesse para me acompanhar em minha busca. Houveram alguns problemas de perda de quadro de movimento ou pequenezas assim, mas nunca nada grave como a finalização de uma partida de forma brusca ou algo do tipo.

Morrer no modo co-op leva o personagem ao início de fase e nem mesmo todos mortos concomitantemente dispara uma tela de loading. É como se os produtores tivessem tornado a experiência para um jogador o mais frustrante possível para forçar as pessoas a interagirem online.

Você pode trocar armas, itens (mas não artefatos e chaves) e conversas a vontade, o quanto quiser. Como o microfone e os falantes do Vita estão no próprio portátil, quando quatro pessoas resolvem falar ao mesmo tempo com muita coisa acontecendo na tela, o áudio enlouquece e barulhos esquisitos são gerados. A música trava e há um engasgo do jogo, mas tudo volta ao normal rapidamente.



Como o design das fases se altera neste modo, é legal se aventurar por aqui mesmo caso já tenha passado por essa zona sozinho. BoM definitivamente foi concebido para ser jogado desta forma e não tenho como negar que cheguei a me divertir bastante acompanhado de estranhos. Há problemas inerentes ao modo, como fila para comprar itens na lojinha de Howard e eventuais slowdowns quando o jogo abusa na quantidade de inimigos na tela, mas nada que afete diretamente os prós existentes.

Mas isso na verdade não importa, já que tive que esquecer por completo estar jogando Silent Hill para que as coisas passassem a funcionar de maneira minimamente tolerável. Percebi que só a partir do momento que passei a enxergar Book of Memories como um jogo qualquer, pude aproveitar todas as minhas horas empregadas naquelas salas sem inspiração conectadas por corredores da depressão.

Infelizmente, a tentativa de fugir das raízes que a série impôs para si mesma não passou de uma mera tentativa, num jogo que não se esforça muito em ser consistente para dois públicos ? os fãs de Silent Hill e os fãs de hack'n slash ? e que falha miseravelmente nos dois pontos.


2 comentários

||
Média da crítica
Média dos usuários
Sua nota

Sobre o colaborador

avatar de Anônimo
Ajuda | Sobre nós | Feeds | Termos de uso | DMCA | Anuncie conosco | Fale conosco

©2013 GameVicio