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Review de RAGE para PC de Eurogamer

por Anônimo, fonte Eurogamer, data  editar remover


Nem Borderlands, nem Fallout: Rage é apenas um bom shooter que tentou demais.

Quando a criadora de Doom e Quake anuncia um novo jogo, você presta atenção. E mesmo que ela esteja há sete anos sem lançar nenhum jogo, e que seu último shooter (Quake IV) não tenha sido dos melhores, você fica ansioso. Quando ela avisa, então, que seu novo jogo vai se passar em um mundo pós-apocalptico aberto e terá elementos de RPG, é difícil conter a empolgação.

Mas a expectativa é um tiro que sempre pode sair pela culatra. E esse é o caso de Rage, o novo shooter da id Software, produzido pela Bethesda. Um shooter que pecou porque se esforçou demais para agradar.

O apocalipse pode ser lindo

Normalmente, falar de um jogo pelos seus gráficos faz tanto sentido quanto comentar um livro pelo desenho da capa. Mas Rage se esforça tanto para ter a capa mais bonita e chamativa, que é muito difícil não ficar alguns bons minutos falando sobre ela. E eu não me refiro à quantidade absurda de detalhes nas texturas ou das animações extremamente bem feitas ou dos efeitos iluminação incríveis, porque isso você já conhece desde os primeiros trailers do jogo. Sim, ele é tão bonito quanto nos vídeos promocionais, mesmo nos consoles – terreno relativamente novo para a id e seu ninja John Carmack.

Rage é mais do que um colosso tecnológico que abusa da experiência da id com gráficos de vanguarda. Ele é um daqueles jogos em que você pode gastar horas simplesmente olhando as paisagens, resultado que só é obtido com uma boa combinação entre tecnologia e arte.

Faça um teste. Quando assumir o controle, antes de prosseguir, olhe para o céu. Ele é azul intenso, e as nuvens se movimentam de forma bastante realista com o vento. Céu azul em jogo pós-apocalíptico? Blasfêmia? Rage prova que o fim do mundo não precisa ser apenas sujo e sem graça. A qualidade visual exuberante favorece um mergulho nesse mundo devastado. É uma pena que quase todo o resto esteja mais com cara de aviso de despejo.

Não é um Fallout
Em Fallout 3, você sai de um abrigo subterrâneo e se depara com um mundo pós-apocalíptico enorme, cheio de possibilidades. Então você sai pelo mundo e explora. Você é dono da sua história. Em Rage, você sai de um abrigo subterrâneo e se depara com um mundo pós-apocalíptico enorme, cheio de possibilidades. Então você obedece as ordens do primeiro Zé Ninguém que aparece na sua frente e vai matar uns bandidos.

Não se deixe enganar por toda a promoção que acompanhou o lançamento do jogo. Rage não é, nem de longe, um RPG. Ele é curto, abrupto, repetitivo e linear. Tão linear e repetitivo, que em algumas missões você simplesmente atravessa o mesmo cenário que já desbravou, mas de trás para frente.

Sabe todas aquelas lindas paisagens? Só servem mesmo para serem admiradas, não há nenhum traço de exploração. O máximo que você pode fazer é passear por aí enquanto atravessa o mapa para chegar até uma missão, mas nada vai lhe convencer a sair do seu caminho principal. E se tentar, vai se decepcionar ao descobrir que boa parte dos cenários está cercada pelas infames e grosseiras paredes invisíveis.

Rage é um shooter, ponto final. Você atira em coisas, elas morrem, você repete. Essas coisas, às vezes, usam armas, às vezes correm na sua direção com garras ou facas, mas todas estão lá para matar ou morrer. Não tem conversa, não tem furtividade, não tem estratégia. E nem todas as dezenas de tipos de armas, munições e parafernálias desnecessárias conseguem mudar isso.

Mas ser um shooter, em si, não é nenhum problema. Atirar em coisas é legal, e a id tem experiência de sobra no gênero para deixar tudo muito divertido. O problema é que os "momentos shooter" estão muito dispersos em um mar de aperitivos desnecessários, que você nunca chega a acreditar que eles são a refeição principal. Enquanto isso, o jogo continua prometendo uma deliciosa sobremesa que nunca chega.

O pior de Borderlands

O mais notável entre os aperitivos de Rage são os momentos sobre quatro rodas. Ao contrário de todas as outras distrações oferecidas (jogos de cartas, jogos de tabuleiro, lojinhas…), essa não é opcional. Para ir até os lugares, você precisa dirigir, assim como em Borderlands. E, assim como em Borderlands, isso é muito chato.

No começo pode até ser emocionante, mas a alegria não dura muito tempo. Logo você vai estar cansado da perseguição de todos aqueles veículos inimigos. Logo você vai estar simplesmente procurando uma maneira de pular para a próxima missão sem precisar andar quilômetros pelo deserto. Quando você perceber que não há alternativa, vai esperar pelo menos que esses momentos em cima de um veículo tragam alguma recompensa. Mas eles não trazem. É um passeio desnecessário, talvez só para dizer "Yes! Temos veículos também".

E, assim como em Borderlands, a história começa abruptamente, termina abruptamente e nem sequer se esforça para se justificar. Em ambos os casos, você acredita que essas justificativas vão surgir uma hora ou outra. Mas elas não vão. E Rage ainda nem tem o bom humor e o carisma da narrativa de Borderlands.

Então, se você estiver procurando densidade, diversidade ou uma recompensa maior do que simplesmente ver a cabeça de um inimigo explodindo, prepare-se para um belo chute nas partes baixas. O jogo vai substituindo progressivamente suas expectativas, fazendo você acreditar que há um "agora vai" a cada esquina. Mas tudo o que ele tem para oferecer está explícito desde o começo. Quando você se depara com o inesperado final, é difícil não se sentir enganado.

Rage é o popular "gato por lebre". Mas será que dá para pelo menos aproveitar esse gato?

O melhor de Doom

Talvez a expectativa pelo "algo a mais" seja meramente subjetiva. Talvez, olhando Rage pelo que ele é, e não por aquilo que ele tenta desesperadamente ser, a experiência seja diferente.

Pensando assim, resolvi jogar tudo novamente. Coloquei a dificuldade no máximo e simplesmente passei batido por toda a história mal acabada, por toda a falsa sensação de grandiosidade, por todas as constantes distrações entre um tiroteio e outro. Apertei o X o mais rápido que pude, e fui matar uns mutantes (sempre eles).

Deu certo. Entre bumerangues que decepam, o retorno dos saudosos itens de cura, escopetas poderosas e headshots que não matam (alguns inimigos exigem três ou mais tiros na cabeça para morrer), Rage se tornou um dos shooters mais divertidos que eu já joguei. Emocionante, frenético, intenso, bonito e exigente, tudo isso acompanhado de uma bela e pontual trilha sonora. Bem como verdadeiro jogo de tiro dos criadores de Doom e Quake deveria ser.

Talvez os tiroteios de Rage não sejam muito diferentes do que você irá encontrar em qualquer outro shooter, mas há uma qualidade especial neles, quase subliminar. Aquele refinamento sutil nas relações entre jogador/arma/bala/inimigo/cenário, aquela química que só a id consegue fazer. Fazia tempo que eu não gostava tanto de simplesmente apertar o gatilho.

Nota de 0 a 10: Agridoce

O principal problema de Rage é esforço excessivo da id em tentar se adaptar para as novas gerações. Como se aquele seu avô decidisse linkar o Twitter no Facebook para lhe impressionar, em vez de simplesmente contar suas histórias de veterano de guerra como sempre.

É o que a id fez aqui. Tentando reencontrar um lugar ao sol no mercado saturado que ela mesma ajudou a criar, tudo o que ela conseguiu fazer foi confundir seu principal público, aqueles que ainda se lembram e respeitam tudo o que ela fez pelos shooters. Rage é uma experiência confusa e agridoce.

Ele fez a burrada de tentar abraçar o mundo com braços de anão. Mas ao mesmo tempo rende alguns dos melhores tiroteios que já vivi.

Na próxima vez, id, tente não esquecer: tudo o que você precisou para nos conquistar durante todo esse tempo foi uma escopeta simples e nervosa.


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