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Review de No More Heroes para Wii de E-Zine/MyGames

por Anônimo, fonte E-Zine/MyGames, data  editar remover


Temos uma tendência para pensar em termos absolutos. Não falo apenas de jogos, mas em tudo na vida. Bom, mau, divertido, aborrecido, tecnicamente competente ou não. ?? uma linha de pensamento que, apresentando tudo em tons de branco e de preto, por vezes não nos deixa apreciar a beleza dos cinzentos. Vemos isto no mundo dos videojogos recorrentemente. Os produtores preocupam-se em espremer as capacidades técnicas de uma consola e esquecem-se de que têm em mãos um poderosíssimo veículo cultural e estético, capaz de submergir a sua audiência no que pode ser uma experiência intensa e arrebatadora. O enfoque são os polígonos, os efeitos de luz, as texturas, os tempos de carregamento e todo um chorrilho de preocupações técnicas que raramente acrescentam algo de substancial à essência de um videojogo.

Esta é a norma mas, como com qualquer tema, existe uma contracorrente. Personalidades como Keita Takahashi - Katamari Damacy ??? ou SUDA51 ??? Killer7 - não são apenas produtores de jogos, são criadores, e os seus títulos são aclamados como tal. Talvez porque estas pessoas não se regem pelas mais recentes tendências do mercado, os jogos que criam assumem uma dimensão que ultrapassa a contagem de Gigabytes num disco.

No More Heroes é um destes títulos. Descartando muito do potencial técnico da Wii, consegue mesmo assim oferecer algo de intangível, bem escondido no meio de uma estética apurada e de uma jogabilidade inovadora. O resultado é um jogo que, se olharmos para ele a branco e preto, corre o risco de desiludir, mas o mesmo pode ser dito de uma obra de Picasso ou de Jackson Pollock. No meio de todo o caos, dos traços e das cores, encontramos propósito, consciência, intenção. Da mesma forma, a mais recente obra de SUDA51 evidencia tudo isto a um nível que poucas vezes vimos neste meio.

No More Heroes é simples, como os grandes filmes o são. Em Kill Bill, a vingança potencia toda a acção, colocando as personagens em situações caricatas, mostrando-nos até que ponto somos capazes de esquecer premissas sociais básicas quando cegos por um intuito que se torna absoluto. Travis Touchdown age como Uma Thurman da obra de Tarantino. O seu único propósito é tornar-se no assassino número um de Santa Destroy e o jogador tem "apenas" de conseguir matar os seus superiores hierárquicos. O tema violento é contrabalançado pela atitude despreocupada de Touchdown, pelas geniais tiradas de humor, pelos inimigos burlescos e por uma imensidade de outros factores. ?? um oximoro, é certo, mas que funciona em pleno e dá a No More Heroes o seu rasgo de genialidade.

A acção divide-se em duas fases. Na primeira deambulamos pela cidade de Santa Destroy como num qualquer Grand Theft Auto, aceitando pequenos trabalhos como cortar a relva ou apanhar o lixo, ou realizando missões de assassinato básicas, tudo para ganhar algum dinheiro. Existem também imensos sítios para o gastar, desde um ginásio onde podemos melhorar as nossas habilidades, uma loja onde é possível comprar novas armas e respectivos melhoramentos para a nossa beam katana, a lojas de roupa com imensas opções de indumentária. Mas é depois de recolhermos a maquia necessária e fazer um depósito numa máquina Multibanco que tudo se altera. ?? assim que desbloqueamos Ranked Missions, que nos permitem combater com o assassino directamente acima de nós na lista e tomar o seu lugar.

O combate é estranhamente intuitivo e uma mescla entre a simplicidade do esquema de controlo e as potencialidades oferecidas pelo Wiimote. Com pequenos movimentos do mesmo podemos defender, realizar violentos ataques, golpes altos ou baixos ou mesmo movimentos de luta-livre, movendo o controlador da forma indicada no ecrã. Se no início isto nos permite devastar a competição, a partir de metade do jogo, os bosses e as suas habilidades começam a ser um verdadeiro desafio à nossa destreza.

Há que dizê-lo. As fases passadas na cidade de Santa Destroy não conseguem atingir o brilhantismo das Ranked Missions. As tarefas que nos apresentam são muitas vezes um pouco aborrecidas e a cidade em si parece despida de qualquer interesse. Acreditamos que mesmo isto seja intencional, uma crítica a GTA e aos seus clones, já que o próprio movimento de Travis é em tudo igual ao do protagonista de GTA. No entanto, isto não invalida o facto de o sistema ser repetitivo, algo de que a grande maioria dos jogadores se vai aperceber. Se decidirem ignorar isto, o que encontram é um jogo capaz de entregar horas de diversão. O combate é intenso e a introdução de novos inimigos e formas estapafúrdias de os eliminar é constante.

Descobrir os pormenores em combate é só uma pequena parte de No More Heroes. O jogo é uma arca do tesouro de referências culturais, desde o próprio SUDA51 e o seu jogo Killer7 a alusões a filmes como The Warriors, Star Wars, imensos videojogos e por aí em diante. Uma homenagem às influências do criador. Tudo isto embrulhado num estilo gráfico único que pavoneia a sua aparente simplicidade. Mais uma vez, entramos no campo da deliberação, uma vez que SUDA51, sem sombra de dúvida, poderia ter puxado mais pelo hardware da consola. Mas não precisa de o fazer, usando modelos relativamente simples para oferecer um estilo inconfundível e que permanece na memória e isto, na nossa opinião, é qualidade.

Assumidamente tosco, com mensagens morais contraditórias e um sentido de humor implacável. Numa palavra, brilhante. ?? assim que podemos definir No More Heroes. Estando longe de ser o jogo perfeito, consegue no entanto desafiar convenções, e não se vergar aos cânones desta indústria, que nos dias que correm parece mais interessada em fazer dinheiro do que em oferecer aos jogadores experiências memoráveis. Por tudo isto, No More Heroes é um daqueles jogos quase obrigatórios.


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