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Review de Shadows of the Damned para X360 de Eurogamer

por ShadowsGamer, fonte Eurogamer, data  editar remover


Ao longo dos anos foram vários os videojogos que tentaram recriar aquele que deve ser um dos locais mais temidos de sempre, o inferno. Dante's Inferno, um título da Visceral Games baseado na Divina Comédia, mostrava uma visão do inferno aterradora em que as pessoas eram punidas eternamente pelos seus pecados. Embora God of War não seguisse exatamente este caminho, mostrava corpos flamejantes a cair para o inferno. Shadows of the Damned tem uma abordagem completamente diferente, graças à perspetiva extremamente bizarra de Goichi Suda, mais conhecido como Suda51. A viajem ao inferno em Shadows of the Damned é completamente louca e divertida. Quem segue o trabalho de Suda 51, já deve estar habituado às "esquisitices" dos seus jogos e momentos "WTF?", pois bem, Shadows of the Damned é o culminar disso tudo.

Shadows of the Damned transpira a Suda 51 por todos os lados. Da mesma forma que um bom conhecedor de arte reconhece uma obra de Picasso sem olhar para a assinatura, alguém que esteja familiarizado com os seus jogos reconhece o dedo neste título. O que é de louvar, porque na indústria dos videojogos não é normal associar os produtores às suas criações, salvo raras exceções. Neste sentido, Shadows of the Damned representa um passo em frente para os videojogos serem reconhecidos como arte, pois o estilo único do seu criador faz-se sentir por tudo o jogo. Naturalmente, o resultado é também um jogo único e com uma personalidade forte e distinta.

Como muitos dos jogos de Suda 51, Shadows of the Damned recusa a seriedade. O próprio jogo tem consciência que não passa de um videojogo, e não tem qualquer preconceito de transmitir essa ideia ao jogador. Aqui devemos esperar o inesperado, e é essa a sua beleza. Nunca sabemos o que está ao virar da esquina, o jogo é uma autentica caixa de surpresas desde o início até ao final.

Embora aquilo que deixe transparecer é um mundo alucinado e cheio de desordem e javardice, existe ordem por detrás disto tudo. ?? a ordem da desordem. Como já disse, tudo aquilo presente em Shadows of the Damned tem um propósito, as piadas e humor negro não foram colocadas ao acaso no meio do jogo, antes pelo contrário, foram colocadas com muito cuidado em sítios específicos para causarem certos efeitos no jogador, que costuma ser um monte de gargalhadas.

O humor, que é um humor já típico dos jogos de Suda 51, assume uma grande parte de Shadows of the Damned. Mas nem tudo são gargalhadas. Existe uma estória para contar. Garcia Hotspur, ou Garcia "Fucking" Hotspur, como ele próprio se auto-denomina, é um caçador de demónios que vê a sua amada, Paula, ser raptada por um demónio com seis olhos chamado Flemming, também conhecido por ser o senhor do inferno. Para recuperar a sua amada, Garcia está disposto a ir até às profundezas do inferno.

A estória nunca passa para segundo plano. Somos constantemente lembrados do nosso objetivo, seja ao ver a nossa namorada a morrer de várias formas ou ao sermos perseguidos por um clone malvado de Paula que nos tenta beijar (se isto acontecer morremos). ?? macabro, mas ao mesmo tempo, também faz parte do humor único a que somos brindados.

Shadows of the Damned vai buscar muita inspiração ao cinema, principalmente aos filmes grindhouse e de terror, algo notável no seu estilo visual. Está sempre presente um filtro que dá um aspeto mais escuro e mais sujo ao jogo, e nas bordas do ecrã é notável uma ligeira mancha preta. A nível artístico, tudo é fantástico. Basta olhar para Garcia e reparar nas suas tatuagens e palavras inscritas no seu casaco de pele. Tudo contribui um pouco para dar vida ao inferno de Shadows of the Damned. Destaque ainda para as secções em duas dimensões que dão o aspeto de serem feitas em papel, um claro tributo aos jogos retro.

Enquanto que a presença de Suda 51 se faz sentir no mundo maluco de Shadows of the Damned, a presença do não menos conhecido Shinji Mikami denota a sua participação na jogabilidade. Quem jogou Resident Evil 4, irá sentir-se imediatamente em território familiar. Porém, foram feitas alterações para torná-la melhor e mais refinada. Por exemplo, é possível rebolarmos para os lados para esquivar ataques iminentes e disparar enquanto andamos, o que torna a jogabilidade muito mais fluída.

Embora Garcia Hotspur assuma o papel de personagem principal, é impossível não referir o seu sidekick Johnson, uma caveira falante com um sotaque britânico que consegue ser hilariante. Na verdade, é mais que um simples sidekick, porque para além de falar tanto com Garcia, sem ele Shadows of the Damned não teria tanta piada. Johnson é aquela pitada de sal que torna as coisa ainda mais saborosas e picantes.

Além de sidekick, Johnson possui a habilidade de transformar-se em diferentes armas, três para ser exato ??? uma pistola, uma metralhadora e uma caçadeira, que em Shadows of the Damned recebem nomes estilosos como Boner(não esquecer as piadas sobre sexo), Teether e Skullcussioner. As armas ficam mais mortíferas e recebem nomes mais estilosos quando encontramos uns diamantes azuis que se colocam na cabeça de Johnson. As habilidades de Garcia também são melhoradas com o avançar no jogo graças a uns diamantes vermelhos.

Em Shadows of the Damned não andarão o tempo todo a combater demónios. Pelo meio encontrarão vários puzzles que recorrem ao tema da luz/escuridão (inspiração em Alan Wake?). A escuridão é nossa inimiga, e não aguentamos muito tempo nela sem começar a perder vida. Para iluminar o ambiente, a solução passa por alvejar uma cabeça de uma cabra com um flash de luz. Se acham isto estranho, esperem até verem um boss a parar de lutar connosco para se aliviar.

A longevidade de Shadows of the Damned é ideal, nem é muito longo nem muito curto, e deixa-nos a salivar por mais. Para chegar ao final foram precisas 11 horas, o que para mim foi uma enorme surpresa. Senti que o tempo passou a voar e era capaz de jurar que não passei mais que 6 horas a jogar, contudo, o cronómetro do jogo provou que estava errado.

Seria um crime terminar esta análise sem mencionar a maravilhosa banda sonora criada por Akira Yamaoka. ?? fantástico a forma como este compositor conseguiu pegar nos vários elementos do jogo (as origens latinas de Garcia, a influência dos filmes grindhouse e dos jogos retro) e transpassá-los para a música que ouvimos. ?? uma mistura de géneros, mas combinam na perfeição.

Numa indústria onde muitos se queixam de falta de novidades, Shadows of the Damned é uma lufada de ar fresco. ?? um jogo relaxado que não está preocupado com nada, não há pressão para competir com outros jogos ou para ser uma maravilha tecnológica que puxa uma consola aos seus limites. Podem dizer que Shadows of the Damned tem todos os ingredientes para ser considerado banal: muita violência, palavrões e miúdas sexy's em trajes curtos. Alias, ao primeiro olhar parece ser semelhante a fast-food, mas depois de provarmos, percebemos imediatamente que é algo muito mais requintado. ?? uma mistura de sensações incrível e proporciona uma diversão inimaginável. ?? difícil fazer justiça ao jogo num aglomerado de palavras, o melhor é mesmo irem jogar, porque a sério, vale a pena.


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