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Review de Red Dead Redemption para PS3 de E-Zine/MyGames

por Raziel619, fonte E-Zine/MyGames, data  editar remover


No início havia John Ford com The Searchers e John Wayne, onde o pistoleiro era um herói por força do seu elevado sentido de justiça com roupa lavada e engomada. Depois veio Sergio Leone com Il buono, il bruto, il cattivo (O bom, o mau e o vilão) e Clint Eastwood, marcando para sempre a imagem do cowboy como um homem marginal, reservado e de barba rafeira com um cigarro no canto da boca, num mundo sem lei e com um código moral ambíguo.

A Rockstar leva-nos com Red Dead Redemption de volta ao início do século XX, uma altura crucial na construção da sociedade ocidental como a conhecemos hoje. ?? a altura em que o sonho americano original morre e se transforma, passando da ambição de ter uma porção de terra onde cultivar e criar a nossa família para ter um trabalho de colarinho branco e enriquecer sem limites. ?? nesta altura em que o Oeste ainda está por domar, quando as vastas planícies ainda selvagens se estendem até ao sol posto no horizonte.

?? este mundo que a Rockstar San Diego se propõe a recriar com Red Dead Redemption, um mundo nos seus últimos momentos onde o avanço tecnológico e o Governo Federal se impõem. Como não poderia deixar de ser, este mundo chega-nos com todas as características de um jogo da Rockstar: um mundo aberto, personagens únicos, acção viciante e uma narrativa exemplar.

Somos John Marston, um fora-da-lei reformado que, muito ao jeito da Rockstar, é obrigado pelo Governo Federal a caçar o seu antigo grupo agora encabeçado por Bill Williamson de forma a salvar a sua família. ?? sob esta premissa que vamos viajar por um mundo aberto, em grande parte inabitado, duro e cruel com os poucos que nele vivem. O mundo de Red Dead Redemption divide-se em três regiões distintas: West Elizabeth, New Austin e Nuevo Paraiso.

New Elizabeth é a região mais a Noreste no mapa e onde a tecnologia e a modernidade já se instalaram. New Austin é a região central e fronteiriça com o México, com longas pradarias e bosques, o típico cenário de um western. Nuevo Paraiso é a região revoltada além fronteira, mergulhada em guerra civil.

Enquanto New Elizabeth não nos espanta com as suas medidas, as regiões de New Austin e Nuevo Paraiso são espantosamente extensas com pequenos entrepostos e cidades aqui e ali. A dimensão do mundo é ainda mais estonteante devido ao nível de pormenor. Cada região é diferente com zonas distintas dentro das suas fronteiras, em grande parte devido ao ecossistema fenomenal encontrado em Red Dead Redemption.

Com mais de 30 espécies diferentes de animais desde pássaros, equídeos, roedores e carnívoros, presas e predadores, o céu, as planícies, montanhas e vales estão preenchidos com vida natural que, felizmente, se comporta de forma natural. Lobos andam em alcateia quando caçam coelhos ou homens perdidos, abutres voam em círculos sobre carcaças putrefactas e veados cobrem os campos aos saltos. A flora também se destaca de região para região com diferentes tipos de árvores e plantas, incluindo os icónicos cactos e tumbleweeds.

Passando para os humanos, estes também têm as suas idiossincrasias regionais, desde o snob nortenho de West Elizabeth, ao rebelde de Nuevo Paraiso sem qualquer noção de higiene, passando pelos bandidos e rancheiros de New Austin. Ao estilo dos Western Spaghetti, Red Dead Redemption recorre a esterótipos como a mulher forte e decidida, o mexicano preguiçoso, o irlandês bêbado, o bom, o mau e o vilão.

A presença humana funciona à semelhança do ecossistema, com regras próprias de comportamento que desencadeiam eventos aleatórios como um bando de foras-da-lei a assaltar um rancho, uma prostituta a ser violentada por um cliente ou um enforcamento no meio de nenhures. Os habitantes em Red Dead Redemption mostram uma autonomia e carácter próprios e o mundo existe sem o nosso impulso, algo extremamente agrável de testemunhar.

A juntar a esta naturalidade no comportamento dos habitantes temos um extenso leque de actividades suplementares como poker, uma espécie de jogo da malha com ferraduras e outras menos lúdicas, como caçar bandidos com a cabeça a prémio ou ser desafiado para um duelo. Estas são apenas algumas das actividades em que podemos participar, havendo muitas mais espalhadas pelo mapa. O mundo de Red Dead Redemption nunca se torna enfadonho nem gasto.

Falando agora do grande elefante na sala, Red Dead Redemption tem óbvias parecenças com GTA 4. A estrutura é familiar, ícones aparecem no radar a indicar-nos as próximas missões, pessoas do mundo pedem-nos ajuda e iniciamos missões paralelas ao desenvolvimento da história, sem que alguma destas nos seja imposta.

O motor de jogo é o de GTA 4 com melhorias e ajustes ao armamento e "veículos", de modo que controlar Marston lembrar-vos-á os dias em que controlavam Niko Bellic em Liberty City. O sistema de cobertura, a mira e os movimentos são semelhantes mas, como disse, melhorados e adaptados ao tema. No entanto, as parecenças entre os dois títulos não conferem o estatuto de cópia a Red Dead Redemption mas chegam-nos como herança dos jogos de mundo aberto da Rockstar.

A grande melhoria no motor foi a de localização de impacto. Em Red Dead Redemption conseguimos alvejar um pé, uma mão, um joelho, um ombro, sem matar o nosso alvo. Isto abre possibilidades para verdadeiros momentos do cinema como desarmar vilões e tirar-lhes o chapéu. Inclusivamente, se num duelo conseguirmos vencer o nosso adversário sem o matarmos ganhamos o dobro da fama.

Para distinguir o título de 2008 deste de 2010, Red Dead Redemption aposta nas particularidades que advêm do mundo que recria, apoiando-se particularmente em três elementos de gameplay.

O primeiro é o meio de transporte. Numa altura em que o automóvel é um luxo raro, quase exótico, o cavalo é o nosso fiel companheiro e veículo. Embora não estejam ao nível de Agro de Shadow of the Colossus, os equídeos, assim como todos os animais do mundo, estão muito bem feitos e credíveis enquanto criaturas vivas e selvagens. Quem não quiser atravessar o vasto mapa poderá sempre montar o acampamento e viajar automaticamente para certos pontos do mundo, embora perca uma grande parte da experiência que é Red Dead Redemption. Fica o aviso que nem todos os cavalos são iguais, havendo uns mais fortes e rápidos que outros.

O segundo elemento que separa Red Dead Redemption de GTA é o arsenal, em especial o lasso, uma ferramenta não letal e multiusos. Desde caçar e domar cavalos a amarrar bandidos foragidos e devolvê-los às autoridades (ou deixá-lo na linha do comboio como forma de justiça própria), o lasso é uma ferramenta útil e única.

O terceiro é o Dead Eye, uma espécie de Bullet Time à la Matrix em que o tempo abranda e nós podemos apontar com maior precisão os nossos alvos. Com três níveis distintos, o Dead Eye começa por apenas abrandar o tempo, chegando a permitir escolher os alvos e o local exacto onde queremos acertar. Esta capacidade faz com que consigamos tirar o chapéu aos nossos inimigos e os desarmemos ao estilo de Clint Eastwood. O Dead Eye, em conjunto com o lasso, torna-se uma das marcas mais identitárias de Red Dead Redemption.

Outros elemento, embora não de gameplay, são o sistema de fama e honra e a lei. Cada relação que Marston tem com os habitantes dá-lhe fama mas dependendo das suas

acções, pode aumentar ou diminuir a sua honra. Enquanto a fama acrescida chamará a atenção de pistoleiros que querem ser reconhecidos e nos desafiam para um duelo, a honra molda a opinião que os habitantes têm de nós, condicionando as suas acções e reacções perante a nossa presença. Se usarmos um lenço quando nos quisermos portar menos bem, a fama aumentará mas a honra permanecerá intacta.

Em relação à lei, em Red Dead Redemption esta é persistente, ao contrário do que vemos em GTA 4. Se roubarmos, matarmos ou importunarmos as pessoas erradas poderemos ficar com a cabeça a prémio, prémio que aumentará até o pagarmos. Entretanto, dependendo da seriedade do delito, teremos grupos de homens da lei e caçadores de prémios nos nossos calcanhares.

Visualmente, o jogo está impecável. As texturas estão praticamente palpáveis e os efeitos de luz exemplares, exibindo o seu explendor quando à noite nuvens carregadas cobrem o céu e relâmpagos iluminam os campos. Os animais deixam pó quando correm, as armas deitam fumo quando disparadas e os cavalos têm um nível de detalhe e pormenor assustador com os músculos contraíndo e descontraíndo conforme os seus movimentos. Todas as armas que Marston carrega estão visíveis no avatar e os diferentes fatos estão maravilhosamente desenhados e animados.

Red Dead Redemption mostra ao mundo como se conta uma história com personagens virtuais. John Marston, Marshal Leigh Johnson, Bonnie MacFarlane, entre muitos outros que entram neste título, são das personagens virtuais mais credíveis, vivas e únicas. John Marston em particular não é o homem ideal, não é culto, embora alfabetizado, mas esperto e experiente. O facto de ser um homem com falhas torna-o mais humano, ajudando à aproximação do jogador.

Por melhor que sejam as partes cinemáticas com as posturas, poses e expressões naturais dos personagens, há que destacar a prestação sonora. As vozes fiéis aos modelos dão vida aos diálogos não menos que geniais que recorrem à gíria da altura e jeitos regionais da língua. Red Dead Redemption leva-nos até um mundo de gente fora-da-lei, sem maneiras, moldada pela ignorância e violência dos tempos e o seu comportamento e linguagem não o escondem.

A banda sonora marca presença com a mais alta qualidade, consoante a situação em que nos encontramos, dado não haver rádio incorporado nos cavalos. Os instrumentais compostos por Bill Elm e Woody Jackson, com inspirações claras nalgumas faixas de Ennio Morricone, compositor dos filmes de Sergio Leone de 64 a 75, com a harmónica, o violino, o banjo e o assobio a marcarem presença, misturam-se com as paisagens magníficas. José Gonzalez também dá o seu contributo com uma faixa cantada, intitulada Far Away.

Os sons do mundo não ficam atrás. Todos os animais têm a sua "voz" característica, o som dos cascos muda consoante o terreno e se está seco ou molhado. As armas têm um som que respeita o original, fazendo com que um revólver soe a um revólver e não a uma 9mms. As emoções nas vozes dos transeuntes levam-nos a perceber a situação em que se encontram, ajudando os jogadores a entrarem e, mais importante ainda, a acreditarem no mundo de Red Dead Redemption.

No modo multiplayer a Rockstar mostrou que aprendeu com os erros e ganhou experiência. O modo online por defeito é Free Roam, onde até 16 de jogadores por sessão podem explorar,

salvar ou condenar o mesmo mundo presente na campanha. Neste modo podemos formar grupos e completar certos desafios contra ou favor da lei. ?? medida que completamos desafios no Free Roam e somamos jogos nos modos competitivos ganhamos experiência e subimos de nível. No entanto, é neste modo onde mais notamos o nosso progresso, passando literalmente de burro para cavalo, passando por uma pileca pelo meio. Armas mais poderosas e novos avatares são outras recompensas que nos chegam com a subida de nível.

Para os que se assustam com grandes viagens fica o aviso que neste modo Free Roam não podemos acampar como no modo singleplayer mas temos entrepostos que nos permitem viajar instantaneamente para outras regiões e localidades.

Os modos competitivos são variantes de Deathmatch e Capture the Flag em equipa ou em free for all. A cereja no topo do bolo é a forma como estes modos começam - com um duelo. Os jogadores começam frente a frente com a arma apontada a quem desejarem até que é dada a ordem de tiro. No final só poderá haver um de pé que ganhará vantagem sobre os restantes.

Shootout e Gang Shootout não têm muito para explicar, são encarnações dos modos tradicionais Deathmatch e Team Deathmatch no mundo de Red Dead Redemption. Hold Your Own por sua vez apresenta o conceito de Capture the Flag só que com sacos de ouro. Enquanto nos modos Shootout e Gang Shootout os mapas não são muito grandes, em Hold Your Own somos encorajados a usar cavalos para infiltrarmo-nos na base inimiga e escapar com o saco sem que sejamos atingidos por snipers, gatling guns ou canhões.

Gold Rush é o modo, entre os competitivos, que mais se apresenta como original. Novamente com a possibilidade de ser jogado em equipa ou todos contra todos, o objectivo é recolher sacos de ouro que aleatoriamente surgem no mapa e devolvê-los ao nosso baú. Cada jogador pode carregar até dois sacos de cada vez mas cada saco diminui a mobilidade de quem os carrega, tornando-o vulnerável a ataques e consequente roubo.

Red Dead Redemption tem mais do que o necessário para nos manter ocupados durante meses a fio. A campanha singleplayer tem cerca de 20 horas sem contar com a exploração inevitável e tem ainda uma componente multiplayer bastante sólida e apelativa que irá crescer a partir de Junho com DLC.

Fica a nota de que Red Dead Redemption não será para todos. Enquanto não duvido que todos os fãs de GTA gostarão da história fantástica que a Rockstar apresenta com este título, a exploração não agradará aos mais impacientes e àqueles que não são dados à aventura sem destino. Informo desde já que a exploração é uma das características que faz de Red Dead Redemption um colosso entre os jogos de mundo aberto.

Passadas 7 horas desde o momento em que controlei pela primeira vez John Marston avancei bastante menos do que se me tivesse focado nas missões, isto porque dei por mim desviado do meu

caminho original uma e outra vez. O mundo não está cheio de acontecimentos aleatórios, havendo momentos em que nos encontramos sozinhos no meio do nada. Os animais não preenchem constantemente o ecrã nem vemos um homem a ser enforcado a cada cinco minutos. Todavia, é esta naturalidade que dá credibilidade ao mundo de Red Dead Redemption. Encontrarmo-nos sozinhos na pradaria deixa-nos maravilhados até sermos atacados por uma alcateia ou um puma que nos desfazem em segundos.

Não só belo, o velho oeste é cruel e violento - a história de Marston mostra-nos isso mesmo - mas a liberdade imensa e os tons de cinzento que ligam o bem e o mal fazem-nos voltar a montar o cavalo, a cobrir a cabeça com o velho Stetson e a descansar o revólver no coldre.


Liberdade é a palavra chave em Red Dead Redemption, de mão em mão com realismo. O ecossistema, o universo social e a perícia e experiência da Rockstar em criar mundos, fazem deste o mais vivo e verosímil, na minha opinião, até ao momento. Mesmo com os bugs relatados que, felizmente, não testemunhei na primeira pessoa, Red Dead Redemption é o jogo de eleição para quem sempre fantasiou com o faroeste, em correr as planícies e bosques e impor a sua justiça num mundo que precisa desesperadamente de uma bússola moral


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