GameVicio Entretenimento: GameVicio | FlashVicio | Hhide.ME | ClubVicio | Fórum | Flow | MovieVicio

Review de Mass Effect 2 para PC de Eurogamer

por Giordano Trabach, fonte Eurogamer, data  editar remover


Quando um jogo se assume desde cedo como uma trilogia, poderá de certa forma deixar muitas questões no ar, principalmente na sua capacidade de evoluir durante todo o processo de produção. O primeiro Mass Effect, conquistou desde cedo uma legião de fãs, não só dos aficionados a RPG, mas também de todo o universo de combate em planetas estranhos, habitados por um conjunto extremamente rico de seres extraterrestres. Mass Effect mostrou que o ambiente ou mundo no qual tudo se passa não fica circunscrito num único espaço. Temos todo o universo como palco para a nossa actuação de uma forma bastante extraordinária.

Devido a ser uma trilogia, podemos cair no erro de pensar que para jogarmos um temos que jogar o outro. Claro que pela qualidade do primeiro, julgamos ser impensável de não lhe dar uma oportunidade, mas nem tudo é tão linear como pode parecer. Existirão dois sentimentos perante este segundo jogo. Aqueles que nunca jogaram ou nem sequer conhecem o primeiro, irão de imediato querer saber a sua origem, e aqueles que já viveram o primeiro, irão desejar de forma desmesurada pelo terceiro. Tão simples como isto. Não exagero em dizer que Mass Effect 2 se tornou num dos jogos de todos os tempos para mim. Principalmente pela sua simplicidade e facilidade, sendo muito bom em quase tudo. Tão simples que nos leva a pensar como se conseguem fazer maus jogos.

Como bom RPG que se preze, podemos personalizar a nossa personagem a gosto, criando um "eu" mais parecido com os nossos desejos. Alterar a face, o sexo, ou mesmo as nossas características principais de combate. Embora toda esta personalização seja interessante e de certa forma muito eficaz no jogo, julgo que deveria ser encarada por cada jogador como um extra, uma tentativa de longevidade após acabarmos o jogo. A questão prende-se principalmente pela personagem que dá cara aos trailers, ou seja, o Shepard original. Jogar com um Shepard adulterado, ou mesmo do sexo feminino, não é aconselhável. Acho que deverão jogar desde o início sem qualquer alteração física, pois tudo fica mais sério e real. Após isso, dêem asas à vossa imaginação. Também podemos usar o nosso jogo que gravámos no primeiro título. Embora o impacto que as gravações têm no desenrolar deste segundo jogo não seja tão visível, ainda assim é interessante, pois existem determinadas coisas que são contextualizadas de acordo com o que fizemos no primeiro e o rumo que tomamos.

Este segundo jogo transporta-nos para dois anos após o combate contra os Reapers, e sobre a vitória contra Saren. Mas antes mesmo, logo após a vitoria, o Comandante Shepard e sua tripulação efectuam um trabalho de rotina pelo universo. As ameaças ainda são muitas, principalmente dos Geths. Tudo parecia calmo na Normandy, mas eis que o ataque súbito de uma poderosa nave acaba com a festa. Perante uma enorme bola de fogo, muitos da tripulação morrem, e outros conseguem sair utilizando as cápsulas de salvamento. Como em caso de "naufrágio" o Comandante é o último a abandonar o "barco", Shepard tenta salvar o maior número de tripulantes, mas nem tudo acaba bem. Aqui é-nos dado um vislumbre de todo o poderio gráfico de Mass Effect 2, bem como a ligação da componente sonora com todo o cenário. A passagem pelo convés da nave é simplesmente brutal, pois todo o som das explosões e banda sonora desaparece de forma drástica, criando um efeito de solidão e vazio tremendo. Esta é provavelmente uma das mais espectaculares introduções de um jogo. A forma cinemática em que tudo ocorre é simplesmente deliciosa aos olhos e ouvidos, tendo um alcance invejável em todo o mundo do entretenimento.

Logo a seguir a esta introdução, somos atirados para dois anos após os acontecimentos iniciais, onde Shepard se junta às forças de Cerberus, uma organização independente, com os fundos ilimitados, não olhando a despesas para cumprir com os seus objectivos. Em representação desta entidade está Illusive Man, com a voz do actor Martin Sheen. Uma personagem com personalidade forte e misteriosa, que está sempre com um cigarro na mão. Um pequeno cliché que fica muito bem localizado.

A tarefa de Shepard é reunir uma equipa, que financiada pelo Cerberus, irá tentar descobrir os acontecimentos por detrás do desaparecimento de inteiras colónias humanas. Shepard é acima de tudo um líder nato, e esta tarefa assenta-lhe como uma luva. Mass Effect 2 tem uma história extremamente bem contada. Esta pequena parte revelada aqui, é apenas uma pequena parte de todo o seu conjunto. Em linha recta, efectuando imensas missões paralelas, o jogo teve uma duração perto das 30 horas, algo simplesmente fantástico, pois em nenhuma parte senti que o jogo fosse chato, aborrecido e lento na progressão. Algo onde o anterior pecava.

Quem jogou o primeiro encontrará aqui muito terreno familiar. ?? quase como voltar a casa, mas toda ela reformulada, muito mais bonita. Mass Effect 2 é um jogo enorme e muito variado. Não só no tempo de jogo, mas também no espaço físico em que tudo ocorre. A diversidade de personagens, de raças, de planetas e ambientes conferem ao jogo um toque especial, e todo este universo que foi criado à sua volta, é tão credível e rico que muitas vezes me perguntei como é que isto ainda não está no cinema. Poderíamos responder, "Porque não precisa". E é certamente esse pensamento que deveremos ter, pois Mass Effect 2, faz-nos esquecer essa tendência, de que se um jogo for bom, com uma boa história, daria um bom filme. A questão é que Mass Effect 2 em si, no produto final apresentado, é muito melhor que muitos filmes, muito melhor que muitas séries, pois para além de nos fornecer o que de bom essa indústria tem, os efeitos cinematográficos, a banda sonora, as personagens e guião, ainda nos consegue dar mobilidade e acção em tempo real. Que mais queremos?

A Normandy é o centro de todas as operações. De lá obtemos informações úteis da nossa equipa, bem como missões, traçamos os planos, navegamos pelo universo e pesquisamos por materiais necessários para pesquisas, para construção e melhorias das armas, fatos, e da própria Normandy. Temos ao nosso dispor uma galáxia inteira para viajar, com diversos sistemas e planetas para explorar. No fundo este sistema de mapa é bastante simples e muito útil de usar. Não sendo a base do jogo, dá-nos uma margem de manobra muito grande, como um mapa que se abre ao nosso redor, podemos escolher e saltar de sistema em sistema, sempre com as informações úteis do que precisamos de fazer em cada um deles. Para fazermos bom uso deste mapa, temos que estar atentos a todas as informações no nosso "Jornal" e "Codex", pois são vitais para a compreensão do que temos que fazer a seguir.

Sobre a pesquisa de minério, é interessante a forma como está agora implementada. Podemos agora manualmente pesquisar por minério nos planetas. ?? como um mini-jogo, onde efectuamos um scanner à superfície de um planeta, sendo que conforme vamos passando irá mostrar no nosso lado direito que tipo de minério está a detectar, quando detecta algo as linhas sobem de acordo com a quantidade de minério encontrado. Após isso, lançamos uma sonda para efectuar a devida recolha. Num planeta podemos lançar as sondas que quisermos até recolher tudo. De fora ficaram as aborrecidas e extremamente confusas buscas com o veículo.

Desde o início, podemos escolher uma das 6 classes base para o nosso Shepard. Podemos escolher entre "Soldier", "Infiltrator", "Vanguard", "Sentinel", "Adept" e "Enginner". A BioWare foi lançando diversos vídeos a explicar as características de cada classe, antevendo o jogador para uma escolha mais adequada ao seu estilo. Claro que após uma classe base, sempre podemos progredir ainda mais, obtendo certas ligações com outras classes, mas nunca a fundo dentro das que estão fora da escolha base. Cada classe dá-nos uma nova perspectiva de encarar cada combate. Existem características únicas em certas classes e é interessante podermos jogar com diversas formas, elevando a longevidade do jogo em muitas mais horas. Se formos "Soldier" (foi a que usei de base), iremos ter mais facilidade no uso das armas físicas. As nossas capacidades de tecnologia biónica são muito inferiores à classe "Adept". Por outro lado os "Adept" terão mais problemas em se aguentarem em combates mais próximos, privilegiando os ataques mais longínquos e mentais.

Esta mistura de classes é transportada para os elementos da nossa equipa. A escolha sábia de cada elemento para determinada missão terá que ser levada em conta, pois irá ter resultados directos na facilidade, ou não, para o seu cumprimento. Embora muitas vezes sejamos obrigados a levar determinado elemento, devido ao objectivo a cumprir.

Em termos de mecânica de jogo, Mass Effect 2 é um TPS com muita acção. Aliás, muito mais acção que o primeiro. O factor jogabilidade é onde se notam mais melhorias. O jogo está muito mais dinâmico e fluído. A opção de escolha das armas, bem como das habilidades, é feita de forma quase instantânea e muito melhor localizada. Em termos de perspectiva de jogo, a opção de cobertura, a passagem de locais é feita agora com mais assertividade, sendo que se corrermos e chegarmos perto de uma protecção apenas teremos que pedir para se proteger, que de uma forma mais rápida e natural ele se encosta.

Também referente ao controlo dos nossos dois colegas, podemos dar ordens distintas a cada um, posicionando cada em situações estratégicas para um melhor combate. Notei também uma pequena falha, que espero que possa vir a ser corrigida futuramente. Se deixarmos os nossos colegas sozinhos, sem comandos, tudo corre bem, embora não sejam tão eficazes na escolha dos melhores lugares. Mas se começarmos a dar ordens, eles obedecem, mas o pior é quando queremos deixar de dar ordens e para que eles possam agir livremente. Como não temos ordens distintas e tudo se baseia em "vai para ali", eles ficam muitas vezes parados no local ordenado, sendo que ocorreu mais que uma vez ficarem do lado de fora de uma porta e ela se fechar, deixando-me sozinho a lutar (isso não se faz). Como referi, cada classe tem as suas características próprias, e no respeito ao armamento físico, isso irá ser diferente para cada classe, pois nem todos podem carregar o mesmo número e tipo de armas.

Algo que também melhorou imenso em relação ao anterior, é a importância e a qualidade das missões secundárias. A história é muito mais dinâmica, permitindo seguirmos um rumo mais lento ou rápido. Agora todas as conversas são apresentadas numa perspectiva mais cinematográfica, pois já não são apenas bonecos parados a olhar uns para ou outros, a escolha das frases ou simplesmente dos sentimentos faz com que as personagens se mexam e actuem de acordo com o que escolhemos. Se antes, o primor estava no voice-acting, agora todo o sistema de conversa está mais flexível e intrigante. Já não consigo achar as conversas "chatas", pois são pautadas por um realismo de comunicação e representação, tornando tudo muito credível. Os textos estão muito bem conseguidos, e as perguntas e pesquisas por novos dados mais interessantes e objectivos. ?? perfeitamente notório o esforço por parte da BioWare a este respeito. Este sistema também privilegia as relações humanas, criando vínculos maiores de amizade e ligações com os diversos membros. Como seria de esperar, estas relações em alguns casos irão mais longe que pura amizade, tudo dependerá do vosso estilo, se és mais Paragon ou Renegade.

Em termos gráficos e arte design, a BioWare está de parabéns, conseguiu-nos dar um jogo extremamente credível e com uma qualidade visual impressionante, principalmente na sensação de realidade e de grandeza que as cidades e ambientes nos fornecem. Diferente do anterior, onde certas zonas eram despidas e mal construídas em termos de níveis, aqui somos brindados por fantásticos efeitos visuais, muito devido à forma como tudo está construído. A importância com o detalhe não foi descorado, e mesmo os habitantes de cada zona são agora mais "habitantes" do que meros figurantes. O pessoal da BioWare foi inteligente em abolir as zonas externas, centrando-se mais na acção e em zonas mais fechadas. Isto não quer dizer que não existam zonas abertas, pois existem, mas estão mais próximos e quebrados em termos de níveis.

Para a minha alegria já não temos os elevadores aborrecidos, em que apenas estávamos parados a olhar uns para os outros à espera que o próximo nível fosse carregado. Agora, cada passagem que obrigue leitura de novos níveis, é-nos dado uma pequena animação tipo holograma 2D, onde nos é revelado para onde vamos. Por exemplo, se estamos numa determinada zona, vemos o elevador a descer de um piso para o outro em formato de planta do edifício, não sendo em si nada aborrecido, pois vemos que estamos em movimento. Aliás, todos os tempos de carregamento foram encurtados, sendo menos penosa a passagem de níveis.

Não queria deixar de apontar também o fabuloso trabalho de sonoplastia que o jogo tem. Em primeiro, somos brindados com excelentes representações por parte de actores conhecidos, como o já referido Martin Sheen, bem como Michael Dorn, Carrie-Anne Moss (Trinity de Matrix), a bela Yvonne Strahovski que deu a voz à não menos bela Miranda, e Seth Green que deu a sua voz a Joker. Também brilhante é a banda sonora, épica e magistral, que esteve ao cuidado do compositor Jack Wall. Quando olhamos para os números envolvidos apenas na parte sonora do jogo, é que compreendemos o quão importante este projecto é para a BioWare.

O jogo está recheado de pormenores deliciosos, muitos deles de pura criatividade. As missões são muito mais interessantes e variadas, possuindo muitas surpresas. Quando pensamos que X missão será como tirar um chupa a uma criança, as coisas mudam de tal forma que tudo se torna imprevisível. Arrisco a dizer, que Mass Effect 2 consegue ser um jogo de aventura e acção com muita mais qualidade que muitos jogos de topo de acção e aventura. A diversidade de jogabilidade e a formatação de cada nível conferem um divertimento extremamente elevado, onde temos momentos cómicos, acção, romance e até de terror, onde a adrenalina sobe ao máximo. As opções que tomamos durante o jogo são vitais para o desenrolar do mesmo e que tipo de final teremos. Esses momentos de decisão ficam intimamente ligados a nós, pois não raras são as vezes que demorei a tomar decisões a pensar no que isso iria resultar.

Já devem ter saltado logo no início da leitura para esta página. Mas quem conseguiu ler até aqui, deverá conseguir perceber que Mass Effect 2 é algo único, uma pérola a ser descoberta por aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer o fantástico mundo por detrás de Mass Effect, e a ser consumido calmamente pelos fãs directos. Em suma, estamos perante do que melhor se faz nesta indústria. Mass Effect 2 é um épico em todos os sentidos, não descurando quase nada. Consegue-nos agarrar até ao último segundo, e ainda nos permite ir mais além. Da minha parte, tenho já tudo gravado, e que o capítulo final não demore muito.


1 comentário

||
Eurogamer
10/ 10
Média da crítica
Média dos usuários
Sua nota

Sobre o colaborador

avatar de Giordano Trabach

Reviews da crítica

©2016 GameVicio