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Review de Madworld para Wii de Fliperama

por Giordano Trabach, fonte Fliperama, data  editar remover


Fãs de filmes trash e do Terrir devem se lembrar de A Morte do Demônio 2 e aquela cena logo no começo da película, em que o herói Ash luta violentamente contra sua própria mão, possuída por uma entidade obscura, até arrancá-la num só golpe. A imagem veio a tona na minha cabeça enquanto conduzia a análise de MadWorld, da Platinum Games, mais um jogo de temática madura para o familiar console Wii. Ambos a cena do clássico de Sam Raimi e o game apostam em trechos de extrema violência e mau gosto, mas o jeito como os dois são conduzidos com humor e estilo quase te fazem esquecer que um homem está a decepar a si mesmo ou que outro está a mutilar centenas com uma serra elétrica acoplada ao braço. O resultado são mais risadas do que caras de choque ou repulsa. Há algo em ver Jack, o anti-herói do game, dobrando a espinha de um adversário até que sua cabeça vá parar no traseiro que remete à ???violência??? de um episódio de Tom & Jerry ou Comichão e Coçadinha.

Boa parte disso tem a ver com o clima do game. Jack, o anti-herói de MadWorld ???vive??? em Varrigan City, uma cidade dominada por maníacos e terroristas e onde o vermelho sangue é a única coisa a destoar do cenário monocromático. ??, de fato, um mundo louco e a violência, tanto quanto em filmes como Kill Bill e Cães de Aluguel, serve mais ou menos para pontuar uma sólida direção artística, focada no tom sóbrio de romances de detetives e quadrinhos como Hard Boiled e Sin City. Mas diferente de Kill Bill, tudo no game tem um tom caricato e exagerado. Jack discorre em um momento sobre a natureza violenta do humano e a verdadeira natureza do mal, só para depois cortar lobisomens ao meio e arrancar parafusos das costas de um frankenstein gigante. O jogo funciona sob suas próprias regras, e nelas, a violência é apenas um detalhe de um pacote sensorial incomum e interessante. Mas vamos por partes.

Jogos mortais
Como já disse, o personagem principal é Jack, um homem frio e misterioso que aparece uma certa noite em Varrigan City. A metrópole está sob controle de assassinos e terroristas, que fecharam as entradas e saídas da cidade e jogaram no ar um poderoso agente nocivo. O antídoto é oferecido pelos caras maus, mas apenas se o sujeito matar outras pessoas e se inserir no sangrento Deathwatch, uma espécie de olimpíada de assassinato toda televisionada. Jack se infiltra no local para impedir que a festa se estenda pela noite, mas o anti-herói tem mais na cabeça do que salvar vidas e a trama é deliciosamente mais profunda do que o simples ???aqui estão os bandidos e aqui está você??? de jogos de ação. Nada de se estranhar, com Yasumi Matsuno, de Final Fantasy, responsável pelo roteiro. Só não vá esperando um Cidadão Kane da vida. A narrativa ocorre entre cenas no melhor estilo HQ, com imagens fixas e os modelos 3D se destacando dos quadros de fundo.

Outro nome pomposo envolvido com o projeto é o de Hideki Kamiya. Seu time é responsável por Devil May Cry e Viewtiful Joe e isso nos ajuda a definir a jogabilidade de MadWorld com mais detalhes.



Veja bem, onde o game de ação Devil May Cry exigia respostas rápidas e ágeis de combate e Viewtiful Joe uma boa noção de ritmo e timing, MadWorld apresenta ao gamer um personagem extremamente poderoso e uma mecânica de batalha que se foca no estilo. Os espectadores do programa Deathwatch são um público um bocado insaciável, e tudo o que o jogador faz conta pontos a favor de impressionar a platéia. Combos velozes de socos podem ser aplicados com o botão A, enquanto a mão biônica é controlada pelos movimentos horizontais e verticais do wiimote. O botão B ativa a serra elétrica. Mas, mesmo que uma só estocada com a motoserra seja o suficiente para matar de primeira muitos dos vilões, é explorando as possibilidades de combate que o jogador consegue acumular mais pontos. Violentos e divertidos golpes de misericórdia podem ser aplicados quando o jogador surra um adversário, há a possibilidade de agarrar inimigos e lançá-los para longe, usar diversos itens do cenário para trucidar os maníacos e mesmo manejar armas encontradas pelo cenário. Vale dizer: os movimentos do Wiimote se mantém simples, exigem pouco do jogador e ainda assim conseguem passar uma sensação agradável de que você está no controle da personagem O sistema de combate é também um pouco mais profundo do que pareça ser, e a física Havok apenas vem adicionar a um competente sistema. O problema? O jogo parece nunca perceber isso e seu design dirige o jogador para uma experiência repetitiva na maioria de sua curta experiência de jogo.

Serre primeiro, pergunte jamais
De longe o melhor jeito de acumular pontos está em cravar postes na cabeça dos inimigos, prende-los em pneus ou barris e lançá-los contra paredes de espinhos. ?? uma rotina básica pela qual o jogador se vê encorajado a participar incessantemente, visto que as armadilhas espalhadas pelo cenário são escassas variações sobre um mesmo tema. Em resumo: jogue coisas contra inimigos, jogue inimigos em coisas e repita. Mas a incapacidade que o game tem em se manter fresco e novo em minha opinião, não tem tanto a ver com o que está a disposição do jogador (itens, armas, combos e até mesmo tipos de inimigos), mas com a impressão de que o time da Platinum não se preocupou em criar cenários e contextos variados para as ações de Jack. Toda e qualquer fase do jogo consiste em uma ampla arena ??? seja a pé, seja sobre uma enorme moto - e a verdadeira progressão de jogo está em justamente contabilizar os pontos necessários para enfrentar o chefe final. Não há áreas que explorem outras nuanças do combate, como talvez ação furtiva ou a captura de certos alvos, ou mesmo a manutenção de sua própria energia ou inventário. A meta é sempre derrubar o que lhe vier pela frente, sem mais perguntas.



Os BloodBath Challenges, que ocorrem quando se alcança um dado número de pontos numa fase, ajudam a injetar uma necessária dose de variedade ao game. Aqui, jogadores são recepcionados pelo divertido Black Baron e desafiados a cumprir uma série de objetivos humoristicamente grotescos: lançar pessoas como dardos e usar cabeças de zumbis como bolas de golfe são apenas alguns exemplos. Apesar de um ou outro se repetir conforme o game evolui, eles são bem originais e ajudam a quebrar um pouco o ritmo facilmente monótono do resto do game. Claro, não vamos nos esquecer também dos chefes, por si só as estrelas do game. Nesse sentido, MadWorld me trouxe a mesma sensação de assistir ao filme 300, vendo os espartanos confrontarem exércitos dos mais variados, elefantes mutantes e gigantes mal encarados, e me perguntando que mais que os produtores iam jogar em cima deles. Jack enfrenta um rol ainda mais variado e excêntrico de vilões, cada um desafiador, com sua trama, seu estilo de combate e animações próprias. As batalhas vão se tornando cada vez mais e mais absurdas e até hilárias, mas o combate final peca em relação ao resto, tornando o final do game um bocado anticlimático. Bem, depois de enfrentar ninjas assassinos, robôs com espadas e todo o tipo de louco, o chefe final soa um pouco ???apropriado??? demais.

MadWorld me surpreendeu com o modo multiplayer, mas dele não vale escrever muito. O game disponibiliza todos os Bloodbath Challenges para dois jogadores em um modo split-screen. Como de praxe, vence aquele que conseguir o maior número de pontos no final da rodada, e o desafio se resume a isso. Não há campeonatos, suporte para Ranking ou nada do gênero. A experiência é superficial na melhor das hipóteses, e parece que foi colocada apenas pra não deixar de dizer: esse aqui dá pra jogar de dois!

Daltonismo, rimas e comédia pastelão
Preto no branco, MadWorld é um dos mais criativos pacotes visuais do console Wii. A Platinum soube trabalhar com as limitações técnicas da plataforma da Nintendo e apostou em estilo, e não conteúdo. Como já foi dito, o game tem um visual que lembra os quadrinhos, todo em preto-e-branco, com personagens caricatos. Mas há algo na direção de arte de MadWorld que consegue mesclar bem conceitos artísticos orientais e ocidentais. O sangue, vermelho vivo, jorra como em uma pincelada aquarela em um tradicional quadro japonês. Ideogramas diversos são sobrepostos por onomatopéias gritantes e há muito trabalho artístico relacionado ao espaço negativo, uma característica inerente à arte oriental. Em termos mais técnicos, os cenários e personagens são todos montados no estilo cel shading, com texturas chapadas e grossas linhas de contorno. As linhas ajudam a suavizar os modelos tridimensionais meio quadradões, mas, junto com o visual, tornam difícil encontrar pequenos itens ??? como pílulas de vida ??? pelo cenário. Definitivamente, não é um game recomendado para quem não consegue discernir bem entre tons de cinza.



O visual monocromático ajuda ainda a criar uma sensação de unidade e coerência à toda a loucura do game, um efeito que seria difícil de ser alcançado em um jogo colorido. Porque tudo é preto e branco, visitar uma ruela escura para depois cair em um grande castelo samurai soa a coisa mais natural do mundo, pois justamente as cores dão aos diferentes cenários uma unidade similar. O problema disso você já pode ter suposto: o fantasma da repetitividade também assombra os visuais de MadWorld. Mas aqui o efeito é menos grave. A quantidade de novos adversários, novos cenários e de chefes insanos ajuda a promover uma sensação de novidade, mesmo que toda coberta pela mesma textura bicolor.A experiência sensorial de Mad World se estende também a um competente trabalho sonoro. A trilha foi composta pelo compositor japonês Naoto Tanaka e conduzida por nomes do Hip Hop como OX, Doujah Rage, Sick-YG, Bandy Leggz e Wordsmith. A parceria inusitada criou um som que se comunica com o visual do jogo: radical e altamente estilizado. Algumas músicas, garanto, vão ficar na sua cabeça por algum tempo e agradarão até aqueles que nunca deram muita bola para o cenário Hip Hop (leia-se: eu). Outra parceria que solidifica a direção sonora do game são os dois comentaristas que narram a ação e as atividades de Jack conforme o jogo passa.

Os comentários são cortesias da dupla de atores Greg Proops e John Dimaggio. Dimaggio deve ser mais conhecido pelo público brasileiro por ser a voz original do robô Bender de Futurama, e acredite que todo seu humor cínico está de volta neste game, acompanhado de piadas de tom sujo e, por vezes, mórbido, mas nunca ultrapassando o nível grotesco. Talvez nunca ultrapasse também o nível de comédia pastelão de segunda, mas não há como negar: Proops e Dimaggio têm uma química interessante, e é sinceramente divertido quando um ataca a ex-mulher do outro, ou quando trocam perguntas capciosas sobre suas mães ou sobre o que raios Jack está fazendo na aventura. Para quem entende de inglês é um prato cheio e um complemento ao humor negro que permeia o game. Infelizmente, não há a opção de inserir legendas nos comentários, o que poderia facilitar o entendimento de algumas frases rápidas ou da pronúncia às vezes enrolada dos dois. Entendimento que também pode ser complicado por momentos estranhos de cacofonia: o som cortante do motor do braço de Jack, o palavrão de um inimigo, as piadas de Proops e Dimaggio e a música rap às vezes se juntam em uma certa bagunça sonora. Não é algo que vai estragar a experiência, mesmo porque há a opção de desligar alguns efeitos sonoros, mas não deixa de chamar a atenção do jogador em alguns instantes.

No fim do dia, MadWorld é um destes games do catálogo do Wii que merecem um espacinho especial, justamente porque há neste título da Platinum Game um grande esforço em trazer uma experiência madura e única, feita para fugir do público casual. Mesmo que muitos dos truques do jogo se tornem velhos rapidamente e a mecânica de jogo sofra com uma rotina redundante e repetitiva, creio que há muito aqui a ser aproveitado. Um ótimo game para matar um pouco daquele stress do fim do dia, sem sombra de dúvidas.


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