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Review de inFAMOUS para PS3 de Gamerview

por Giordano Trabach, fonte Gamerview, data  editar remover


InFAMOUS é o mais novo jogo desenvolvido pela Sucker Punch, exclusivamente para o PlayStation 3. A desenvolvedora, mais conhecida por seus antigos trabalhos da série Sly Cooper, toma aqui um viés não apenas mais sério como também um tanto audacioso com seu novo jogo. A história revolve em torno de Cole McGrafh, um entregador que, em um dia como outro qualquer, está em seu caminho levando uma encomenda. Desconhecido a ele é o fato de que, dentro do pacote, encontra-se um dispositivo parecido com uma bomba, que acaba sendo ativado. A explosão dizima toda uma área de Empire City, destruindo prédios e matando centenas de pessoas. Para piorar, uma epidemia faz com que o governo coloque a cidade em quarentena, oferecendo quase que nenhum auxílio e a deixa isolada do resto do continente. Entretanto, por estranhas razões, Cole que estava no epicentro do desastre, sai ileso. Mais do que isso: Cole agora é capaz de usar diversos poderes relacionados à eletricidade.

Se o resumo acima fez com que você lembrasse de uma dezena de histórias em quadrinhos de super-heróis, saiba que isto não é mera coincidência. O jogo sabe o tipo de enredo que quer apresentar e a maneira como quer apresentá-lo. Todos os pontos importantes da trama são contados através de desenhos estilizados muito bonitos, com a narração de Cole ao fundo. O interessante é que estas narrações não apenas remetem imediatamente às HQs citadas, como também não deixam a cadência do jogo cair. Os eventos são apresentados de maneira veloz, deixando de lado qualquer lengalenga, e o colocam de volta na ação rapidamente, sem que você sinta que a história tenha sido contada rápida demais. Além disso, se por um lado o roteiro não receberá prêmios por originalidade, por outro ele é muito bem contado. O ator do personagem de Cole faz um ótimo trabalho, reiterando continuamente como seus poderes estão, gradativamente, deixando-o à margem da vivência com outras pessoas e como a solidão é cada vez mais uma realidade inescapável.

E é muito interessante que Empire City, local onde se passa todo o jogo, contribua muito para que este sentimento seja lembrado a todo o momento. Mecanicamente falando, trata-se de uma estrutura Sandbox, em que a cidade é seu ???playground??? a ser explorado, como em GTA e Saints Row, por exemplo. Posso dizer, sem medo nenhum, que se trata de uma das cidades mais interessantes e bem-construídas que encontrei em um jogo cuja exploração é caracterizada desta maneira. ?? possível ver um quê de paródia com uma grande cidade como Nova York, mas ao mesmo tempo elementos muito únicos podem ser encontrados. Em certas partes da cidade alguns detalhes arquitetônicos lembram o gótico, enquanto em outros lugares podemos ver construções mais simples e desarranjadas, remetendo a partes da metrópole com menor desenvolvimento.

Não importa por qual ângulo ela seja vista, Empire City é uma cidade única e seu tom eternamente acinzentado e estado deplorável na qual se encontra remetem, constantemente, à solidão que assola Cole. Além disso, existem outros pequenos detalhes que aumentam o clima: o silêncio quase perpétuo, anulado ocasionalmente por uma música tímida que não dura mais do que poucos segundos, seu melhor amigo falando sobre seus antigos conhecidos e o que outros têm falado sobre você nas ruas. Tudo isso, entre outras coisas, servem para que nos sintamos à parte de qualquer resquício de uma vida cotidiana que ainda exista aqui. Empire City é, definitivamente, a personagem mais importante do jogo.

?? claro que apenas o clima e uma boa narrativa não sustentarão um game caso sua jogabilidade seja insatisfatória. A boa notícia é que InFAMOUS oferece uma jogabilidade muito bem construída, mesmo apresentando algumas falhas no percurso. Além de dispormos de poderes elétricos, podemos escalar qualquer prédio e construção sem dificuldade nenhuma. Não é necessário fazer nada, Cole automaticamente gruda em beiradas e fendas, tornando o processo muito simples. Entretanto, é aqui que o jogo comete seu primeiro tropeção. Apesar de a mecânica ser funcional, ela apresenta vários pequenos defeitos que são facilmente encontrados. Não é raro que Cole fique ???sambando??? no ar em cima de uma beirada, sem que se decida para qual lado deve cair. Atravessar grades ou cabos também não é incomum. Há uma grande inconsistência em relação ao que pode e ao que não pode ser escalado.

A maior parte do cenário pode ser agarrado sem problemas, entretanto em outros isso não é possível. O problema é que não há nenhuma explicação lógica do porquê, e nenhuma diferença gráfica é apresentada. Algumas vezes vemos dois objetos idênticos sendo que um pode ser escalado e outro não. E as inconsistências não se limitam apenas a isso. A água, por exemplo, é outro enigma. Cair em algumas delas significa morte instantânea, enquanto de outras é possível sobreviver caso nos movamos rapidamente. A princípio achei que se tratava de uma diferença entre a água do oceano (morte certa) e a água dos esgotos. No entanto o próprio esgoto apresenta variação sem nenhum aviso prévio. Essas pequenas inconsistências podem não ser algo muito significativo levando em conta tudo o que o jogo consegue fazer muito bem. Ainda assim, é impossível negar o fato de que elas levam a alguns momentos de frustração e mortes inevitáveis, apenas porque padrões que você crê ter decifrado são quebrados arbitrariamente.

Mortes que estão fora de seu controle podem acontecer em outros momentos também, em especial por ser difícil de precisar a direção de onde o ataque inimigo vem. Não há uma indicação clara na tela, e enquanto anda pela cidade, Cole pode ser atacado por todas as direções. Não digo apenas pelos lados e por trás. Os inimigos estão presentes em trilhos de trem, telhados, varandas etc. Isto não é um problema tão grande até o ponto em que eles começam a dispor de granadas e mísseis. Em mais de um momento ouvi o barulho de um míssil vindo em minha direção, apenas para ter certeza de que já era tarde demais - uma explosão certeira significa uma morte em quase cem por cento dos casos, o que leva, novamente, a mortes frustrantes. No entanto essas frustrações não duram muito, já que a morte não traz nenhuma conseqüência no mundo de InFAMOUS.

Os checkpoints são vários dentro de cada missão. Ou seja, é quase impossível perder qualquer progresso. Ao morrer, retêm-se a experiência adquirida até o momento da morte. ?? possível adquirir novos poderes mais rapidamente morrendo do que terminando as missões na primeira tentativa. ?? verdade que os problemas acima mencionados estarão presentes durante todo o percurso da aventura, mas eles não são, de maneira alguma, grandes o suficiente para ofuscarem todo o brilho que o jogo oferece.

Devido aos seus poderes elétricos, Cole não consegue mais entrar em nenhum tipo de veículo. Segundo o que é dito, caso ele entre em um carro este explodirá instantaneamente. Toda a exploração na cidade é feita a pé, seja correndo, pulando de prédio em prédio ou deslizando, com ajuda de seus poderes, por cabos e trilhos de trem. Devido a essa limitação a cidade não é tão grande quanto às vistas em outros jogos, mas ela não é também pequena. Encontrou-se um equilíbrio entre um tamanho que oferece muito a ser explorado, sem que a tarefa de correr de um canto ao outro da metrópole se torne algo chato. A aventura tem uma boa duração, cerca de dez horas, mas pode durar mais caso você faça todas as missões secundárias e vá atrás de todos os objetos colecionáveis.

Existem dois tipos de objetos a serem coletados e ambos oferecem recompensas que fazem sua caçada valer a pena. Os Blasts Shards podem ser encontrados às dezenas e é através deles que a sua capacidade de armazenar eletricidade é aumentada. O outro tipo, os Dead Drops, existe em menor quantidade, mas ao encontrá-los ouvimos gravações que nos contam maiores detalhes do enredo, além de informações que não são mostradas no decorrer da trama principal. As missões secundárias, por sua vez, não são úteis apenas pela experiência que fornecem. Quando se completa uma delas, uma área da cidade é conquistada, eliminando quase que totalmente a presença da gangue que dominava a região. Fazer isto é quase uma necessidade, caso contrário balas choverão em você durante todo momento de sua exploração. As missões secundárias existem em número muito maior do que das missões principais, mas devido a sua pequena variedade elas se tornam um tanto repetitivas no decorrer do jogo. Não é nada que vá impedi-lo de realizá-las, mas algumas tomarão o caráter de obrigação. Além disso, existem trinta missões que são respectivas aos rumos que você opta por seguir: quinze para quem escolhe ser bonzinho e quinze para quem escolhe ser mal.

A escolha entre os dois caminhos não se dá de maneira muito original. Em alguns momentos do jogo você é apresentado com uma escolha e, de acordo com sua decisão, seu karma é mudado para um dos dois pólos. O contraste entre as escolhas são muito óbvios e absolutamente maniqueístas. Quase sempre se dividem entre ajudar os outros ou pensar constantemente em si mesmo. Estas escolhas, na grande maioria dos casos, não guardam nenhum tipo de surpresa, mas ainda bem que toda regra tem uma exceção. Em um ponto mais à frente da aventura uma escolha é apresentada a Cole e nenhuma solução óbvia é mostrada. Não há uma divisão clara entre o que é bom e o que ruim; tudo pende apenas sobre a sua moral. Este momento é de longe o mais interessante de todo o jogo, me pegou de maneira inesperada e o resultado chegou como um soco no estômago. Este é apenas um caso solitário, não muda o fato de que as escolhas morais presentes no game não mostram nada de muito diferente do que já vimos diversas vezes. De qualquer maneira foi uma agradável surpresa.

O seu karma determina uma série de fatores dentro do jogo. Afetando diretamente a jogabilidade, está o fato de que cada um dos dois pólos apresenta poderes elétricos diferentes a serem adquiridos. Os dois se equilibram, sem que um pareça mais poderoso do que o outro. A diferença está no tipo de efeito causado ??? poderes do bem se concentram mais em restringir inimigos ou causar dano sem que tudo à sua volta seja destruído, enquanto poderes do lado maligno causam uma área de destruição maior sem se importar com a vida de quem é atingido. A aparência física de Cole também muda dependendo de seu karma; seus raios se tornam vermelhos e ele ganha um visual mais decrépito e decadente caso siga o caminho da maldade. Além disso, a outra grande mudança está em alguns momentos chave da história do jogo. A maneira como Cole encara certos fatos, como alguns personagens interagem com ele, mudam dependendo do caminho escolhido. Algumas dessas mudanças são um tanto significativas, mas é um pouco decepcionante que a conclusão da trama não se altere; ela é uma só para os dois caminhos.

?? interessante notar que apesar das escolhas decidirem o caminho que será traçado, Cole não é uma folha em branco. Ele tem uma personalidade própria e é apenas por isso que sua solidão é tão palpável. Ainda assim, ele é criado de tal maneira que não importa qual dos dois caminhos seja seguido, nenhum destoa da personalidade pré-estabelecida do personagem; na verdade, as duas, cada uma à sua própria maneira, o completam. Apesar disso é necessário fazer uma ressalva de que, levando o contexto como um todo, os momentos que não podem ser alteradas na trama são muito mais condizentes com a decisão de ser bom; mas escolher ser mal não o fará sentir que jogou o jogo de maneira ???errada??? nem nada do tipo.

Olhando para o produto final em retrospectiva, é um tanto irônico ver como suas qualidades e defeitos aparecem lado a lado de forma óbvia, da mesma maneira que suas dicotomias em relação às escolhas morais. Enquanto o jogo oferece um combate interessante e preciso contra os inimigos normais, as lutas contra os chefes são fracas, decepcionantes e sem-graça; enquanto é capaz de proezas técnicas como oferecer a cidade inteira para exploração sem quase um único loading, o jogo sofre de constantes pop-ins (texturas ou elementos que demoram a surgir na tela, como árvores) e de bugs menores. Se formos apontar a dedo todos os problemas encontrados, eles certamente seriam numerosos. E, apesar de eles contribuírem para uma apresentação não muito polida, ao pegarmos o todo veremos que eles podem ser facilmente ignorados. InFAMOUS comete alguns erros, disso não há dúvida. Mas, felizmente, seus acertos são muito mais valiosos e contundentes do que qualquer tropeção que o jogo possa ter cometido.

Prós:
  1. Cidade muito interessante e bem construída
  2. Poderes variados e divertidos de serem usados
  3. Trama bem contada


Contras:
  1. Inconsistência em algumas mecânicas
  2. Escolhas morais muito óbvias
  3. Chefes fracos e pouco marcantes
  4. Constantes pop-ins



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