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Review de The Witcher para PC de Outer Space

por Guimephiles, fonte Outer Space, data  editar remover


The Witcher é um dos raros jogos de RPG da atualidade que se destacam por levar a sério o compromisso de contar uma boa história. O grande trunfo do enredo está na façanha de explorar as inconsistências da condição humana, sem apelar para o tradicional preto no branco, bem contra o mal, presentes na imensa maioria dos jogos do gênero. A qualidade excepcional da trama deve-se, em parte, ao fato de ser uma adaptação direta do livro ???O último desejo??? do escritor polonês Andrezj Sapkwoski, que descreve uma fantasia medieval adulta e sombria, muito mais próxima da idade das trevas de nossa própria História.

Humano, demasiado humano

O jogo começa de um jeito bem tradicional. O protagonista é Geralt of Rivia, um famoso Witcher desaparecido há cinco anos que ressurge com uma conveniente amnésia em meio a uma batalha entre seus companheiros de profissão e um bando de criminosos liderados por um poderoso feiticeiro. A perda de memória dá a deixa para a introdução das mecânicas do jogo e, de quebra, explica por que o famoso guerreiro tem de reaprender todas as técnicas e magias adquiridas com níveis de personagem.

Após a batalha, Geralt é encarregado de se infiltrar na cidade de Vizima em busca dos bandidos, mas é obrigado a se estabelecer na taverna da vila mais próxima graças a uma quarentena. Para conseguir passagem, Geralt tem que adquirir o favor dos líderes da comunidade e caçar o cão do inferno que os atormenta. No entanto, o que parece ser uma simples caçada acaba levando a uma difícil escolha entre o melhor dos piores, pois no fim todos são culpados. Inocência é, inclusive, algo bem raro, e o jogador deverá lidar com contrabandistas, guardas corruptos, fanáticos religiosos, terroristas raciais, muitas vezes sendo obrigado a se aliar a eles e aprendendo a nunca julgar um livro pela capa.

Em toda esta baderna moral, o próprio Geralt não passa nem perto do modelo do herói politicamente correto, a começar pela aparência bizarra. Os Witchers são mutantes geneticamente alterados por substâncias mágicas, imunes a doenças, capazes de beber venenos que dão habilidades sobre-humanas e providos de grande longevidade, mas em troca estes caçadores de monstros sofrem de infertilidade e discriminação de humanos, feiticeiros, elfos e anões. Como resultado, na maioria das vezes é o dinheiro que incentiva o Witcher, e seus comentários são sempre recheados de sarcasmo e cinismo.

A propósito, não há muito espaço para pudores nesse jogo. Existem diversos elementos que caracterizam uma experiência indicada para maiores: a nudez é visível em alguns monstros, xingamentos de baixo calão são parte da linguagem diária e até os mini-games são ???esportes??? para machos. Jogos de azar, competições de bebedeira, clubes da luta e a perseguição de cada rabo de saia que aparece para casuais relações carnais são algumas das atividades que afirmam a virilidade de Geralt.

O elemento mais cativante da história é, em especial, a forma como é contada. A ambivalência moral do enredo é acompanhada por cenas em pontos chave que mostram como as conseqüências das decisões do jogador alteram a trama, às vezes relacionando até as escolhas tomadas em capítulos anteriores. Isso surpreende o jogador e motiva-o a realmente prestar atenção no que faz, mostrando que fazer a coisa certa pode ser o mais difícil. Essa qualidade inovadora permite que o jogador cometa erros e aprenda com eles, criando seu próprio caminho na história.

A maioria dos jogos tende a ter apenas caminhos certos, e as opções sempre levam para ações óbvias e imediatas. Todos dizem ao jogador o que e como fazer, evitando qualquer chance de deixar ele pensar. Em The Witcher, isto é diferente: a história principal é sempre a mesma, mas as maneiras de chegar lá são tão distintas que o jogador tem de se manter alerta para não tomar decisões precipitadas ou ofender sem querer seus possíveis aliados com palavras e atitudes que vão além da capacidade de perdão.

Em todo RPG, o combate é tão freqüente que um sistema interessante vale por 50% do jogo. Felizmente, o sistema de combate ativo de The Witcher é também um de seus pontos altos, pois apresenta grande variedade e desafio estratégico com uma interface simples e atalhos bem posicionados. Ao invés de se concentrar no apertar frenético de botões de outros RPGs de ação, o jogador aqui deve coordenar seus cliques nos momentos certos para completar as seqüências de golpes que variam entre os fortes para monstros grandes, golpes rápidos para inimigos ágeis, e espalhados para enfrentar vários oponentes. Além disso, é importante escolher a arma certa para a ocasião e o estilo de luta varia para cada tipo de monstro.

Os Witchers sempre carregam duas espadas: uma de aço para lidar com humanos e animais e outra de prata para enfrentar seres sobrenaturais. Armas secundárias como machados ou tochas podem ser adquiridas dos inimigos, mas a falta de estilos de luta as deixa obsoletas. O uso de poções é um grande fator no combate. As armas podem ser melhoradas com óleos especiais, bombas de efeitos variados podem espantar ou cegar inimigos e as magias funcionam como recursos de suporte, e se revelam muito úteis para adquirir a vantagem sobre os inimigos. Não há nada desequilibrado que garanta a vitória fácil: as magias não são especialmente mortais, as poções envenenam e tem efeitos colaterais e a escolha das habilidades deve ser cuidadosa.

Witcher tem gráficos excelentes, compostos de cenários muito bonitos e de texturas bem escolhidas ??? tudo construído sobre uma modificação da engine de Neverwinter Nights. A interface minimalista do jogo é bem distribuída e fácil de acessar, e não afeta em nada a visibilidade. E há a opção de três distâncias de câmera: próxima, distante e acima do ombro -- muito apropriadas para seus propósitos, como privilegiar o combate ou a exploração.

A trilha sonora e os sons ambientes são igualmente bem feitos e variadas, com temas soturnos e perturbadores nas criptas e cemitérios, alegre e descontraídos nas tavernas, emocionante e tenso nos combates.

Outros detalhes dignos de nota são o sistema de clima, a física realista e a notável presença de vida animal. A transição dia e noite é bem suave, folhas e arbustos balançam ao vento e dias nublados são acompanhados por chuvas e ocasionais tempestades. Vários objetos são suscetíveis à gravidade, bastando o uso de uma magia de vento para espalhar tudo. A vida animal é o toque especial que dá cor ao ambiente: gansos, cães, sapos, pássaros, ratos, gatos, e vários outros estão sempre presentes para dar mais veracidade ao mato.

Nem tudo são flores

Infelizmente, para contrabalancear as diversas e surpreendentes qualidades, existem alguns problemas graves e alguns erros impossíveis de ignorar. O sistema de alquimia, por exemplo, é muito bem balanceado (o jogador pode simplesmente clicar nas fórmulas que aprendeu, ou pode dar mais atenção ao processo e criar poções mais potentes), mas há um problema no inventário, que parece suficiente no início, mas logo se revela bem limitado. Há uma imensa variedade de itens, comidas, bebidas, partes extraídas de monstros e plantas coletadas com herbalismo que rapidamente lotam os compartimentos e ainda pra completar são representados por ícones minúsculos, facilmente desorganizáveis, transformando o processo de fazer poções em algo lento e complicado.

Salvar o jogo é um processo demorado, que consome até 1 minuto quando em conjunção com as frequentes telas de ???loading???. Mesmo máquinas potentes com bastante memória RAM vão sofrer essas demoras. Travamentos e bugs são menos freqüentes mas acontecem mesmo aplicando o patch mais atual até o momento.

Além dessas questões operacionais, existem ainda alguns erros evitáveis que acabam diluindo a imersão da narrativa. As animações dos personagens são repetitivas e minimalistas ao extremo, tirando todo o impacto e credibilidade das dublagens carregadas do jogo. Os modelos de personagens secundários são reusados de maneira descarada, e a interação com vários deles na missões principais do jogo torna-se decepcionante. O sistema de combate também tem suas inconsistências: as animações são constantemente interrompidas e às vezes ocorrem vários efeitos que não são representados visualmente, dificultando muito nos momentos de tensão, em batalhas de chefe ou do nível alto de dificuldade. A tradução do jogo e as transições de eventos também é confusa às vezes e, em momentos de distração, é possível perder a conexão dos acontecimentos, exigindo bom senso e atenção redobrada.



O Veredicto
: The Witcher é um ótimo RPG, mas poderia ser muito melhor se não viesse com alguns inconvenientes técnicos que fazem um forte contraste com as qualidades do jogo. A ação empolgante é frustrada pelas constantes interrupções; o sistema de poções é inteligente e variado mas foi atrapalhado pela dificuldade de manejar o inventário simplista, limitado e desorganizado; as decisões importantes podem ser afetadas pela eventual tradução confusa ou falta de clareza na relação de alguns eventos; e bugs e tempos de carregamento longos podem irritar. Os jogadores capazes de perseverar e relevar a importância de algumas falhas serão tremendamente recompensados, mas os perfeccionistas ou impacientes podem acabar se decepcionando. Em última análise, a presença das características essenciais de um grande RPG, como a ótima história, aliada a toques interessantes como a incerteza ética e ausência de moralismos, transformam The Witcher em um RPG verdadeiramente memorável.


Prós:

Excelente ambientação e enredo, contado de maneira envolvente e imersiva;
??timos gráficos;
Sistema de combate simples, variado, estratégico, desafiador e ativo;
Trilha sonora, dublagens e sons ambientes bem adequados;
Personagens muito bem caracterizados e com vontade própria;
Trama com moralidade ???além do bem e do mal??? aborda temas difíceis como racismo, religiões e direitos humanos.


Contras:

Load times longos demais;
Repetição excessiva de modelos de personagens secundários;
Animações de combates interrompidas causam problemas em combates difíceis;
Bugs e travamentos ainda presentes;
Inventário minimalista demais, desorganizado e difícil de manejar.


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